Crítica | Silêncio (2016)

estrelas 4

Obsessão é uma coisa complicada, mas, ao mesmo tempo, potencialmente maravilhosa. Martin Scorsese, um dos maiores e mais importantes diretores americanos vivos, que nunca escondeu o fortíssimo viés católico de várias de suas melhores obras, levou 28 anos para colocar Silêncio nas telonas, em uma longuíssima e complicada gestação que acabou resultando em seu filme menos comentado e menos apreciado em décadas. Mas pelo menos não se pode dizer que Scorsese não tentou e, sob diversos aspectos, quase conseguiu criar uma obra-prima.

Baseado no romance homônimo do autor católico japonês Shūsaku Endō (adaptado para o cinema pela primeira vez em 1971, com roteiro co-escrito pelo próprio autor), considerado um dos maiores de seu tempo, publicado originalmente em 1966 e tido como sua maior obra, o filme conta a história de dois missionários jesuítas portugueses que têm como objetivo descobrir o que exatamente aconteceu com seu mentor, enviado anos antes para o Japão e que, dizem os rumores, teria cometido apostasia. O que se segue à premissa é uma jornada que discute o que é fé, o que significa o ato de renunciá-la e, talvez mais interessante ainda, qual é o verdadeiro papel de Judas na estrutura narrativa do Novo Testamento. Não é, de forma alguma, porém, um filme hermético, que só tocará aqueles que forem devotos do Cristianismo ou mesmo de alguma outra religião que siga pelo menos em linhas gerais os mesmos preceitos. Ao contrário, Scorsese enquadra seu “projeto de paixão” de forma universal, discutindo a devoção, o sacrifício e, sim, ironicamente, a própria obsessão.

Mas, antes de entrar na crítica propriamente dita, creio serem necessários pelo menos breves comentários sobre o contexto histórico do período em que a história, inspirada em fatos reais, se passa. A presença da Igreja Católica no Japão começou com Francisco Xavier, que depois viria a ser canonizado, ainda na primeira metade do século XVI, com uma impressionante – para parâmetros orientais – aceitação pela população e pelo senhores feudais de lá. Números mostram que havia mais 100 mil convertidos no ponto alto do trabalho dos missionários e que, aos poucos, ao longo das décadas, uma resistência nobiliárquica à nova religião começou a ser construída. No entanto, o Japão, à época, era fragmentado em xogunatos que foram reunificados na era Sengoku por Toyotomi Hideyoshi, que começou, então, a lidar com o que ele percebia como ameaças externas a seu país, notadamente uma alegada “invasão europeia”. Os jesuítas, claro, foram identificados como propagadores do estilo europeu de ser (e, sem dúvidas, entre outras coisas, eles realmente tinham essa função) e várias tentativas de reduzir a influência do cristianismo foram feitas, culminando com o banimento completo da religião em 1620. Antes e depois dessa data, porém, perseguições religiosas começaram a aumentar fortemente, com o martírio de devotos e de jesuítas por todo o país, quase que completamente eliminando a presença cristã, que sobreviveu somente em razão dos chamados “cristãos escondidos”, que viviam conforme os ensinamentos de Buda, mas secretamente tinham no Cristianismo sua verdadeira devoção.

É no período final do expurgo católico que Silêncio começa. Os jesuítas Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garrpe (Adam Driver), depois de convencerem o mendigo bêbado japonês Kichijiro (Yôsuke Kubozuka), que encontram em Hong Kong, a servir de guia para sua chegada clandestina no Japão, alcançam um vilarejo secretamente cristão e passam a atuar como padres locais ao mesmo tempo que tentam descobrir detalhes sobre o paradeiro do padre Cristóvão Ferreira (Liam Neeson). A desolação impera. Os habitantes do vilarejo mal têm o que comer, mas vêem nos padres um fiapo de esperança em que se agarram fortemente. Eles vivem para a fé católica e a mera presença de Rodrigues e Garrpe mudam suas vidas, ainda que eles tenham que manter tudo no mais completo sigilo, com missas exclusivamente noturnas e um ritual que mantém os padres escondidos em uma cabana nas montanhas.

Scorsese não tem pressa com seu filme. Talvez por ter demorado tanto tempo no desenvolvimento de seu xodó, exista uma proximidade não completamente sadia com o material fonte, que, apesar de relativamente curto, usa a passagem de tempo para lidar com o crescente desespero e desesperança dos padres, especialmente Rodrigues, que é o narrador, para, então, justificar os acontecimentos finais. O diretor faz enorme esforço em passar essas dúvidas e esses questionamentos em sua película e, em grande parte graças ao trabalho de Garfield (curiosamente vivendo seu segundo papel em um mesmo ano de natureza muito parecida – o outro é em Até o Último Homem), ele é bem sucedido. O ator se entrega ao papel, significativamente mais sutil e complexo do que seu Desmond Doss no filme de Mel Gibson, e tem, talvez, a atuação de sua vida, convencendo o espectador de sua crença, de sua devoção e, principalmente, de suas dúvidas atrozes.

