Crítica | A Torre Negra: O Pistoleiro – As Irmãzinhas de Eluria

estrelas 4,5

Se o primeiro arco da maxissérie em quadrinhos O Pistoleiro carecia de material base e, com isso, de um pouco de integridade narrativa, o segundo foi completamente galgado na novela As Irmãzinhas de Eluria, publicada pela primeira vez em 1998 por Stephen King como parte de uma antologia de contos de diversos autores. Trata-se da primeira história dentro do universo de A Torre Negra que não faz parte integral da saga em si, servindo como um prelúdio que narra uma aventura aterrorizante de Roland Deschain em algum ponto de sua jornada antes do primeiro livro começar.

E, assim como o material em flashback de Mago e Vidro, adaptado em Nasce o Pistoleiro, essa razoavelmente desconhecida história de Stephen King nasceu para tornar-se quadrinhos. Robin Furth e Peter David fazem um ótimo trabalho nesta adaptação que lida com a chegada de Roland a uma cidadezinha chamada Eluria, onde é atacado por Vagos Mutantes. Ele acorda suspenso por faixas (em razão de seus ferimentos) no que parece ser uma enorme enfermaria com dezenas de leitos e seis irmãs ou freiras de branco com o símbolo da Torre Negra (a rosa vermelha) no hábito passam a cuidar dele.

Na novela, King faz um grande esforço para manter escondida a natureza sobrenatural das personagens por um bom tempo, algo que, em um meio eminentemente visual, seria impossível. Portanto, no lugar de esconder, Furth e David mergulham de vez na estranheza das tais irmãzinhas, contrastando-as com uma delas, a irmã Jenna, a mais jovem de todas e a única que realmente parece ajudar Roland sem um interesse sinistro. O que elas são exatamente não demora a ser mostrado, mas evitarei spoilers maiores aqui para quem porventura não tenha lido o arco, ainda que surpresa não seja nem próximo de original, o que não importa muito para a apreciação do trabalho feito na HQ.

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As “simpáticas” irmãzinhas de Eluria…

De toda forma, a vantagem da minissérie é que a pouca ação que a novela tem pode ser enfatizada, com flashbacks que revelam em detalhes o que aconteceu com uma caravana que passava por ali e cujos restos mortais Roland esbarra logo no início. Da mesma forma, elementos da narração de King são inteligentemente convertidos em diálogos, tornando a leitura muito fluida e lógica, demonstrando excelente controle do que resumir e do que detalhar na transposição das páginas escritas para as páginas desenhadas. Claro que a dupla que capitaneia esse projeto já está mais do que calejada nesse trabalho, mas é sempre bom ver que eles ainda estão longe de perder a mão e que conseguem, ao contrário, melhorar a obra original, tornando-a mais organicamente parte desse rico e às vezes confuso universo que Stephen King criou ao longo de décadas, ainda que David e Furth tenham estendido a história um pouco mais do que deveriam para fechar as cinco edições programadas.

Mantendo o padrão dessa segunda série em quadrinhos, com a rotação de artistas, o desenhista da vez é Luke Ross, com as cores tradicionalmente ainda ao encargo de Richard Isanove. O lápis de Ross empresta os traços mais, digamos, tradicionais até agora a Roland Deschain, convertendo-o em um cowboy cinematográfico bem da forma como Stephen King o havia imaginado originalmente, ou seja, a figura padrão estabelecida por Clint Eastwood na Trilogia dos Dólares. A belíssima estilização de Jae Lee, que já havia aberto espaço para os traços mais joviais de Sean Philips, cedem completamente para um ótimo meio termo entre a figura estoica a que nos acostumamos e traços mais “super-heróicos”, por assim dizer. É a primeira vez, por exemplo, que a tão mencionada beleza física de Roland é efetivamente vista, algo de certa forma importante na minissérie em razão de seus desdobramentos e comentários constantes das irmãzinhas. Mas o trabalho de Ross não pode ser diminuído e muito menos subestimado por isso.

Ao contrário, o artista mostra grande manejo das sequências de ação, além de desenhar criaturas e seres humanos com uma boa variedade e um misto eficiente de realismo e estilização, muito claramente imprimindo seu estilo ao texto adaptado de Peter David. A progressão de quadros também é muito boa, com a divisão de páginas feita de forma dinâmica, passando suspense e urgência ao mesmo tempo, sem deixar que o texto atrapalhe a fluidez. É particularmente de nota como ele faz uso de pequenos quadros, às vezes quebrando uma splash page em uma dezena de pequenos desenhos que formam um conjunto harmônico, quase cinematográfico, com closes opostos a panoramas como se ele estivesse manuseando uma câmera.

As Irmãzinhas de Eluria, em quadrinhos, consegue ser superior à novela original em quase todos os sentidos. Uma boa forma de mergulhar na jornada de Roland Deschain pelo Mundo Médio.

A Torre Negra: O Pistoleiro – As Irmãzinhas de Eluria (The Dark Tower: The Gunslinger – The Little Sisters of Eluria, EUA – 2011)
Conteúdo: A Torre Negra: O Pistoleiro – As Irmãzinhas de Eluria #1 a 5
Roteiro: Peter David, Robin Furth (baseado em romance de Stephen King)
Arte: Luke Ross, Richard Isanove
Letras: Russ Wooton
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: fevereiro a junho de 2011
Editora no Brasil: não publicado no Brasil na data de publicação da presente crítica
Páginas: 130 (encadernado americano)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.