Crítica | Chrono Trigger

estrelas 5,0

2015 marca o vigésimo aniversário de um clássico dos games. Falar que Chrono Trigger é um dos JRPGS mais louvados da história é chover no molhado. Que seu sistema de combate revolucionou a dinâmica de ação, que sua trilha sonora é uma das mais festejadas em orquestras – inclusive no Brasil – e que seus personagens são memoráveis desde o início da aventura também é dizer o que já foi dito. Apesar disso, todos esses quesitos demonstram como esse jogo possui uma aura única, um charme que cativa fãs de rpgs e jogadores casuais da mesma forma instantânea, o que gera, mesmo duas décadas depois, uma legião de fãs fanáticos e saudosos do universo criado para Crono explorar com seus companheiros.

Muito do sucesso e do legado desse game se deve, primeiramente, ao “dream team” que se reuniu para sua produção. Partindo do aspecto mais visível, se você, como eu, ficou desconfiado em ver aquele Goku com cabelo vermelho com a espada do Trunks, não se preocupe. Akira Toriyama, gênio criador de Dragon Ball, emprestou seus traços para todos os personagens. Não à toa Lucca é a cara de Bulma, Ayla de Lunch e Frog de Ginyu, na sua versão sapo, evidentemente. Hironobu Sakaguchi, criador simplesmente de Final Fantasy anos antes, assim como Yuji Horii, criador do então inovador Dragon Quest, desenvolveram esse clássico que contou com Yasunori Matsuda e Nobuo Uematsu na composição da trilha sonora – o segundo substituiu o primeiro, que adoeceu.

A junção de tantos mestres é perceptível desde o início do game, quando Crono acorda sob a suave trilha de fundo. Como todo clássico rpg, o protagonista acaba caindo em uma aventura por acaso, quando vai visitar uma demonstração de ciência, comandada por Lucca, em um grande festival acontecendo no centro da cidade. A narrativa segue colocando pequenos eventos, programados para acontecer, de modo a condicionar o jogador a acreditar que aquilo foi realmente um golpe de sorte. Seja o colar da princesa, seja, tempos depois, todo o julgamento de Crono, tudo é planejado e mostrado em uma narrativa elaborada com incrível cuidado e que dá o tom aventureiro essencial para se apaixonar pelo game logo de cara.

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No mesmo sentido, o cenário varia do estilo medieval ao de ficção científica, passando, graças ao benefício da viagem no tempo, por um futuro desolador. Uma crítica possível seria o prejuízo que essa viagem no tempo causa tanto para a história quanto para a jogabilidade. Furos, principalmente no núcleo da Marle, são impossíveis de desconsiderar. Mas sob o perigo de prender um conto que é, no fundo, infantil, em uma pesada racionalização científica ficcional – convenhamos, é raro encontrar o tema de viagem no tempo ser utilizado sem erro – talvez seja melhor ver nessa viagem do tempo uma abertura para exploração, que permitia ao jogador escolher seu próprio caminho e, com isso, desaguar em dos mais de dez finais criados. Se hoje isso ainda é admirável, em 1995 é difícil calcular o assombro causado.

Nada disso, porém, seria bem lembrado se não fosse pelos personagens. Praticamente todos os seis que dão as caras são memoráveis. O design de Toriyama é fascinante em uma primeira vista. Mais importante, todavia, é a personalidade diferente de cada um. Lucca é mente brilhante, mecânica e criadora das armas utilizadas. Marle é a típica princesa cansada da vida confortável. Frog é um cavaleiro honrado e respeitoso que busca sua vingança – e, pessoalmente, meu favorito. Robo é o robô brutamonte e gentil consertado por Lucca enquanto Ayla é a mulher poderosa e carismática, líder da raça humana nos tempos primitivos. O jogo inteligentemente coloca um limite de três na party, o que faz o jogador perder no mínimo um desses grandes personagens na jogatina. E mais: cada um tem habilidades próprias e golpes que podem ser usados estrategicamente nas batalhas durante a jornada. Um dos grandes trunfos de Chrono Trigger era o combo das ações dos protagonistas, o que proporcionava não só um dano até triplo nos inimigos como ainda uma belíssima animação em 16 bits da combinação de diferentes estilos, que ocorre na mesma tela da batalha que, por sua vez, é a mesma de sempre, não sendo dividido em uma parte onde os personagens andam e outra totalmente diferente que anuncia um duelo.

A dinâmica da batalha em si é muito mais movimentada do que os rpgs convencionais da época. A posição dos seus personagens, assim como a dos inimigos, é determinante para a vitória e para a quantidade de dano tomado. Escolher entre o método de esperar os turnos e o evento em tempo real é outra opção bem escolhida que dá ao jogador uma abertura para seu tipo de jogo predileto. O primeiro contato de um jogador acostumado com outros rpgs pode causar estranheza, principalmente pelo tamanho da liberdade de movimentação após determinado momento do game e pelo esquema dos combos. A jogabilidade, porém, é tão fluída e rápida que logo se acostuma com o que é proposto.

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Já a trilha sonora, já ressaltada aqui no Plano Crítico, é merecedora das constantes e diversas reinterpretações. Corridors Of Time, ou o tema de Zeal, é uma obra-prima que não consegue ficar ruim em absolutamente nenhuma versão já ouvida na face da terra. Secret Of the Forest tem elegância e altivez única. Wind Scene, outra obra-prima, é um som inesquecível. Morning Sunlight e Chrono Trigger relembram específicos momentos assim que ouvidas. Cada outra música, por mais que seja colocada em curtas cenas ou sejam de transições rápidas, como Brink Of Time, formam uma base extremamente sólida que dá ao jogo um caráter e uma ambientação própria. É impossível deixar de citar os temas próprios dos personagens. O animado tema de Robo, ou épico tema de Frog, ou ainda o desafiador tema de Ayla. Tudo condiz com as personalidades vistas em cada um e deixam no jogador um afeto sonoro que poucos games conseguem realizar com tamanha maestria.

Chrono Trigger consegue misturar uma aventura aberta, que coloca o jogador no controle do destino decisivo de seus personagens, e uma narrativa fechada com personagens bem definidos. O clima heroico permanece do início ao fim e graças aos antagonistas que possuem incrível background e às técnicas de combate e seus combos, o jogador acaba querendo preparar sua equipe, treinando e explorando tantos cenários distintos.

O título de melhor rpg de todos os tempos, ou melhor jogo de todos os tempos é discutível, mas extremamente compreensível. A intimidade que um game cria com cada um, de forma singular, é cada vez mais rara de ser vista quando há um blockbuster ou games genéricos online lançados a cada três meses. Mas como visto, tudo isso passa pelo visual da capa do game até o gameplay em si. Chrono Trigger atinge a excelência em todos esses aspectos e, por mais que um jogador não seja fã de rpg, certamente ele se apaixonará por esse game espetacular, que continua atualíssimo mesmo vinte anos depois de marcar a história dos videogames.

Chrono Trigger
Desenvolvedor: Square
Lançamento: 11 de março de 2015
Gênero: Rpg
Disponível para: Super Nintendo, Ds, Playstation, iOS e Android

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.