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Crítica | Medo Profundo: Abismo

por Leonardo Campos
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No desfecho de uma sequência considerável de textos sobre crocodilos e jacarés transformados em monstros assassinos do cinema, realizada em 2019, lancei uma reflexão intitulada Os Filmes de Répteis Assassinos Ainda Funcionam? A pergunta era basicamente retórica, pois na ocasião de lançamento de Predadores Assassinos, horror ecológico turbinado por emoções que mesclavam ataques animalescos com uma furiosa tempestade, sabia que apesar dos altos e baixos deste subgênero, a presença de tramas do tipo sempre são reinventadas na indústria, com garantia de público e em alguns casos, com pitadas de críticas sociais e análise de personagens interessantes e que superam o limiar da exclusividade diletante.

Com o lançamento de Medo Profundo: Abismo em 2020, temos na seara dos crocodilos, o equivalente ao que os realizadores da franquia homônima, Medo Profundo, fizeram com os tubarões. Se na primeira produção, tínhamos irmãs cerceadas pelos ferozes animais aquáticos oceânicos e uma situação que as impedia de se deslocar do interior de suas grades de mergulho, na segunda empreitada, os personagens são colocados dentro de uma caverna que funciona como uma armadilha do destino, pronta para ceifar as suas vidas incautas. E lá, além da sensação claustrofóbica e algum contato ainda não desvendado com o oceano, tínhamos tubarões-brancos albinos, prontos para realizar um festival com as vítimas que conheciam o espaço e estavam em desvantagem por numerosas questões.

Aqui, a situação é similar. No primeiro filme, tínhamos duas irmãs e o marido de uma delas, cerceados por crocodilos que iniciaram um ataque depois que o grupo se perde por um manguezal na região norte do território australiano. Lá, impedidos de se deslocar, eles precisam lutar pela sobrevivência, tal como os personagens da sequência, análise do texto em questão. Desta vez, sem conexão alguma com os acontecimentos antecessores, tendo apenas manifestações da natureza e os crocodilos como antagonistas, outro grupo é colocado numa perigosa situação envolvendo claustrofobia, ataque animal e muitas cenas subaquáticas. Sob a direção de Andrew Traucki, a continuação do filme de 2007 apresenta Sarah Smith e John Ridley como os desenvolvedores da história interessante, mas executada irregularmente.

Desta vez, a contagem de corpos é maior, bem como os recursos para a história ser contada com potencial, mas Traucki não segue a linha do dinamismo e sua equipe entrega um trabalho muito mediano, quase abaixo da linha do razoável. Primeiro que num filme sobre ataque animal, tudo bem que a criatura seja poupada, etc. Sabemos que Tubarão criou uma cartilha, mas isso não significa que funcione para todos os tipos de produção do segmento. Aqui, os crocodilos são poupados demais. É irritante ver apenas a água sacudir, os personagens interpretarem ataques subaquáticos, oriundos de uma água excessivamente turva, algo que funciona como potência dramática para causar a sensação de horror e dificuldade de se perceber o inimigo, no entanto, é uma instância que deveria ficar para os seres humanos jogados na situação trágica.

Não era para nós. Estamos como espectadores para contemplar os dramas e assistir aos ataques de um animal que ao ser utilizado adequadamente, pode promover um espetáculo de horror divertido, dinâmico e bem conduzido, tal como Primitivo e Morte Súbita, produções que atendem aos requisitos do subgênero. A escuridão da caverna e da água deve impedir os personagens de saber o ponto de onde parte o perigo, não nós, impedidos de acompanhar muito bem as coisas, já desinteressantes quando o filme passa de sua primeira hora e apresenta apenas dois momentos relevantes com as criaturas praticamente submergidas e comportadas demais para uma produção intitulada Medo Profundo. Ou no original, Black Water. Logo na abertura, um casal é atacado ao despencar no sistema de cavernas que serve de cenário para ação do grupo principal, apresentado logo depois. É um preâmbulo promissor, mas que não cumpre sua missão.

A comida para os répteis vem representada por Viktor (Benjamin Hoetjes), jovem homem que acabou de vencer uma batalha contra o câncer e no calor emocional de sua remissão, quer viver a nova grande aventura de sua vida. Ele vem acompanhado de Jennifer (Jessica McNamee) e Eric (Luke Mitchell), um casal em fase de degradação amorosa, ambos em busca de reajustes. Yolanda (Amali Golden), acabou de descobrir que está grávida e Cash (Anthony J. Sharpe) é o mentor do passeio, a pessoa que esteve na região para investigar um desaparecimento e ao descobrir o tal sistema de cavernas, resolve levar os seus amigos para uma aventura com momentos de emoção garantidos. Eles adentram o espaço, ficam presos depois que uma tempestade se estabelece com força e a água interna começa a elevar os seus níveis.

Para piorar a situação, temos a presença dos esperados crocodilos. Neste local, as criaturas parecem organizar o ninho ideal, numa brecha com um lago extenso que se prolonga pelo lado de fora, numa das saídas encontradas apenas no final, quando nós, junto aos sobreviventes deste passeio, adentramos numa indigesta, mas certeira reviravolta que garante ao filme seu único grande momento de ação. O resto, acredite, foi apenas lorota, punhado de cenas com situações que já vimos antes, executadas de maneira bem melhor. Damien Beebe, na função de diretor de fotografia, entrega um trabalho adequado nas cenas que não envolvem submersões, um grave problema em filmes da linha. Michael Lira, na composição da trilha sonora, emula trechos inteiros do famoso tema principal de John Williams, em especial, nas cenas de tensão.

Ademais, a edição de Scott Walmsley tenta disfarçar a morosidade dos diálogos e a falta de intensidade na ação, mas falha em seu projeto, pois não consegue transformar o material produzido pelo diretor em algo mais substancial. Nos efeitos visuais, a equipe de Brynn Morrow possui mais acesso ao CGI que o antecessor, produção conhecida por investir em cenas com crocodilos reais, filmadas e editadas em confronto com os membros do elenco em plena ação, estratégia narrativa que funcionou em 2007 e talvez fosse até a melhor opção aqui. Faltou investimento em animatrônicos e demais efeitos especiais que somassem ao trabalho coordenado pelo setor envolvido nos efeitos digitais.  Em suma, um filme com visual limpo, situações com verossimilhança, mas morno demais para ser um horror ecológico com crocodilos.

Medo Profundo: Abismo (Black Water: Abyss) — Austrália, 2020.
Direção: Andrew Traucki
Roteiro: Andrew Traucki
Elenco: Benjamin Hoetjes, Jessica McNamee, Luke Mitchell, Anthony J. Sharpe, Amali Golden
Duração: 98 min.

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