Crítica | O Céu de Suely

Iguatu é uma típica cidade do sertão nordestino: temperaturas elevadas, ambientes visivelmente secos causados pela escassez de chuva e com a presença da Caatinga, o típico bioma com vegetação adaptada ao clima semiárido da região. É nessa cidade do interior do Ceará, mais de 350 quilômetros de distância da capital Fortaleza, que acontece a dramática história de Hermila (Hermila Guedes), uma jovem recém voltada de São Paulo com seu filho de colo.

Dirigido por Karim Aïnouz, com roteiro de Felipe Bragança, Maurício Zacharias e do próprio Aïnouz, acompanhamos o retorno da já citada jovem para Iguatu, sua cidade natal, enquanto Mateus, seu companheiro, é esperado retornar de São Paulo dentro de poucas semanas. Não bastasse a difícil situação financeira vivida pela personagem e sua família, tudo piora quando esta descobre que seu então amado some sem aviso prévio e não retorna da capital paulista, deixando Hermila devastada e com um filho para criar (infelizmente, uma realidade comum no Brasil). É a partir desse acontecimento que a jovem utiliza o pseudônimo Suely ao colocar-se como prêmio da rifa que vende para conseguir algum dinheiro; e quando perguntada sobre a premiação, cunha a frase mais marcante do filme: “uma noite no paraíso comigo”.

Apesar da trágica história apresentada, Aïnouz cria uma obra absolutamente delicada e sensível, quebrando a expectativa inicial de uma película com uma protagonista fragilizada e sem saber que rumo ou quais decisões tomar em sua vida. Não que isso não faça parte da projeção, faz e muito, no entanto é delicioso notar o cuidado do diretor em mostrar uma personagem multifacetada, sendo capaz de oscilar entre momentos eufóricos e melancólicos de maneira orgânica e verossímil, aproximando a personagem do espectador.

Vale ressaltar dois pontos específicos que colaboraram para que essa aproximação fosse possível: nomes e artistas. No caso do primeiro, vem das personagens terem o mesmo nome dos atores, seja com Hermila Guedes no papel de Hermila/Suely, de João Miguel no papel de João ou de Maria Menezes no papel de tia Maria. Esse pequeno detalhe, apesar de parecer insignificante, auxilia na criação de uma atmosfera mais familiar entre público e obra, tornando a frágil linha que separa ficção de realidade ainda mais fina. Já no segundo caso, há de se destacar toda a qualidade dos atores envolvidos na produção do longa. Pode-se elogiar a forma como Hermila Guedes concebe uma personagem instável emocionalmente (algo reforçado pela sua pouca idade: 21 anos), que oscila de momentos de absoluta felicidade nas festas noturnas com sua amiga Georgina (Georgina Castro), passando por irresponsabilidade (e imaturidade) ao negligenciar o cuidado com seu choroso filho antes deste dormir, até total angústia e melancolia ao ser confrontada e agredida por sua avó Zezita (Zezita de Matos) quando descobre sobre a rifa de Suely. Outro exemplo é João Miguel, que concebe em João a personificação do cabra-macho: postura rígida, poucas palavras e quase sempre sério, mas bondoso e dono de um coração mole. Poderia transcrever uma crítica apenas exaltando as excelentes atuações desses profissionais, porém o foco desta aqui é o filme e existem outras qualidades que precisam ser destacadas.

A fotografia, muito provavelmente, é o melhor exemplo que pode-se citar para elogiar virtudes da obra, principalmente do ponto de visto técnico. O diretor brinca com essa técnica de maneira extremamente hábil, criando desde cenários visualmente belíssimos até analogias de vastidão com solidão de personagens (a cena que Hermila chega a Iguatu, por exemplo, serve para ambos: um fabuloso plano aberto que ficaria lindo em um quadro ao mesmo tempo em que passa uma sensação de solidão e pequeneza da personagem diante do gigantesco céu ao fundo, um reflexo dela diante do mundo). Interessante também é a utilização das cores para transmissão de sensações e sentimentos, principalmente o azul, utilizado com frequência no primeiro ato, que vai se esvaindo conforme a projeção avança e a situação da protagonista torna-se cada vez mais melancólica, dando as caras quase que somente em momentos familiares e de aconchego (como se a casa da família fosse o último lugar onde a tranquilidade e felicidade do início ainda existisse para ela).

Tornando a tênue linha entre realidade e ficção mais fina do que o comum, O Céu de Suely é uma obra crua e retrata a realidade de uma considerável parcela da população brasileira com grande maestria. Com uma talentosa equipe em frente e atrás das câmeras, Aïnouz criou uma obra que deveria ter muito mais espaço midiático devido a sua grande qualidade, entretanto enriquece como poucas a já rica cultura brasileira, seja cinematográfica ou num aspecto geral.

Céu de Suely (idem, Brasil – 2006)
Direção: Karim Aïnouz
Roteiro: Karim Aïnouz, Felipe Bragança, Simone Lima (história), Mauricio Zacharias (história)
Elenco: Hermila Guedes, Maria Menezes, Zezita Matos, João Miguel, Georgina Castro, Claudio Jaborandy, Marcelia Cartaxo, Flavio Bauraqui, Matheus Vieira, Gerkson Carlos.
Duração: 90 min.

RODRIGO PEREIRA . . . Certa vez um grande amigo me disse que após entendermos o que estamos assistindo, o cinema se torna uma experiência ainda mais fascinante e fantástica. Não poderia estar mais correto. O tempo passou e a vontade de me aprofundar cada vez mais só aumentou. Hoje, vejo no cinema muito mais do que meramente entretenimento, é um maravilhoso artifício que encanta, emociona, provoca e possui um grande potencial de transformação social. Pode me encontrar em alguma aventura pela Terra Média, lutando ao lado da Aliança Rebelde, tentando me comunicar com Heptapods ou me escondendo de Jack Torrance no labirinto de um fauno em alguma linha temporal criada por Dr. Brown e Marty McFly.