Crítica | Mamãe Küster Vai Para O Céu

estrelas 4

SPOILERS!

Mamãe Küster Vai Para o Céu (1975) é um drama marcado por diversas nuances críticas e dramáticas, um dos roteiros mais instigantes de Fassbinder, que dessa vez, tem Kurt Raab como parceiro de texto.

Com um início bastante pessoal, com a câmera focando objetos e atores em primeiro plano, vemos estabelecido o marasmo sufocante e birrento da família protagonista. Papai Küster é esperado para o jantar. Mamãe Küster (Brigitte Mira, em uma excelente e tocante atuação) termina o seu dia de serviço parafusando tomadas com a ajuda do filho e cozinhando com a ajuda da nora dominadora. O ambiente é claro e a proximidade da câmera impede que o espectador tenha uma noção geral do espaço. Até que uma leve discussão se inicia, sendo cortada por uma notícia de rádio. Os planos se abrem. Ouvimos que um trabalhador enlouqueceu, matou o filho do patrão a pauladas e se suicidou nas máquinas da fábrica. A câmera se afasta e a fotografia escurece um pouco. A campainha toca. A trágica notícia chega.

Baseado em uma história de Heinrich Zille, A Viagem de Mamãe Krause Para a Felicidade, filmada em 1929 por Phil Jutzi, o longa de Fassbinder tem uma forte abordagem política, colocando várias inclinações como alvo de críticas: o capitalismo, o socialismo e o anarquismo, um ciclo completado pela visão ácida do diretor para o papel sensacionalista da imprensa e para as complexas relações familiares.

Brigitte Mira vive mais uma personagem que padece do abandono dos filhos e tenta suprir essa solidão de alguma forma (situação também vista em O Medo Consome a Alma). Porém, a situação aqui ganha contornos imorais. Mamãe Küster, em sua alienação política e solidão, acaba sendo uma arma de propaganda política exatamente como fora fonte para a imaginação do jornalista que escreveu uma reportagem medonha sobre papai Küster. Influenciável e de comportamento passivo, mamãe Küster é jogada de um lado para outro pelos pequenos poderes à sua volta e é tratada em segundo ou terceiro plano pelos dois filhos.

Fassbinder retrabalha aqui o imaginário de filmes como Por que Deu a Louca no Sr. R.? (1970) e O Comerciante das Quatro Estações (1971), alternando, ao longo da narrativa, o ponto de vista para o problema central. Vemos a ação violenta de papai Küster ser mostrada sob diferentes ângulos e a mudança de visão que os personagens, inclusive a protagonista, vão ter no decorrer da trama. Ironicamente cada grupo acaba indo em busca de um interesse pessoal, usando a mamãe Küster como ponte ou tentando disfarçar esse uso de alguma forma.

Através da montagem impecável de Thea Eymèsz, vemos o desencanto pessoal e o engajamento político manipulador ganharem espaço e ritmo cada vez mais sufocantes à medida que nos aproximamos dos dois finais que o diretor deu ao filme. Na versão original, o anarquista Knab – que entra na trama em um momento onde o diretor adota um tom sombrio, acompanhado pela fotografia – faz reféns, exige fuga do país e uma grande tragédia final conclui a obra, com a morte de mamãe Küster. Já a versão que o diretor filmou para exibição nos Estados Unidos e que acabou mantendo na obra final, tem um final feliz que não nega o título, mas possui outra configuração, inclusive estética, com planos abertos, pouco movimento de câmera e ambiente branco.

Embora a versão trágica seja imediatamente mais interessante, não podemos deixar de ver um exagero cínico de Fassbinder na segunda versão, o final feliz onde nada é resolvido e a felicidade é apenas um detalhe de curta duração, se analisado de maneira mais profunda (um artifício tipicamente sirkiano, diga-se de passagem). O vazio, o abandono e os jogos políticos continuam em cena, só são temporariamente substituídos por um suspiro de felicidade, algo que para a concepção de Fassbinder nem sempre é divertido e quase sempre (porque vem em uma intensidade descontrolada e forçada) é sinônimo de desespero.

Mamãe Küster Vai Para O Céu (Mutter Küsters’ Fahrt zum Himmel) — Alemanha Ocidental, 1975
Direção: Rainer Werner Fassbinder
Roteiro: Rainer Werner Fassbinder, Kurt Raab (baseado em uma história de Heinrich Zille)
Elenco: Brigitte Mira, Ingrid Caven, Margit Carstensen, Karlheinz Böhm, Irm Hermann, Gottfried John, Peter Kern, Kurt Raab, Gustav Holzapfel, Lilo Pempeit, Peter Chatel, Peter Bollag, Vitus Zeplichal, Volker Spengler
Duração: 120 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.