Adam Driver, por outro lado, tem um papel pouquíssimo desenvolvido na narrativa (novamente, há um vício em se tentar seguir de perto o livro), que não funciona de verdade além de sua provável escalação como algo que pode ser visto como a “figura viva de Cristo”, com seu rosto esguio e muito branco refletindo imagens renascentistas de Jesus, notadamente aquela que repetidas vezes Rodrigues vê ao longo da projeção. É quase como se Driver fosse uma mera alegoria.

O importante mesmo é a relação de Rodrigues com o atormentado Kichijiro, com um Kubozuka completamente irreconhecível debaixo de camadas de sujeira, dentes podres e uma cabeleira desgrenhada. Kichijiro é a figura do Judas na obra e a oposição entre ele e o padre forma o coração da película, levando-nos a dissecar a relação que outrora existiu entre Jesus Cristo e o maior dos traidores. Ou será que a traição fazia parte de um plano maior? Ou, mais interessante ainda, será que um lado só existe de verdade se contrastado com seu exato oposto? É fascinante ver essas questões sendo lentamente levantadas na proposta de Scorsese, ainda que haja muita repetição e muitas voltas para chegar-se ao mesmo lugar que funcionam melhor no livro do que no filme. No entanto, é impossível deixar de ficar fascinado com o trabalho do diretor em dirigir esses dois atores.

Outro aspecto importante – e isso nem subentendido fica – é que Rodrigues tem, em sua jornada, uma versão da Via Crucis e as dúvidas do próprio Cristo, ainda que com um desfecho diferente, ainda que perfeitamente crível. Suas terríveis provações – físicas e psicológicas – são trabalhadas detalhadamente por Scorsese, que ao pouco faz ruir as barreiras da fé cega e irrestrita, mostrando o componente humano por trás. Novamente, há lentidão aqui, mas ela acaba sendo necessária para tornar natural e compreensível o desfecho, que remonta ao início da obra em que vemos o padre Ferreira no início de sua própria Via Crucis.

O cuidado com a direção de arte é excepcional aqui, transmitindo em cenários – as filmagens foram em locação, na Tailândia – e figurinos uma credibilidade íntima perfeita. Não se enganem, o filme pode ser encarado como um épico, mas suas proporções são maiores nas implicações geo-políticas do que o que vemos nas telonas. Scorsese tenta mergulhar no âmago das dúvidas de Rodrigues e esmiúça por diversas vezes o ato de renunciar à religião, estudando a natureza desse ato visto por muitos como algo ignominioso, mas que pode ser apenas um gesto sem qualquer significado maior.

A fotografia também merece destaque aqui, cortesia de Rodrigo Prieto, de obras como O Lobo de Wall Street, Argo, O Segredo de Brokeback Mountain e Babel. Prieto usa uma paleta de cores que muito claramente acompanha o estado de espírito de Rodrigues que, mesmo em situações terríveis, consegue ser feliz com atos simples como dar comunhão aos aldeões ou batizar crianças. Quando há essa esperança nos atos do padre, a paleta do diretor de fotografia se abre, deixando que a cor e a luz quebrem a proeminência do cinza e das sombras. Mesmo quando ele é preso, essa oscilação continua, ainda que cada vez mais a câmera tente nos passar desolação e desespero. É um trabalho sutil e belíssimo, talvez o ponto alto da projeção se por um momento esquecermos a atuação de Garfield e de Kubozuka.

Silêncio é um filme que certamente não agradará a todos e ele tem mesmo seus defeitos, notadamente uma duração que tenta emular a passagem de tempo da obra de Endō, mas que acaba criando elipses mal resolvidas e arrastadas, além da presença de diversos “falsos finais” que agravam a impressão de que o filme é ainda mais longo do que seus mais de 160 minutos. No entanto, é difícil sair incólume quando os créditos começam a rolar tamanha a relevância das questões que são levantadas pela obsessão de Scorsese em nos trazer sua visão sobre a fé.

*Crítica originalmente publicada em 23 de fevereiro de 2017.

Silêncio (Silence, México/Taiwan/EUA – 2016)
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Jay Cocks, Martin Scorsese (baseado em romance de Shûsaku Endô)
Elenco: Andrew Garfield, Adam Driver,  Liam Neeson,  Tadanobu Asano,  Ciarán Hinds, Issei Ogata, Shin’ya Tsukamoto, Yoshi Oida, Yôsuke Kubozuka, Kaoru Endô
Duração: 161 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.