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Crítica | Hannibal, de Thomas Harris

por Leonardo Campos
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Um pouco depois de uma década da publicação de O Silêncio dos Inocentes, o enigmático canibal e a agente Clarice Starling ganharam mais um reencontro, desta vez com um final turbinado por insanidade e mudanças bruscas nos arcos dos personagens, partes integrantes de um esquema que agora não está focado na captura de nenhum novo assassino em série estadunidense, mas na busca pela retomada da ordem, estremecida depois que o Dr. Lecter escapou do cárcere e deslocou entre a Argentina, o Brasil e agora se encontra em Florença, na Itália, cenário ideal para Thomas Harris desenvolver a sua pesquisa sobre arte, literatura e música erudita. Hannibal, de 1999, é um volumoso romance, o maior da série de quatro livros, excessivo em todos os aspectos, desde a extensão global da história aos instantes de violência que aqui atinge um novo patamar. É uma história de loucura, perseguição, jogos psicológicos ágeis que não permitem muita elucubração diante das coisas. Além da polícia, Mason Verger, uma das vítimas do canibal, sobrevivente que carrega marcas aterrorizantes em seu corpo, quer o Dr. Lecter para se vingar, num projeto milionário que envolve porcos selvagens e uma equipe de sequestradores.

Diante do exposto, temos no desenvolvimento de Hannibal, uma estrutura baseada nos seguintes pontos: Clarice Starling em busca da retomada de sua carreira em desgraça, solapada pelo machismo e perseguição sofrida no ambiente de trabalho sete anos após a fuga do Dr. Lecter da prisão; Mason Verger e seu planejamento burlesco para captura do requintado canibal que está na lista dos dez criminosos mais perigosos procurados pelo FBI; o Dr. Lecter, agora na Itália, tratado como Dr. Fell após aniquilar o dono de um posto no campo das artes e ter assumido o seu lugar. Entre idas e vindas dentro destas três tramas principais, outras subtramas se desenvolvem, com o retorno de alguns personagens de Dragão Vermelho e O Silêncio dos Inocentes. Publicada pela editora Record no Brasil, a versão apresenta o design de capa de Craig DeCamps, utilizado em várias edições estrangeiras, com excelente tradução de Alves Calado para as 450 páginas que parecem extensivas demais, no entanto, encontram subdivisões de capítulos curtos que nos permitem melhor fluência na contemplação do texto, ajudados também pela diagramação longe da economia de espaço e suporte irritante das publicações de bolso, graficamente complicadas de consumir.

Tendo como direcionamento os pontos mencionados anteriormente, comecemos com Mason Verger. Quem é essa figura peculiar? O texto nos informa que ele era um dos pacientes do Dr. Lecter, um jovem perturbado de uma camada poderosa da sociedade, isto é, da elite estadunidense. Perverso, ele já abusou frequentemente de crianças, molestou a irmã Margot, dentre outras atrocidades, além de achar que seduzirá o seu psiquiatra, mais astuto e vil. O seu plano não sai como o esperado e depois de ser drogado por uma forte droga alucinógena, Verger é envolvido numa teia de automutilação perpetrada pelo Dr. Lecter. O resultado é um rosto desfigurado, com pedaços jogados aos cães da casa. Sem nenhuma cirurgia reparadora capaz de retomar o seu rosto como era anteriormente, a vítima consegue sobreviver e transforma a captura do canibal em seu principal projeto de vida. A sua trajetória envolve alimentação com sangue, tratamento com vermes e uma enguia que vive no aquário próximo aos seus aposentos, descrita constantemente em seus hábitos de alimentação, criatura que representa bastante a sua personalidade e ironicamente a arma do crime utilizada para o seu assassinato mais adiante.

Enquanto arquiteta o seu plano, divulgado com uma recompensa significativa para aquele que conseguir capturar Hannibal Lecter com vida, Mason Verger utiliza Clarice Starling como isca para atrair a sua presa. A trama começa com a angustiante batida policial da agente que gozava de privilégios no FBI depois de ter salvado a filha da senadora das garras de James Gumb, vulgo Buffalo Bill. O problema é que ao longo dos anos, Starling tem sofrido constantes ataques em seu ambiente de trabalho, opressões misóginas, principalmente por parte de Paul Krendler, supervisor que insatisfeito com as investidas sexuais negadas, age sempre por meio de sabotagens para prejudicar a carreira da outrora heroína do FBI. Depois que as coisas dão errado numa operação antidrogas que acaba com a morte de Evelda, uma traficante armada, mas alvejada antes pela agente enquanto carregava um bebê no colo, tudo desmorona. Ela é processada, impedida até mesmo de agir enquanto o resultado da ação judicial não é divulgado. Com a suposta identificação de alguém que parece ter encontrado o Dr. Lecter, o jogo pode mudar. Seria essa a sua oportunidade de reverter a situação e se capturar o canibal para reorganizar a sua imagem?

