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Entenda Melhor | Pânico na Floresta: Uma Franquia Slasher & Splatter

por Leonardo Campos
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Quando lançado em 2003, Pânico na Floresta se apresentou ao público como um slasher envolvente, mais desenvolvido que muitos exemplares do subgênero que na ocasião, ainda queriam emular, sem sucesso, a atmosfera criativa de Wes Craven e Kevin Williamson na franquia Pânico.  Sob a direção de Ron Schimdt e texto de Alan B. McElroy, a produção mesclou traços dos clássicos Amargo Pesadelo e O Massacre da Serra Elétrica, numa trama sobre um grupo de jovens perseguidos por três criaturas deformadas fisicamente, fruto de lares incestuosos e forte influência de celeumas químicas que danificaram o território por onde o seu grupo se formou. Assustadores, eles se comunicam por meio de grunhidos e apavorantes graças ao trabalho de maquiagem assinado pela equipe de Stan Winston, mago na concepção de imagens de horror, os antagonistas de Pânico na Floresta são os responsáveis pela travessia de horror vivida pelos jovens que acidentalmente se encontra nas imediações deste cenário perturbador, figuras ficcionais que dificilmente conseguirão reencontrar o caminho para casa.

Também tributário de Quadrilha de Sádicos, outro clássico muito parecido em sua estrutura dramática e desenvolvimento da carga de violência física e psicológica, Pânico na Floresta tornou-se uma boa referência para o subgênero por investir em cenas de ação dinâmicas, tensão crescente e personagens carismáticos, em especial, o herói Chris (Desmond Harrington), estudante de medicina que segue para uma entrevista de emprego e acaba envolvido num sinistro de trânsito que o impede de seguir viagem, tal como o grupo da sensual e esperta Jessie (Eliza Dushku), a candidata a final girl da história, jovem que ao lado do estudante, vai desenvolver as estratégias de sobrevivência diante dos monstros em dose tripla: Três Dedos (Julian Richards), Dente de Serra (Garry Robbins) e Um Olho (Ted Clark), todos violentos e bastante agressivos com suas armas brancas que vão do machado ao arco e flecha. Ainda compõem o grupo, Evan (Kevin Zegers), Francine (Lindy Booth), Scott (Jeremy Sisto) e Carly (Emanuelle Chriqui), vítimas em potencial para o trio assassino que além de matar, costuma devorar as suas vítimas em rituais canibais elaboradíssimos.

A Narrativa Splatter: Sangue, Vísceras e Violência

O splatter é um estilo de filme que se concentra na criação de imagens de forte violência gráfica, com ênfase no sangue e no delineamento da dor. As suas tramas geralmente trabalham com a vulnerabilidade do corpo humano, mutilado por meio de representações pesadas e intensas, ao estilo dos filmes Doce Vingança, O Albergue, Canibal Feroz, dentre tantos outros. Cunhado pelo cineasta George A. Romero para descrever a análise de Despertar dos Mortos, seu próprio clássico de zumbis, o termo combina, atualmente, imagens de forte violência e degeneração com sugestões que mesclam a morte ao ato sexual. Na contemporaneidade, alguns autores nos trouxeram a definição de torture porn para pensarmos tal segmento cinematográfico. São filmes que exploram a excitação do espectador diante dos mais variados espetáculos de dor e morte. Quando há conexões com o humor excessivo, o termo muda para splatistick, algo próximo do indigesto O Massacre da Serra Elétrica 2, a desastrosa sequência do clássico de 1974.

Nestas narrativas, a direção de fotografia investe em câmeras muito hiperativas, exaltação da desordem social, como visto na maioria dos capítulos da franquia Pânico na Floresta, com os três irmãos degenerados a vencer constantemente e retornar para a sanha assassina nos filmes subsequentes. Se observarmos numa perspectiva mais ampla, histórica, podemos compreender o splatter como uma versão mais atualizada do Grand Guignol, espetáculo de carnificina que fez muito sucesso entre os franceses e flertava com cenas de laceração, mutilação, dentre outras formas de destruição física dos corpos de seus personagens. Também trabalhado pelos ingleses, a modalidade teatral ganhou contornos mais góticos neste eixo de produção, sem deixar de apelar para a violência gráfica como estratégia de expressão. A parte dramática, com algumas raras exceções, não ganha prioridade no desenvolvimento da história, focada mesmo na criatividade das mortes expostas pela equipe de maquiadores e efeitos especiais.

