Crítica | Black Mirror – 3ª Temporada

estrelas 5,0

Obs.: contém spoilers da temporada. Leiam as críticas das temporadas anteriores aqui.

A mudança de distribuição  de Black Mirror, partindo do Channel 4, responsável por ótimas séries, como Utopia, e indo para a Netflix naturalmente gerou um certo receio, considerando a qualidade do que vimos nas duas primeiras temporadas e no especial de natal. Evidente que a qualidade das produções do canal de streaming já foi solidificada, principalmente através de House of Cards e Orange is the New Black, mas quem não tem medo de mudança? É com grande satisfação, portanto, que afirmo que essa terceira temporada do seriado é simplesmente tão incrível quanto suas antecessoras, por mais que conte com seis episódios ao invés dos costumeiros três.

Nose Dive

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Nessa jornada, primeiro somos levados a Nose Dive, que foca nas relações humanas na era das mídias sociais. A trama gira em torno de Lacie (Bryce Dallas Howard), uma mulher que vive normalmente sua vida, trabalhando, morando com seu irmão e dando notas (de 0 a 5 estrelas) para as pessoas. Sim, estamos falando de um universo no qual a mídia social alcançou níveis assustadores, ao ponto de que conseguimos ver a média de avaliações recebidas de uma pessoa, o que define não somente seu status social, como limita sua entrada em certos locais e pode até ajudar ou prejudica-la na vida profissional.

É o universo da hipocrisia, onde todas as pessoas sorriem umas para as outras, temendo ficar abaixo de quatro estrelas, o que, assustadoramente, não está tão longe de nossa realidade. Trata-se de apenas uma extrapolação da mecânica dos likes, presentes na maior parte das redes sociais, trabalhando o medo de uma pessoa “postar” algo e ser solenemente ignorada e o anseio por ser idolatrada pelas pessoas à sua volta. Naturalmente o episódio lida com a questão das pessoas estarem 100% do tempo conectadas, sempre mexendo em seus celulares, mostrando onde estão, o que estão comendo, dentre outras futilidades – é a cultura do Instagram, Facebook e Twitter, a santíssima trindade (ou seria o Eixo do Mal?) que se enraizou em nossa sociedade.

Bryce Dallas Howard consegue trazer essa problemática com exatidão para a série, sua interpretação é um soco no estômago de tão similar à realidade, mas que não deixa de ser desconfortável. Há uma hipocrisia e uma condescendência gritante em seu olhar, seu sorriso, perfeitamente representando a falsidade que compõe essa geração, que fora moldada através das interações virtuais, onde tudo parece ser perfeito. Chega a ser um grande alívio, conforme a personagem aos poucos se torna mais humana, retornando para a normalidade que há muito fora abandonada.

Playtest

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Playtest, por sua vez, lida com a explosão da realidade virtual nos últimos anos, algo que se tornara a nova onda no mundo dos videogames, começando com o Oculus Rift e chegando até o futuro Playstation VR. Aqui acompanhamos Cooper (Wyatt Russell), um turista americano que, após viajar pelo mundo, acaba ficando totalmente sem dinheiro e precisa fazer algum bico na Inglaterra. Através de um aplicativo ele encontra uma vaga para testar um jogo de terror em realidade virtual, de uma empresa famosa pelos games do gênero (certamente uma menção ao novo Resident Evil).

O episódio lida com a problemática praticamente ignorada da realidade virtual – é óbvio que nada dentro dela pode fisicamente nos machucar, mas até que ponto gostaríamos de estar totalmente imersos nessa realidade fictícia? Não é perigoso que esqueçamos que estamos dentro de uma simulação? Ou até que isso gere outros traumas para o jogador? Apesar de diversas tentativas de inovação, o cinema continuara basicamente o mesmo: uma tela grande no qual o filme é exibido. Claro que tivemos o acréscimo da cor, do som falado, a mudança no formato do quadro e o mais recente 3D, mas ainda mantemos uma certa distância como que é exibido, a função de nos imergir é a narrativa e não a tecnologia utilizada para apresenta-la – tanto é que filmes preto e branco ou mudos surtem os mesmos efeitos em nós.

Qual a necessidade, portanto, de um jogo em realidade virtual? Evidente que o game tem um elemento extra em relação ao cinema, sua interatividade, mas isso já não é o bastante? Precisamos ainda estar completamente inseridos nesse meio? Playtest extrapola essa questão e, de forma bem pensada, utiliza alguém que não é um gamer propriamente dito, dialogando com o espectador comum de forma mais certeira, atingindo uma audiência maior. Mais importante ainda é o fato de estarmos diante de um personagem que viajara pelo mundo, vivera inúmeras aventuras, mas que perece diante desse universo criado digitalmente. Além disso, através da escolha desse protagonista, Black Mirror demonstra que essa tecnologia é feita para atingir justamente as grandes massas, visto que o hardcore gamer não se importa muito com isso, o que ele deseja é um bom gameplay e uma boa narrativa.

Shut Up and Dance

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O terceiro episódio, Shut Up and Dance nos leva ainda mais próximos de nossa realidade – não temos aqui uma tecnologia muito avançada ou nada disso, simplesmente o velho hacking e o perigo do uso indevido da internet. Kenny (Alex Lawther) é um garoto jovem que vive com sua mãe e irmã. Um dia, ao chegar do trabalho, ele descobre que sua irmã utilizara seu laptop e de imediato percebera que adquiriu alguns vírus no processo. Após supostamente limpar o PC, ele decide  assistir pornografia na internet, sem saber, porém, que está sendo filmado por alguém desconhecido. Logo em seguida ele recebe um email contendo um vídeo dele próprio se masturbando e é alertado que isso irá vazar por toda a internet se não seguir as instruções precisas.

Evidente que o capítulo lida com os constantes episódios de vazamentos de conteúdo particular em redes sociais, fórums e outros meios de interação afora. Desde o famoso fappening até o as centenas de fotos e vídeos que circulam pelo Whatsapp, já virou algo de costume dentro desse mundo digital – mas são poucas as pessoas que efetivamente param para pensar no dano que estão causando ao compartilhar essas pessoalidades de desconhecidos. Chega a ser assustador como o ser humano se preocupa somente com quem está ao seu redor, espalha esses registros privados indiscriminadamente e ainda tem a cara de pau de se sentir vigiado pela CIA ou afins, quando ele próprio já divulga informações alheias pelo mundo afora.

Shut Up and Dance lida com a questão com brilhantismo, insere uma narrativa de ação e suspense, uma corrida contra o tempo que demonstra o quão variada cada temporada de Black Mirror pode ser. Alex Lawther cumpre seu papel de forma completamente imersiva, sentimos toda sua dor, como se ele, de fato, fosse alguém real, ao ponto que esquecemos estar diante de um ator. Jerome Flynn, o Bronn, de Game of Thrones, também não deixa a desejar e mostra como o cyberataque pode atingir a qualquer um. Trata-se de um capítulo que não nos dá tempo para respirar, nos mergulhando totalmente em sua história que, no fim, nos faz imediatamente colocar um post-it na frente da webcam de nossos computadores.

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GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.