Essa é uma pergunta que o próprio Hannibal Lecter, personagem que funciona como uma espécie de super-homem nietzschiano, descrito aqui numa trajetória literária que beira a escrita biográfica, alguém que parece encarnar o mal absoluto dentro de si. Ele acompanha a carreira de Starling na mídia e sabe detalhes sobre a mulher que exerce determinado fascínio, mútuo por sinal, pois o desejo de capturar o canibal por parte de Starling pode ser considerado equilibrado com a sua aparente vontade em revê-lo. Ele exerce temor, mas também passa algo de mentor para a agente que no desenvolvimento do romance, protagonizará a travessia de uma via de relacionamento que envolve alegorias sexuais consumadas mais próximos do desfecho. É algo que soa complexo, irreal, no entanto, uma escolha corajosa de Thomas Harris, escritor que abraça diversas convenções narrativas, tais como se vingar de Paul Krendler por “amor” a Starling, dentre outras ações que a deixam sempre ilesa, mas agir de maneira abrupta ao encerrar a trajetória destes personagens com simbolismos carregados de fortes tons psicanalíticos, incompreensíveis dentro de interpretações lógicas racionalizadas pelo senso comum.

É preciso desprendimento para aceitar o fim ou passar por ele sem a sensação de decepção diante do conjunto da obra. No desenvolvimento, o que esperamos geralmente é o jogo de gato e rato com mortes inventivas, diálogos sarcásticos, doses generosas de cultura erudita desenvolvidas em situações cotidianas e a captura de alguém, um julgamento, um desfecho nobre, mas Thomas Harris não faz nada disso. A viagem é não compromete, mas destoa dos rumos que esperávamos. Ademais, somos informados que Lecter viajou para o Rio de Janeiro, fez cirurgias plásticas para mudar a sua aparência e agora situado em Florença, circula por espaços descritos em detalhes pelo escritor, numa pesquisa muito interessante sobre arquitetura e arte da região que possui registros históricos que serão conectados com as ações do presente, haja vista o destino do policial Rinaldo Pazzi, estripado e pendurado em praça pública depois de perseguir constantemente o canibal para receber a recompensa de Mason Verger. É um dos melhores pontos do romance, por sinal, trecho empolgante em sua descrição policial dos acontecimentos.

Importante ressaltar que Hannibal também traz alguns pontos biográficos do personagem, elementos utilizados mais adiante em suas origens, narradas no romance posterior, lançado em 2006. As menções a sua irmã Mischa, a análise de algumas características de seu comportamento, etc. Como ocorre em todos os livros da série, há algumas passagens que não acrescentam muita coisa, além de um excesso de subtramas que não atrapalham, mas também deixariam o romance fluir ainda mais se fossem suprimidas. Dentre as passagens de destaque, temos a figura de Paul Krendler sendo colocada em seu devido lugar por Hannibal, próximo ao fim, na famosa descrição do cérebro utilizado para um jantar nada convencional entre o canibal e Starling; a morte já mencionada de Mason Verger, extremamente violenta e gráfica, sufocado com a enguia do próprio aquário, algo sugerido pelo Dr. Lecter a Margot, jovem atendida em seu passado, alguém que ele sabe ter sido vítima do irmão molestador; o desaparecimento do Dr. Chilton, não detalhado e explicitado aqui, nas entrelinhas, personagem que não aparece em momento algum além das lembranças nos diálogos, mas encontrou representante abjeto a sua altura na figura de Krendler.

Quem retorna também é Barney, o enfermeiro do Dr. Lecter. Ele sobrevive de seu trabalho na área de saúde e faz alguns extras vendendo objetos do canibal em circuitos obscuros de colecionadores. Mason Verger, por exemplo, é um de seus clientes, comprador de itens simbólicos da trajetória do seu algoz enquanto esteve na prisão de segurança máxima. É ele que surge no desfecho da história, considerado impossível de filmar por Ridley Scott, cineasta que autorização ao escritor Thomas Harris para mudar o destino dos personagens na tradução intersemiótica para cinema. Os rumos são realmente estranhos, criticados por muitos leitores da época, pessoas que consideraram uma ultrapassagem absurda de limites por parte do romancista. Confesso que também fui pego de surpresa ao relembrar que a agente Starling e o Dr. Lecter terminam juntos, dois amantes que desaparecem sem deixar vestígios, encontrados por Barney à distância, durante uma ópera, numa viagem sua para a Argentina com a namorada. Ele teme a morte e sente calafrios diante da figura enigmática e assombrosa do canibal. Vai embora, assim como Lecter, cronologicamente em sua última aparição literária, haja vista Hannibal – A Origem do Mal ser uma sequência prévia.

Hannibal (/Estados Unidos, 1999)
Autor: Thomas Harris
Tradução: Antonio Gonçalves Penna
Editora no Brasil: Record
Páginas: 443

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