Crítica | Legion – 3X07: Chapter 26

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Depois de um filler conceitualmente maravilhoso, mas infelizmente deslocado espaço-temporalmente que fez Syd viver uma segunda vida, Legion volta para sua programação (a)normal com um episódio que nos arremessa mais uma vez para o passado, especificamente para os mesmos momentos que vimos em detalhes no Capítulo 22, com David bebê, sua mãe Gabrielle sozinha nos EUA tentando protegê-lo enquanto seu pai Charles está no Marrocos para encontrar-se com Ahmal Farouk, o Rei das Sombras. É como um flashback de um flashback, ou, talvez melhor exemplificando, aquela visão de “outro ângulo” que Marty McFly tem dos eventos de De Volta para o Futuro quando ele retorna ao passado na continuação. E o resultado é fascinante.

O roteiro co-escrito por Noah Hawley e Olivia Dufault usa basicamente tudo que aprendemos ao longo da temporada para entregar um episódio astuto que faz perfeito uso da lógica interna criada, retornando não só aos Comedores de Tempo, onipresentes aqui, como também ao Tempo entre o Tempo para onde o Farouk do presente fora arremessado no Capítulo 24 em uma perfeita preparação para um final potencialmente explosivo em que provavelmente veremos finalmente o embate entre Charles e Ahmal no plano astral que somente vimos na fantástica versão em giz do Capítulo 7 ou alguma variação disso (ou não veremos nada, pois a única certeza que tenho é que não tenho certeza de nada do que se passa na cabeça Hawley).

Com Syd, Carey e Kerry voltando no tempo e encontrando-se com Gabrielle e o pequeno David, entendemos o porquê do episódio anterior ter focado tanto na segunda vida de Syd, ainda que não haja justificativa para o tempo empregado nisso. Considerando seu trauma de infância e o distanciamento de sua mãe, Syd não tinha a bagagem emocional necessária para compreender sua missão nesse passado. Diante de um David bebê, Kerry quer logo resolver o problema do jeito mais fácil, mas moralmente inaceitável, enquanto que Syd percebe que o amor de mãe pode ser a chave aqui. Com isso, revivemos um pouco do que passamos na mansão Xavier a que fomos apresentados no Capítulo 22, com Syd aproximando-se de Gabrielle aos poucos, mesmo considerando que o tempo está sendo subtraído pelos demônios cada vez em maior número. Se ela terá sucesso, bem, descobriremos em uma semana, quando eu também espero que Kerry tenha uma função maior do que… bem… não fazer nada…

Nesse lado da narrativa, a direção de fotografia do episódio mantém o que foi feito quando Gabrielle foi apresentada na temporada, trabalhando cores frias e distantes que, aqui, diante de tudo que sabemos que aconteceu/acontecerá, empresta um ar lúgubre, desesperançoso mesmo que contrasta fortemente com a fotografia quente, amarelada – mas manchada com o azul do figurino e maquiagem das terríveis crianças mudas – do Marrocos e do castelo de Farouk que recebe Charles com o mesmo calor. E é esse segundo lado do episódio que consegue ser ainda mais fascinante.

Nele, apesar do relativo pouco tempo de duração total, vemos a máscara da hospitalidade do Rei das Sombras cair aos poucos, com o futuro Professor X, ainda inocente e ignorante da vastidão de seus poderes, aprendendo sobre os horrores perpetrados pelo vilão. E, pela primeira vez na série, começamos a efetivamente ver esse encontro entre os dois telepatas super-poderosos e ficamos na dúvida se os eventos sempre aconteceram assim, com a interferência temporal de Syd de um lado e de David do outro ou se é possível falar em linha temporais diferentes. Seja como for, até porque acho que Hawley não abordará multiverso e sim apenas uma linha temporal contínua (não há mais tempo para complicar a história!), é fascinante notar que o David do presente usa Switch não para evitar que o pai vá para Marrocos, mas sim para ajudá-lo em seu vindouro embate. Será que é assim que Farouk aprende sobre David e então decide “possuir” o bebezinho, fazendo com que David, no final das contas, seja literalmente o culpado por tudo, inclusive pelo seu próprio destino? Será interessante ver.

A interação entre Charles e David no claustrofóbico plano mental do segundo cercado de portas com suas diversas personalidades é um dos pontos altos do roteiro, especialmente quando DVD e Divad revelam-se para desespero do pai. É informação demais, com certeza, mas não para nós, espectadores, já que fomos devidamente preparados para esse tipo de desenvolvimento, pelo que, narrativamente, o capítulo funciona muito bem, com fluidez e nenhuma confusão sobre o que está acontecendo e aonde, nem mesmo quando o Farouk do presente consegue sair do Tempo Entre o Tempo no passado pré-luta psíquica com Charles, o que deixa entrever que pai e filho terão que sair no braço – ou na mente – de Farouk e Farouk. Por isso é que eu disse – e repito – que o episódio final tem tudo para ser explosivo.

Seja como for o encerramento, Legion deixará saudades. O tipo de abordagem que vemos aqui para um material oriundo dos quadrinhos é inédito e sobretudo ousado e sem obviedades. Será como uma séria crise de abstinência depois de viajar nesse mundo lisérgico criado por Noah Hawley. Mas ainda não acabou. Temos mais uma última semana de espera pelo nosso vício semanal.

Legion – 3X07: Chapter 26 (EUA – 05 de agosto de 2019)
Showrunner: Noah Hawley
Direção: Dana Gonzales
Roteiro: Noah Hawley, Olivia Dufault
Elenco: Dan Stevens, Rachel Keller, Aubrey Plaza, Bill Irwin, Navid Negahban, Jemaine Clement, Jeremie Harris, Amber Midthunder, Hamish Linklater, Jean Smart, David Selby, Jelly Howie, Brittney Parker Rose, Lexa Gluck, Marc Oka, Lauren Tsai, Samantha Cormier, Jason Mantzoukas
Duração: 48 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.