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Crítica | Sinbad – A Lenda dos Sete Mares

por Iann Jeliel
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Sinbad

Dentre inúmeras experimentações, o cerne da Dreamworks acabou se tornando a união de narrativas clássicas de irmandade e/ou amizade com rivalidade junto à inclusão representativa de maneira prática. É só lembrarmos a questão de fidelidade histórica trazida por O Príncipe do Egito possibilitando uma das primeiras animações de grande estúdio com personagens negros e pardos como protagonistas, ou O Caminho Para El Dourado, que trouxe igualmente em primeira mão personagens latinos como principais, e claro, Shrek que na subversão do conto de fadas na perspectiva de um ogro consolidou esse discurso inclusivo ao dar voz ao “feio” para ele ser bonito também. Em Sinbad: A Lenda do Sete Mares, a voz do protagonismo é dada aos heróis e aventureiros árabes, mas também às mulheres que queriam fazer coisas historicamente direcionadas como tarefa masculina.

Vamos por partes. Falando primeiro do aspecto animado, Sinbad inegavelmente carrega uma forte inspiração em seu primo um pouco mais velho da Disney: Planeta do Tesouro. E não, não é só porque ambos são histórias de pirata. É por isso, pelo fato de serem das últimas animações que realmente apostaram no 2D mesclado com o 3D e principalmente pela mitologia como fio condutor da aventura. Enquanto o filme da Disney fazia sua mitologia numa mistura de acordo com os conceitos da ficção científica que impregnava, Sinbad vai para o lado teológico dos mares, onde a deusa do caos Eris (Michelle Pfeiffer) é a responsável por articular toda uma sucessão de desafios correspondentes aos antigos anseios da humanidade quanto ao desconhecimento do mar, confrontar o marujo a lidar com seus próprios demônios, voltados a um dilema interessante entre o seu egoísmo natural de pirata e a necessidade de corresponder à compaixão de um antigo amigo, Proteus (Joseph Fiennes), que basicamente se sacrificou para que ele continuasse em vida.

A priori, a mitologia do universo em si do filme é pouco explorada em suas especificidades (qual é a daquele reino, quais outros deuses influenciam naquele terreno etc.), mas enquanto exercício criativo com concepções prévias da mitologia marinha, há um investimento visual muito estimulante da jornada. Fora que o drama do protagonista é bem relacionável, o que ajuda o texto a inserir seu ponto forte de conflito que é o contraponto da noiva de Proteus, Marina (Catherine Zeta-Jones), personagem feminina forte que vai desafiando as crenças individualistas do principal. Por mais que surja no meio um triângulo amoroso de um lado, o que ajudará na decisão final de uni-los, não é só natural como também uma ponte motivadora a dar justificativa à personalidade de Sinbad (Brad Pitt). Suas falas de superioridade de gênero na água (navegar não é coisa de mulher) são nada mais que disclaimers da decepção particular que carrega sobre o histórico com ela e o amigo, retomados numa situação complicada, já que além de salvá-lo, Sinbad tem que não entrar na tentação de Marina, que tem o sentimento correspondido.

É uma tramoia bem Sheakspeariana tratada pela animação de forma bastante humanitária, com exageros dramáticos bem pontuados para dar energia à aventura. Marina, apesar de poder cair no estereótipo de moça atraída pelo pilantra, traz uma motivação mais do que justa para isso, uma vez que seu verdadeiro amor é o mar, e ele, querendo ou não, foi a ponte para a sua primeira aventura marítima verdadeira. Fora que o texto posiciona muito bem o jogo de farpas entre os dois como forma de apimentar o romance e dar uma química mais elaborada a ele. Sem contar que o romance não tira em nada a autossuficiência da personagem, que em vários momentos salva a tripulação – preenchida por personagens bem esquecíveis, diga-se de passagem – dos desafios impostos pela deusa do caos e acaba se tornando para eles naturalmente uma figura de referência. Motivo que justifica o gosto de Sinbad por ela, por mais que seja dito como amor à primeira vista, fica claro no desenvolvimento que eles compartilham esse amor pela aventura marinha.

Inclusive nesse aspecto o filme não decepciona. As sequências de ação são ótimas e coordenadas em uma crescente emocional ímpar para o clímax ser no ápice do dilema anteriormente apresentado, e não exatamente na superação geológica – que também é bem bacana: “A Terra é Plana, sempre suspeitei!”. É aquela Dreamworks primária, bem artística, ainda que mais rechaçada naquele humor debochado na vibe Shrek que talvez não seja tão bem encaixado quanto poderia aqui, em certos momentos. Apesar disso, no geral, Sinbard é uma animação divertida e subestimada somente por apresentar certos padrões, mas que certamente são colocados de forma única pelo caráter particular da inclusão dos referentes personagens.

Sinbad – A Lenda dos Sete Mares (Sinbad: Legend of the Seven Seas | EUA, 2003)
Direção: Patrick Gilmore, Tim Johnson
Roteiro: John Logan
Elenco: Brad Pitt, Catherine Zeta-Jones, Michelle Pfeiffer, Joseph Fienne, Dennis Haysbert, Timothy West, Adriano Giannini, Raman Hui, Chung Chan, Jim Cummings
Duração: 85 minutos

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