Crítica | Doze Homens e Outro Segredo

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Devo admitir, como fã de Led Zeppelin, que pelo menos meia estrela desta avaliação foi dada à desesperada declamação de Kashmir por parte de Linus (Matt Damon), na possivelmente cena mais hilária de toda a trilogia – o que quer dizer muito. Mas um filme, como bem se sabe, não é feito só de cenas memoráveis: Doze Homens é o ponto baixo da franquia.

Como uma sequência que se propõe mais complexa e provocadora acaba sendo pior que o filme predecessor? Como uma obra com elenco tão estrelado consegue adicionar a belíssima, charmosíssima e lindíssima Catherine Zeta-Jones e, mesmo assim, acabar sendo incapaz de melhorar o encanto fascinante do primeiro filme? A resposta pode parecer simplória, mas é apenas simples: Las Vegas.

Ou melhor, a ausência de Las Vegas. Veja, caro leitor, aqui quem fala não é um novo rico. Eu prefiro a Europa – qualquer Europa, ocidental ou oriental – a qualquer Disneylândia, Nova York ou Vegas. Nenhum antiamericanismo da minha parte, somente uma preferencia por viajantes em vez de turistas – não que Paris já não tenha sido contaminada, mas há uma mísera porcentagem que foge do turismo de selfie em terras europeias, coisa que não há mais na terra de Trump.

Mas divago. Voltando ao filme: Doze Homens não coloca a mão no ombro do público e o convida para se divertir em Vegas. Passando-se em Amsterdam e Roma, basicamente, é quase que completamente impessoal e contemplativo se comparado ao focado e convicto Onze Homens. A trama ainda mais intrincada começa muito bem com Terry Benedict (Andy Garcia) caçando um ladrão de cada vez – Soderbergh consegue repetir a dose do primeiro filme ao cuidar das personalidades de cada membro nestas rápidas tiradas. Em cômica e criativa montagem, o dono do Bellagio finalmente se vinga ao deixar de ser (tão) trouxa, propondo duas semanas para que a gangue de Daniel Ocean (George Clooney) pague o que deve com os devidos juros.

É verdade que a premissa de Doze Homens é sufocante por si só. O que mais destoa do tom do primeiro filme, contudo, acaba sendo a ambientação europeia. Na apertadíssima e nublada Amsterdam não há muito espaço para o ar e a riqueza de possibilidades do vasto deserto de Vegas. Aqui tudo parece caminhar para o erro e, de fato, tudo caminha.

Com clima de epílogo azedo, o filme ainda adiciona camada sobre camada em seu enredo. Pisque e perca, é simples. Não se trata de um fator negativo por si, mas pouco ajuda três mudanças de planos da metade para o final: toda a fluidez que ecoa em Onze Homens é abandonada aqui por um desesperado esforço em parecer mais inteligente e menos cool que no primeiro longa. A cereja do bolo é a aparição repentina da mãe de Linus e de outro personagem, servindo como dei ex machina. Soderbergh chama a plateia de trouxa pela desnecessária preocupação com um plano que era, essencialmente, fake por metade do filme. Not cool, man

Doze Homens guarda boas adições nesta teia toda. Se do primeiro filme pode ser dito que Ocean é o protagonista, certamente do segundo é Rusty (Brad Pitt) que ganha mais destaque, até por seguirem a deixa dada por Tess (Julia Roberts) no final do primeiro: arranjaram uma garota para o loiro. Lahiri (Zeta-Jones) é a policial durona e rigorosa que não hesita em falsificar uma assinatura aqui e acolá para caçar os bandidos. Mais um exemplo de como a sutileza da expressão dos atores dita o tom do filme inteiro.

Além da cena citada de Linus, há outras partes memoráveis, ainda que incapazes de sustentar o filme por inteiro. Julia Roberts interpretando Tess interpretando Julia Roberts é um exemplo de ideia que fica melhor a cada assistida. Vincent Cassel, fazendo o francês arrogante e cínico mais estereotipado da história, é outro prato cheio: sua dança entre os lasers é exagerada, mas com Thé à la menthe se torna outra passagem longeva. Falando em trilha, como não se apaixonar por Catherine Zeta-Jones sorrindo ao som de Crepuscolo Sul Mare, de Piero Umiliani? Aliás, suba a tela e se pergunte, caríssimo leitor: como não se apaixonar por Catherine Zeta-Jones, pura e simplesmente?

Afora tais colírios, na apertada Europa não há espaço para o brilho dos doze homens. Bagunçada e irregular, a obra não prende tanto o espectador quanto o filme que o precede, mesmo havendo um suave e louvável aprofundamento temático em meio à tanta falta de ritmo. Correndo riscos e pagando por eles, Doze Homens é a típica sequência maior que não entrega, mas envelheceu suficientemente bem para merecer uma honesta revisitação.

Doze Homens e Outro Segredo (Ocean’s Twelve) – EUA, 2004
Direção: Steven Soderbergh
Roteiro: George Nolfi
Elenco:  George Clooney, Brad Pitt, Catherine Zeta-Jones, Vincent Cassel, Julia Roberts, Andy Garcia, Matt Damon, Casey Affleck, Bernie Mack, Scott Caan, Eddie Jemison, Don Cheadle, Elliott Gould, Carl Reiner, Shaobo Qin.
Duração: 125 min.

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran. https://twitter.com/AnthonioDelbon