Crítica | Superman – O Filme (Versões de Cinema e Estendida)

estrelas 5,0

Superman – O Filme não foi o primeiro longa cinematográfico baseado em super-heróis, mas foi o responsável por iluminar o caminho que levaria a indústria cinematográfica ao estado atual em termos de adaptações de quadrinhos, para o mal ou para o bem. E, por incrível que pareça, esta conturbada produção comandada por Ilya e Alexander Salkind e Pierre Spengler, que tinha tudo, mas absolutamente tudo para dar errado, é, até hoje, em minha opinião, o melhor filme de super-heróis já feito (e notem que, apesar de ser leitor veterano de quadrinhos, jamais gostei do Superman!).

Afirmação exagerada? Bem, se olharmos para a crescente oferta de filmes deste sub-gênero que há por aí, é certamente algo polêmico de se dizer, mas Superman – O Filme, captura à perfeição o espírito do personagem e o espírito dos quadrinhos em geral, ofertando aos espectadores uma experiência de tirar o fôlego e que merece ser apreciada em todos os níveis.

Para começo de conversa, temos a produção em si que, como mencionei, foi complicada ao extremo. Diversos roteiristas trabalharam no texto, dentre eles, famosamente, Mario Puzo, autor e co-roteirista da Trilogia O Podersoso Chefão, cuja visão fez o filme enveredar fortemente para o lado camp ou brega. Somente quando Richard Donner, egresso de A Profecia, foi contratado como diretor (a escolha inicial era Steven Spielberg, mas vários outros foram cogitados antes, como Francis Ford Coppola, William Friedkin e até mesmo Sam Peckinpah) é que o filme como o conhecemos hoje começou a realmente tomar forma, já que ele trouxe a reboque Tom Mankiewicz para reescrever o roteiro e retrabalhar os conceitos. Infelizmente, porém, Mankiewicz teve o crédito de roteirista negado pelo sindicato e Donner o creditou como “consultor criativo” apenas.

Seguiu-se a isso a escolha do ator que viveria Clark Kent/Superman, que primeiro seria alguém conhecido (como Robert Redford, Burt Reynolds e até mesmo Sylvester Stallone), mas cuja dificuldade acabou levando à seleção de Christopher Reeve, ao mesmo tempo o primeiro nome a ser sugerido (e rejeitado) e o último, quando foi finalmente contratado. Marlon Brando, que já estava à bordo desde 1975 com um salário altíssimo e participação na bilheteria garantida, já era o nome certo para Jor-El e assim ele fez história com o cachê mais alto se levarmos em conta o tempo de tela (algo como oito minutos).

Além disso, a ideia do orçamento sem precedentes para a época – 55 milhões de dólares – era filmar Superman e Superman II de uma vez e assim foi feito até certo ponto, quando Donner começou a brigar com os Salkind com 75% do segundo filme completo e o primeiro já basicamente pronto. Essa história, sozinha, já mereceria um artigo, mas esse não é o objetivo aqui. Basta dizer que Donner, apesar de ter sido mantido como o diretor do primeiro filme, foi defenestrado no segundo.

Como, então, seria possível imaginar que o longa sairia do jeito que saiu, não é mesmo?

O grande trunfo está em Christopher Reeve, creio. O saudoso ator, então com 26 anos e tendo na carreira participação em três séries de TV e uma ponta em um longa-metragem, encarnou o herói de tal maneira que ele se tornou o personagem. Reeve tem sua imagem gravada no imaginário popular como o Superman e o Clark Kent perfeitos e jamais realmente superados. Muitos, com o olhar mais cínico de hoje em dia, considerarão sua atuação como bobinha, até mesmo ruim, mas uma cena, tenho certeza, se analisada com calma, enterrará esse raciocínio canhestro que já ouvi e li por aí várias vezes. Logo após o voo de Superman com Lois Lane (Margot Kidder), Clark chega no apartamento da repórter para levá-la para jantar. Quando ela vai se ajeitar e sai do aposento, Christopher Reeve faz o inimaginável: de Clark Kent ele se transforma em Superman diante dos nossos olhos, sozinho, sem truque de câmera, sem efeitos visuais. É o ator camaleônico comprovando que sim, Clark Kent pode esconder sua verdadeira identidade atrás apenas de um par de óculos. Notem como o ator, com costas arqueadas como Clark Kent, fica ereto e portentoso segundos depois, ao mesmo tempo em que tira o óculos e deixa seu rosto à mostra. É quase inexplicável o que acontece naquele momento, mas é quase tudo que se precisa saber sobre o trabalho de Reeve.

O outro aspecto que é necessário salientar é sua incrível capacidade de verdadeiramente nos convencer que um homem pode voar. Não, não revirem os olhos e pensem. O filme foi produzido na segunda metade da década de 70, depois de Star Wars, obra que liderou a mudança do conceito de efeitos especiais. Mas Star Wars é um filme que se passa há muito tempo atrás, em uma galáxia muito distante e problemas nos efeitos são disfarçados pelo contexto alienígena sem regras terrenas. Superman, por sua vez, se passa na Terra, sendo sujeito às nossa regras. Um homem voando em nosso meio é como um letreiro neon no meio de uma rua escura. Dói os olhos. Mas, de alguma maneira inexplicável também, Christopher Reeve, trabalhando com os magos dos efeitos especiais da época (que testaram diversas técnicas ao longo de meses, sem resultado), conseguiu uma postura pendurado por desconfortáveis cabos que nos leva realmente a aceitar que voar é normal se você estiver vestido com um vistoso uniforme azul e vermelho.