Um Splatter Pode Ser Slasher? Notas Sobre Pânico na Floresta

Sim. Pode. Um filme slasher pode aderir aos esquemas do splatter, mas nem todos possuem conexões com este tipo de exposição gráfica da violência. Sexta-Feira 13, Pânico, Eu Sei o Que Vocês Fizeram No Verão Passado, dentre outros, são filmes com mortes intensas, mas não há exacerbação do ataque dos antagonistas diante de suas vítimas. Pânico na Floresta, desde o seu primeiro filme em 2003, trabalhou com elementos do splatter em forte conexão com a cartilha slasher, isto é, grupo de jovens perdidos numa zona distante, atacados por assassinos impiedosos que os punem por seus comportamentos geralmente libertários demais. O sexo, por sinal, é uma das maiores constantes e está em quase todas as sequências de abertura da franquia. Quando não há o ato sexual em si, temos um personagem tratado como objeto dentro desta finalidade. Com exceção do filme dirigido por Ron Schimidt, de 2003, e o reboot de 2021, escrito pelo mesmo roteirista e desta vez, comandado por Mike P. Nelson, os demais exemplares da franquia são todos ruins dramaticamente, demasiadamente exagerados em suas mortes.

O segundo filme foi lançado em 2007 aqui no Brasil como Floresta do Mal. O motivo? Outra distribuidora comprou os direitos de um filme de terror semelhante e lançou como Pânico na Floresta 2, título oportunista para uma produção igualmente estranha. Em seus 97 minutos, a sequência não contou com nenhum membro da equipe criativa de 2003. Sob a direção de Joe Lynch e texto de Al Septien e Turi Meyer, a trama nos apresenta um grupo de jovens participantes de um reality show situado na floresta habitada pelo trio de irmãos degenerados, local que também é território dos demais membros dessa família de relacionamentos consanguíneos. Com uma linguagem que lembra a estrutura dos games contemporâneos, temos uma série de exageros logo na abertura, momento que estabelece o tom do que será o panorama de mortes burlescas os filmes seguintes. Com referências ao universo de Sexta-Feira 13 e O Massacre da Serra Elétrica 2, a produção aposta no humor sombrio, nos personagens estereotipados e nos diálogos com constantes “é isso”, “yeah”, etc.

Com maquiagem assinada por Maureen Terezakis e condução musical de Bear McCreary, Pânico na Floresta 2 faz uma crítica ao universo dos reality shows, perspectiva reflexiva que não consegue se destacar diante da fragilidade do roteiro que também flerta com os problemas oriundos do capitalismo industrial rural, haja vista a motivação da deformação do grupo de irmãos. A história amplia o universo do primeiro e explica que uma fábrica de celulose despejou resíduos tóxicos na região e matou animais, além de ter causado mutação genética na população que ao ter o seu ecossistema e economia abalados, aderiu ao canibalismo. Já no terceiro episódio da franquia, dirigido por Declan O’Brien e escrito por Connor James Deloney, acompanhamos dois núcleos distintos. Um é o grupo de amigos que pratica rafting e o outro é um ônibus com policiais e presidiários em processo de transferência. Atacados pelo clã em momentos diferentes, Alex (Janet Montgomery), única sobrevivente do primeiro agrupamento, encontra-se com os encarcerados e juntos, todos precisarão lutar por suas vidas, ameaçadas por um possível desfecho com muita dor e sangue. Lançado em 2009 e com maquiagem de Yana Stoyanova, Pânico na Floresta 3 é o mais razoável dos filmes da franquia entre o segundo e o sexto. Em seus 92 minutos, temos o já esperado no splatter: violência, sangue e vísceras.

