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Crítica | Sinbad – A Lenda dos Sete Mares

por Iann Jeliel
501 views (a partir de agosto de 2020)

Sinbad

Dentre inúmeras experimentações, o cerne da Dreamworks acabou se tornando a a união de narrativas clássicas de irmandade e/ou amizade com rivalidade junto a inclusão representativa de maneira prática. É só lembrarmos, a questão de fidelidade histórica trazida por O Príncipe do Egito possibilitando uma das primeiras animações de grande estúdio com personagens negros e pardos como protagonistas, ou O Caminho Para El Dourado, que trouxe igualmente em primeira mão, personagens latinos como principais, e claro, Shrek que na subversão do conto de fadas na perspectiva de um ogro, consolidou esse discurso inclusivo ao dar voz ao “feio” para ele ser bonito também. Em Sinbad: A Lenda do Sete Mares, a voz do protagonismo é dada aos heróis e aventureiros árabes, mas também, as mulheres que queriam fazer coisas historicamente direcionadas como tarefa masculina.

Vamos por partes. Falando primeiro do aspecto animado, Sinbad inegavelmente carrega uma forte inspiração de seu primo um pouco mais velho da Disney: Planeta do Tesouro. E não, não é só porque são ambas histórias de pirata. É por isso, pelo fato de serem das últimas animações que realmente apostaram no 2D mesclado com o 3D, mas principalmente, pela mitologia como fio condutor da aventura. Enquanto o filme da Disney fazia sua mitologia numa mistura de acordo com os conceitos da ficção cientifica que impregnava, Sinbad vai para o lado teológico dos mares, onde a deusa do caos Eris (Michelle Pfeiffer) é a responsável por articular toda uma sucessão de desafios correspondentes com os antigos anseios da humanidade com o desconhecimento do mar, confrontar o marujo a lidar com seus próprios demônios, voltados a um dilema interessante entre o seu egoísmo natural de pirata com necessidade de corresponder a compaixão de um antigo amigo, Proteus (Joseph Fiennes), que basicamente se sacrificou para que ele continuasse em vida.

A priori, a mitologia do universo em si do filme, é pouco explorada sobre suas especificidades (qual é a daquele reino, quais outros deuses influenciam naquele terreno etc.), mas enquanto exercício criativo com concepções prévias da mitologia marinha, há um investimento visual muito estimulante da jornada. Fora, que o drama do protagonista é bem relacionável, o que ajuda ao texto inserir seu ponto forte de conflito que é o contraponto da noiva de Proteus, Marina (Catherine Zeta-Jones), personagem feminina forte que vai desafiando as crenças individualistas do principal. Por mais que surja no meio, um triangulo amoroso de um lado – o que ajudará na decisão final de uni-los –, ele não é só natural, mas como uma ponte motivadora a dar justificativa a personalidade de Sinbad (Brad Pitt). Suas falas de superioridade de gênero na água (navegar não é coisa de mulher), são nada mais que disclaimers da decepção particular que carrega sobre o histórico com ela e o amigo, retomados numa situação complicada, já que além de salvá-lo, Sinbad tem que não entrar na tentação de Marina que tem o sentimento correspondido

É uma tramoia bem Sheakspeariana, tratada pela animação de forma bastante humanitária, com exageros dramáticos bem pontuados a dar energia a aventura. Marina, apesar de poder cair no estereótipo de moça atraída pelo pilantra, traz uma motivação mais do que justa para isso, uma vez, que seu verdadeiro amor é o mar e ele, querendo ou não, foi a ponte para a sua primeira aventura marítima verdadeira. Fora que o texto posiciona muito bem o jogo de farpas entre os dois como forma de apimentar o romance e dar uma química mais elaborada a ele. Sem contar, que o romance não tira em nada a autossuficiência da personagem, que em vários momentos salva a tripulação – preenchida por personagens bem esquecíveis diga-se de passagem – dos desafios impostos pela deusa do caos e acaba se tornando naturalmente por isso e para eles, uma figura de referência. Motivo o qual justifica o gostar de Sinbad em cima dela. Por mais que seja dito o amor à primeira vista, fica claro no desenvolvimento que ele compartilha esse amor pelo gosto da aventura marinha juntos.

Nesse aspecto inclusive, o filme não decepciona. As sequências de ação são ótimas e coordenadas em uma crescente emocional ímpar, para o clímax ser no ápice do dilema anteriormente apresentado e não exatamente na superação geológica – que também é bem bacana: “A Terra é Plana, sempre suspeitei!”. É aquela Dreamworks primária, bem artística, ainda que mais rechaçada naquele humor debochado vibes Shrek, que talvez, não seja tão bem encaixado quando poderia aqui, em certos momentos. Apesar disso, no geral, Sinbard é uma animação divertida e subestimada somente por apesentar certos padrões, mas que certamente são colocados de forma única pelo caráter particular da inclusão dos referentes personagens.

Sinbad – A Lenda dos Sete Mares (Sinbad: Legend of the Seven Seas | EUA, 2003)
Direção: Patrick Gilmore, Tim Johnson
Roteiro: John Logan
Elenco: Brad Pitt, Catherine Zeta-Jones, Michelle Pfeiffer, Joseph Fienne, Dennis Haysbert, Timothy West, Adriano Giannini, Raman Hui, Chung Chan, Jim Cummings
Duração: 85 minutos

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4 comentários

Caique Nogueira 30 de abril de 2021 - 22:10

O filme da minha infância. Pena que ele (junto com o O Caminho Para El Dourado) não é tão conhecido. Parabéns pela crítica.

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Iann Jeliel Pinto Lima 1 de maio de 2021 - 03:11

O Caminho Para El Dourado e Spirit foram esses da minha infância! Esse nunca tinha visto, mas gostei muito!

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Doc Zumbério 29 de abril de 2021 - 23:44

Eu tinha o dvd dele,gostava muito da animação pena que não teve continuação.

Responder
Iann Jeliel Pinto Lima 1 de maio de 2021 - 03:12

Não sei se precisava, mas sem dúvidas esse é um ótimo filme!

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