Home TVEpisódio Crítica | Doctor Who – 4X07: The Unicorn and the Wasp

Crítica | Doctor Who – 4X07: The Unicorn and the Wasp

por Rafael Lima
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Durante o mandato de Russell T. Davies como Showrunner de Doctor Who, episódios em que o Time Lord vivia aventuras ao lado de personalidades históricas se tornaram um item obrigatório de cada temporada da série. É interessante observar, porém, que em sua gigantesca maioria, as celebridades históricas que participam desses episódios são figuras artísticas que tem os elementos de suas obras articulados com os elementos Sci-fi do programa. Assim, The Unquiet Dead, com Charles Dickens trouxe fantasmas em uma noite de Natal; The Shakespeare Code apresentou bruxas num universo teatral em uma aventura com o Bardo… e assim por diante. 

Entretanto, arrisco-me a dizer que por mais importante que autores como Dickens e Shakespeare sejam, a obra de nenhum deles se confundiu tanto com o gênero com que trabalhavam como ocorreu com Agatha Christie. Dessa forma, pelo menos conceitualmente, construir um pastiche de assassinato britânico em torno do universo Sci-Fi do Show não chega a ser um grande desafio, bastando perceber que a própria Série Clássica já havia feito isso mais de uma vez em arcos como The Robots of Death e Terror of the Vervoids. Mas ao escrever isso, não estou tirando os méritos do roteiro de Gareth Roberts, já que uma história de conceito fácil pode ser uma armadilha que resulta em algo pouco criativo, o que felizmente, não é o caso.

Na trama, a TARDIS se materializa em uma propriedade rural inglesa, em 1926, onde o Décimo Doutor e Donna decidem penetrar em uma festa da alta sociedade que está ocorrendo no local. Para a surpresa da dupla, uma das convidadas é ninguém menos que Agatha Christie, a famosa escritora de livros de mistério. Mas esse não é um dia comum na vida da artista, pois naquela noite ela irá desaparecer, ficando ausente por 10 dias até ser encontrada sem memória, sendo este um mistério que nunca foi solucionado. O time da TARDIS fica intrigado com a possibilidade de saber como se deu o desaparecimento da autora, mas as coisas assumem contornos mais perigosos quando um assassinato ocorre na festa e todas as pistas parecem indicar que o criminoso é um alienígena.

The Unicorn and The Wasp talvez seja o episódio mais despretensioso desta temporada, ao lado de Partners in Crime. Como dito acima, o episódio se configura como um típico pastiche de assassinato britânico, onde o 10º Doutor (atuando como o Poirot da vez) deve interrogar cada um dos suspeitos para chegar ao culpado; descobrindo, ao longo da investigação, que todos os convidados da festa tem os seus segredos e motivos para serem o assassino. O roteiro de Roberts não só espalha diversas referências e citações às histórias de Christie ao longo do episódio, como brinca de forma sardônica com o impacto que tais aventuras tiveram na cultura pop. O maior exemplo são as diversas referências feitas ao clássico jogo de tabuleiro Detetive, referências essas que beiram ao absurdo, vide a cena em que uma das vítimas, ao ver o assassino se aproximando, pergunta inocentemente Ei, o que você está fazendo com esse cano de cobre?

A aura de segredos e meias-verdades que circundaram a alta sociedade britânica sempre foi fonte de muita ironia nas histórias de Christie, e o roteiro de Roberts eleva essa ironia à enésima potência, onde os personagens mentem tão descaradamente sobre os seus alíbis que chega a ser cômico. Dentro desse contexto construído pelo episódio em que as motivações dos personagens para guardar os seus segredos são, de certo modo, mundanas, faz todo o sentido que Roberts apresente a motivação do vilão como sendo igualmente humana. O assassino alienígena (na verdade, meio alienígena) não é um conquistador galáctico que quer dominar o mundo ou destruir a raça humana. O antagonista é basicamente um filho ilegítimo rejeitado em busca de vingança. Se o assassino não tivesse a capacidade de se transformar em uma vespa gigante, ele poderia perfeitamente ser um dos vilões dos romances de Agatha Christie.

Falando na escritora, o roteiro de Roberts consegue equilibrar os aspectos mais míticos em torno da Rainha do Crime ao mostrá-la como alguém que consegue ser tão sagaz quanto os detetives que criou, ao mesmo tempo em que expõe as vulnerabilidades da pessoa por trás do mito. Nesse sentido, os devidos elogios devem ser dados ao trabalho de Fenella Woolgar como Agatha Christie, que interpreta a autora como uma mulher que externamente é muito segura de si, mas que deixa escapar nas entrelinhas as suas mágoas e inseguranças. O episódio cria uma dobradinha interessante com o já citato The Unquiet Dead, que também via um escritor renomado questionar o valor e a longevidade de sua obra após uma crise em sua vida pessoal. A diferença é que enquanto na aventura com Dickens os elementos da bibliografia do autor presente na trama eram uma coincidência, e portanto, o valor que o artista passava a atribuir à sua obra não estava diretamente ligado com a mesma, este episódio coloca os livros de Agatha Christie como tendo influenciado diretamente as ações do vilão da trama, o que demonstra o poder da imaginação da romancista britânica.

A química de cena e o timing cômico de David Tennant e Catherine Tate continuam impecáveis. A cena onde o Doutor é envenenado e, sem conseguir falar, tenta explicar para Donna através de sinais o que ele precisa para se salvar é de deixar o espectador soluçando de riso. Igualmente hilário é observar as tentativas de Donna de se enturmar na alta sociedade britânica, inclusive tentando emular a risada esnobe da aristocracia. É interessante que o episódio volte a apontar como o time da TARDIS pode ser insensível, de fato conseguindo se divertir com a aventura que estão vivendo enquanto as pessoas morrem ao seu redor, o que é apontado pela própria Agatha Christie. Entretanto, o roteiro de Roberts nunca leva tal crítica muito a sério, o que seria até um pouco incoerente com o tom mais jocoso e irônico do episódio.

A direção do veterano da série, Graeme Harper, está especialmente inspirada. Harper consegue potencializar as piadas sugeridas pelo roteiro através de enquadramentos inteligentes, vide a cena onde o Doutor observa todos os suspeitos botarem a cabeça para fora das portas de seus quartos ao mesmo tempo em um longo corredor após o Time Lord encontrar uma prova incriminadora. A forma como são montadas as diversas cenas de depoimentos espalhadas pelo episódio é igualmente digna de nota, gerando não só uma série de momentos muito engraçados, mas também dando dinamismo ao episódio.

The Wasp and The Unicorn revela-se um dos episódios mais divertidos e elegantes desta temporada. O episódio é uma homenagem carinhosa e respeitosa a Agatha Christie e ao o seu legado, mas evita se tornar refém dessa homenagem, entregando uma história que sabe rir das convenções do gênero que está trabalhando. A Era Davies entregava aqui o seu último episódio de “Celebridade Histórica” com a mesma alta qualidade que sempre apresentou para este tipo de trama.

Doctor Who 04×07: The Unicorn and the Wasp ( Reino Unido, 17 de Maio de 2008)
Direção: Graeme Harper
Roteiro: Gareth Roberts
Elenco: David Tennant, Catherine Tate, Fenella Woolgar, Felicity Kendal, Tom Goodman-Hill, Christopher Benjamin, Felicity Jones, Adam Rayner, David Quilter, Daniel King, Ian Barritt, Leena Dhingra, Charlotte Eaton
Duração: 45 min.

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