O cineasta Declan O’Brien retornou mais duas vezes para a franquia, em Pânico na Floresta 4: Origens Secretas e Pânico na Floresta 5, ambos de 2011 e 2012, respectivamente, também escritos pelo diretor. No quarto, temos um grupo de jovens esquiadores que conseguem abrigo num antigo hospício supostamente abandonado. Lá eles precisam lutar pela sobrevivência, numa trama que não deixa espaço para redenção e final feliz, uma das mais exageradas não apenas no desenvolvimento dos assassinatos, mas também no quesito nojeira. Sopa de nariz e vísceras, dentre outros pontos questionáveis de representação da morte no horror, demarcam essa sequência que ganhou um filme tão quanto ou ainda pior na quinta produção, arrastada e com o mesmo padrão de diálogos ruins e personagens irritantes. No papel de provável final girl, a xerife Angela Carter (Camilla Arfwedson) é quem comanda o processo de luta não apenas contra o clã de canibais, mas também contra um assassino perigoso interpretado por Doug Bradley, o Pinhead em pessoa, espécie de mentor dos degenerados. Esse é uma sequência prévia do segundo e continua cronologicamente no ponto de parada no quarto filme.

Sem se apresentar diferente do que a franquia já vinha fazendo desde sua primeira continuação, Pânico na Floresta 6 mudou os rumos, já começando com a saída de Declan O’Brien da cadeira de diretor, o que permitiu a entrada de Valeri Milev como cineasta a assumir o texto de Frank H. Woodward, reajuste que não trouxe nova tonalidade para a franquia já bastante desgastada. Em seus 90 minutos, a trama lançada em 2014 nos apresenta Danny (Anthony Ilott), jovem que recebe uma herança inesperada e juntamente com os seus amigos, sai em busca do resort abandonado que poderá ser sua fonte de renda para toda a posteridade. Sob os cuidados de Jackson (Chris Jarvis) e Sally (Sadie Katz), o empreendimento é cheio de mistérios, tal como o casal que parece ter uma conexão estranha com a floresta ao redor, além dos hábitos sexuais peculiares, sempre observados pelo clã de canibais voyeurs. Aqui, a maquiagem está ainda pior que os filmes antecessores e o desenvolvimento esquisito das situações tenta injetar um novo começo que só resplandece no sétimo momento da franquia, o excelente reboot de 2021.

Todos esperavam uma roupagem igualmente violenta do trio de irmãos assassinos, mas conscientes do atual cenário do horror enquanto narrativa mais conceitual, os envolvidos em Pânico na Floresta: A Fundação, resolveram mexer na estrutura e apresentar uma linha de entretenimento mais reflexiva. Sob a direção de Mike P. Nelson e texto de Alan B. McElroy, dramaturgo responsável por criar este universo, temos a anulação do clã de canibais, agora representado por um grupo de habitantes misteriosos da floresta, em desenvolvimento na região desde os tempos da Guerra Civil Americana. Eles não compartilham dos interesses e métodos de sociabilidade das pessoas dos grandes centros urbanos e em sua dinâmica interna, possuem os próprios códigos que diferem dos nossos ideais de civilidade. É neste ponto que o filme dá, de fato, uma grande guinada inesperada, algo que pode desagradar aos que esperavam mais uma bobagem com exclusividade de foco na morte, no sangue e na violência. Na trama, um grupo de jovens partem para exploração de uma zona remota na floresta da West Virginia. Com diálogos mais fundamentados e bom desenvolvimento de personagens, eles se encontram com um novo clã, entram em conflito, agem com violência defensiva e colocam em debate os nossos conceitos sobre ordem, civilização, devidamente questionados no choque entre culturas presente no desenvolvimento do filme, intenso e também violento, mas agora mais equilibrado dramaticamente e consciente do atual estado do slasher no campo do entretenimento, haja vista o último Halloween, o próximo, além de Natal Sangrento e A Lenda de Candyman, todos com foco nas demandas sociais e no melhor desenvolvimento de seus argumentos.

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1 comentário

Erica Patricia 5 de março de 2021 - 17:47

Só gostei do primeiro e de floresta do mal esse novo ainda vou dar uma olhada, ótima resenha sobre os filmes da série

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