Crítica | Cara x Cara – 1ª Temporada

O que uma premissa simples, mas inteligentemente construída e desenvolvida, casada com um bom elenco e uma excelente direção de atores não consegue fazer, não é mesmo? Cara x Cara (enganosa e mal feita tradução nacional para Living with Yourself ou algo como Vivendo Consigo Mesmo) é uma dessas obras que mostra que menos pode ser mais e que não é preciso muito mais do que carinho e cuidado para se criar algo memorável.

Usando uma premissa típica de ficção científica – a clonagem – o drama com tons cômicos que não é dramédia e muito menos sci-fi estrelado por Paul Rudd em papel duplo tem como grande objetivo fazer o espectador olhar para si mesmo e pensar no que foi, no que é e no que pode se tornar. E, do jeito que os breves oito episódios são feitos, Cara x Cara funciona muito bem tanto para jovens adultos quanto para homens e mulheres de meia-idade ou até mais velhos, já que a natureza “espelhada” dos roteiros faz com que seja possível observar a trama a partir de dois pontos de vista, o do jovem olhando para o futuro e o do mais velho olhando para o passado.

Paul Rudd vive Miles Elliot, um publicitário casado há 10 anos que está em um ponto da vida em que não liga mais nem para sua profissão, nem para sua esposa Kate (Aisling Bea). Ele vive uma vida tediosa, no automático, de puro marasmo que ele não tem força ou vontade para mudar, apesar de já ter sido um brilhante profissional e um ótimo marido. Entre a rotina diária e a tentativa de ter filho sempre barrada por seu medo (e preguiça) de ir até uma clínica de fertilidade, Miles é o que todo mundo pode se tornar se cuidados conscientes não forem tomados. Seu estado o leva a acatar a sugestão de um colega de trabalho que diz ter tido sua vida mudada pelo tratamento em um spa. Chegando lá e completamente alheio a exatamente o que o spa faz, Miles é clonado, com sua mente copiada para um corpo já adulto idêntico ao dele. O problema é que o processo envolvia a morte do velho Miles, o que, por um erro, não acontece e os dois passam a coexistir.

O primeiro aspecto que chama atenção do espectador é como os dois Miles são fisicamente diferentes sem que nenhum CGI seja usado. Figurinos, posturas, maquiagens e cortes de cabelo diferentes transformam o velho Miles no novo Miles e vice-versa, com um desses momentos acontecendo diante das câmeras de maneira muito parecida ao que vemos na “transformação” de Clark Kent em Superman no clássico Superman – O Filme. Rudd merece também aplausos por criar convincentemente duas versões do mesmo personagem aparentemente sem esforço algum, representando, diante das câmeras, um conflito que, diria, todo mundo passa pelo menos em algum momento da vida: que versão de nós mesmos queremos/preferimos/conseguimos ser?

Quando o velho Miles, descabelado, com roupa manchada e cabisbaixo vê o novo Miles com penteado jovial, roupa impecável e postura altiva, ele vê seu passado, ele vê um retrato de quando era exatamente assim pensando que seu futuro seria sempre ensolarado e apaixonado. E o processo inverso também acontece, com o novo Miles notando como relativamente pouco tempo pode mudar as pessoas, processo por que ele próprio, já no final da temporada, passa também. Esse duelo de personalidades é o que retira a temporada do lugar-comum e cria o tipo de discussão mental que, se já não temos, deveríamos ter. São oito episódios que nos pegam pela mão e fazem algo parecido com que os três fantasmas fazem com Ebenezer Scrooge em Um Conto de Natal, de Charles Dickens, mas com objetivo completamente diferente. Se no clássico natalino Scrooge foi forçado a lidar mais especificamente com sua avareza, aqui Miles é levado a contemplar uma vida desperdiçada de um lado e uma vida que pode ser desperdiçada de outro. É simplesmente fascinante.

Paul Rudd responde maravilhosamente bem às exigências de seus papeis, assim como Aisling Bea, cuja personagem é colocada no meio de uma situação literalmente impossível. O criador da série e também roteirista Timothy Greenberg tem como triunfo o estabelecimento de diálogos humanos e que desconcertantemente se aproximam da realidade de muita gente, aqui desconsiderando o fato de o casal ser de classe média alta americana, já que o tema em si é universal. Igualmente, a direção de Jonathan Dayton e Valerie Faris, responsáveis por nada menos do que Pequena Miss Sunshine, Ruby Sparks e A Guerra dos Sexos, humanizam sobremaneira a história e transformam facilmente a premissa absurda em algo que é perfeitamente relacionável, com o bônus de eles trabalharem as perspectivas dos personagens de maneira separada, quase rashomoniana, o que aguça a curiosidade do espectador.

Somente quando a curta temporada retorna para abordar o artifício da clonagem como algo mais do que apenas um artifício é que ela perde sua pegada emocional e seu caminho muito bem estabelecido pelos bem diferentes, mas mesmo assim iguais Miles Elliots. São momentos que os roteiros de Greenberg exageram em abordagens alheias ao conflito central e que, mais para o final, criam uma determinada situação que desvia demais da narrativa que realmente diferencia a série. Se fosse uma temporada mais longa, talvez o efeito disso ficasse diluído, mas não é o caso e, em apenas oito episódios, a presença de uma espécie de racionalização/questionamento do artifício que deveria ter apenas a função de servir de motor de arranque para a história acaba afetando o resultado final e detraindo da sensacional conversa interna que a série provoca.

Mas o problema que detectei na temporada não deveria de forma alguma afastar o espectador do desafio que é assisti-la. Sim, desafio. Mas não porque a série é complexa ou lenta, mas sim porque ela nos faz questionar quem somos hoje e quem podemos ser amanhã, por vezes até fazendo-nos duvidar que um dia fomos de determinada maneira. Mas o que é a vida sem desafios, não é mesmo?

Cara x Cara – 1ª Temporada (Living with Yourself, EUA – 18 de outubro de 2019)
Criação: Timothy Greenberg
Direção: Jonathan Dayton, Valerie Faris
Roteiro: Timothy Greenberg
Elenco: Paul Rudd, Paul Rudd, Aisling Bea, Alia Shawkat, Desmin Borges, Karen Pittman, Zoe Chao,
Jon Glaser, Emily Young, Eden Malyn, Ginger Gonzaga, Gabrielle Reid, Gene Jones, Tom Brady
Duração: 215 min. (8 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.