Crítica | O Céu de Suely

estrelas 4,5

Após sua estreia na tela grande com Madame Satã, Karim Aïnouz parte para um filme que, em primeira instância, muito se distancia de seu primeiro. Não é preciso muita observação, contudo, para se identificar a marca do cineasta em O Céu de Suely e, aos poucos, ele constrói uma narrativa tão angustiante e imersiva quanto a anterior, ao mesmo tempo que proporciona uma visão única do Brasil.

O longa-metragem começa com uma cena em tom onírico de dois jovens apaixonados, rodopiando ao som de Tudo que eu tenho.  Tal romance é cortado diretamente para um ônibus. Lá dentro, Hermila (Hermila Guedes) viaja de volta para sua cidade natal, Iguatu, no Ceará, junto de seu filho ainda bebê. Ao chegar lá, a moça encontra sua tia e avó e fica no aguardo de seu marido que chegará em um mês. Não é nenhum segredo que o homem pela qual ela espera nunca chega, por mais que ela acredite nisso. Sua situação de pobreza e vontade de escapar da cidade a levam, então, a rifar a si mesmo – uma noite no paraíso, como ela própria diz.

Céu de Suely trabalha em cima das consequências dessa decisão de Hermila. A partir desse momento, ela passa a lidar com todo o preconceito e julgamento dos moradores de Iguatu, inclusive de sua própria família. O roteiro de Felipe Bragança e Karim é construído a fim de chocar o espectador com cada reação apresentada – fator que novamente só é possível pelas ótimas atuações dirigidas por Aïnouz.

A mudança na trama de vítima do marido para vítima da cidade também fica evidente pela fotografia de Walter Carvalho. No início vemos planos mais abertos que sempre mostram o céu azul caindo sobre Hermila. Aos poucos, contudo, os enquadramentos vão se fechando enquanto as tomadas passam a ser no entardecer e na noite. Sutilmente, é construída aquela claustrofobia de Madame Satã, nos fazendo sentir como a personagem principal que também é pressionada de todos os lados por mais independente que seja.

Através desses detalhes, Karim deixa sua marca como diretor, trazendo mais um filme que foca nas reações e percepções humanas. Das ruas fechadas e labirínticas da Lapa, ele parte para os planos abertos do interior do Ceará, até novamente focar no drama de uma mulher que busca nada menos que sua liberdade. O Céu de Suely é um filme que prende o espectador do início ao fim, fazendo-o rir, se angustiar e torcer pela personagem principal, através de ótima direção, fotografia e atuações.

O Céu de Suely (idem, Brasil – 2006)
Direção: Karim Aïnouz
Roteiro: Karim Aïnouz, Felipe Bragança, Simone Lima (história), Mauricio Zacharias (história)
Elenco: Hermila Guedes, Maria Menezes, Zezita Matos, João Miguel, Georgina Castro, Claudio Jaborandy, Marcelia Cartaxo, Flavio Bauraqui, Matheus Vieira, Gerkson Carlos.
Duração: 90 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.