Mas Richard Donner é outro grande responsável pelo que vemos nas telas. Com o roteiro trabalhado por Mankiewicz criando três atos muito bem separados, Jor-El enviando seu filho de Krypton para a Terra, o bebê aterrizando, sendo adotado e vivendo em Smallville até o fim da adolescência e, finalmente, Superman em Metrópolis, Donner estabeleceu ou criou três filmes distintos dentro de um só. No primeiro, de ficção científica, vemos os avisos apocalípticos de Jor-El sendo ignorados por seus pares e o pai tomando providências para dar uma chance ao filho pequeno. No segundo, de chegada da maturidade, vemos um típico filme passado nos anos 50 e, finalmente, no terceiro, vemos uma aventura super-heroística. Cada ato desses forma pequenas partes que, no todo, correspondem à clássica Jornada do Herói, ou Monomito, conforme Joseph Campbell. Vemos o chamamento para a aventura, a ultrapassagem de obstáculos, os desafios, o abismo, o renascimento e a transformação do personagem em uma narrativa que não tenta se apressar, não faz uso de cortes rápidos e que realmente desenvolve o personagem criando elipses que permitem a perfeita compreensão de todas as fases de crescimento do Superman, do nascimento até a transformação final em salvador da Terra.

Aliás, é particularmente interessante como a correlação com Jesus Cristo é presente no roteiro e no design de produção. Para começar, é curioso como uma criação de dois artistas judeus, por produtores de origem judaica acabou carregando essa temática de forma tão bela e tocante. Desde a imponente figura de Jor-El que poderia ser equiparada com a de Deus (e que expulsa o General Zod/Lúcifer de Krypton/Paraíso, passando pela nave que leva o pequeno Kal-El para a Terra em formato de estrela (a estrela de Belém), até sua adoção por um casal que não pode ter filhos (Maria e José), sem esquecermos da figura do salvador em si que Superman acaba representando, tudo mostra a forma deliberada como o roteiro trabalha a simbologia cristã não tão metaforicamente assim.

E como ameaçar encerrar a presente crítica sem falar da magnífica trilha sonora de John Williams? O mago das trilhas talvez tenha criado um dos mais potentes motivos musicais super-heroísticos da história do cinema. A música tema não sai da cabeça de quem a ouve e sua associação com Superman é imediata e inevitável. É o uso da música na sequência em que Superman revela-se para o mundo que a torna emocionante como é, quando vemos o herói agarrar Lois Lane e o helicóptero em pleno ar, depois de trocar a roupa em uma porta giratória. Como Williams sempre faz, ele distribui leit motifs para cada personagem principal ou para situações, como o tema de Kripton, a morte de Jonathan Kent, a Fortaleza da Solidão, o tema romântico de Superman com Lois Lane ou a música jocosa, mas sinistra que caracteriza Lex Luthor (Gene Hackman) e sua gangue.

Superman – O Filme, é um marco na Sétima Arte. É o filme de super-herói que se mostrou muito além de seu tempo, muito maior até mesmo do que a mística em torno de seu personagem-título. É uma obra-prima ainda sem precedentes de uma era talvez mais simples, mais inocente, mas não menos interessante.

Versão estendida

Quando Superman – O Filme foi lançado na TV americana, um corte de mais de três horas foi montado para valorizar o produto. Este corte, infelizmente, não está disponível comercialmente, mas, apenas outro, supervisionado por Richard Donner, que insere diversas cenas originalmente filmadas, mas deixadas de lado por diversos motivos.

Esse corte estendido acrescenta parcialmente apenas uma pequena história paralela em que vemos o conselho kriptoniano enviar um “executor” para impedir Jor-El de continuar seus experimentos para transportar seu filho para fora do planeta. A sub-trama, razoavelmente desnecessária, acaba sem resolução clara nessa versão. Uma adição muito bem vinda é no momento em que Clark Kent, ainda adolescente, usa seus poderes para impressionar os valentões de sua escola, correndo mais rápido que um trem. Lá dentro, vemos uma menina que acena para Clark e descobrimos que ela é Lois Lane, o que cria um excelente movimento circular no roteiro. Mais interessante ainda que isso é notar que seus pais, presentes no trem, são vividos por Kirk Alyn e Noel Neill, respectivamente o primeiro Superman e a primeira Lois Lane de carne e osso, que debutaram no serial original de 1948)

Outra adição de monta se dá quando Superman invade o esconderijo de Luthor. Antes de derrubar a porta de metal, ele é atacado sucessivas vezes pelo vilão, primeiro com uma metralhadora, depois com um lança-chamas e, finalmente, com um raio congelante. Ainda que seja divertido ver Superman enfrentar de maneira impassível cada uma dessas ameaças, fato é que a sequência não adicionada nada que não seja tempo ao filme.

Em linhas gerais, apesar de inócuas, a versão estendida só tem realmente valor para os fãs do filme, ainda que a cena da pequena Lois Lane e seus pais tivesse que ter sido mantida no corte que foi ao cinema que não pela revelação em si, mas pelo menos pela homenagem aos atores originais.

Superman – O Filme (Superman – The Movie, EUA – 1978)
Direção: Richard Donner
Roteiro: Mario Puzo, David Newman, Leslie Newman, Robert Benton, Tom Mankiewicz
Elenco: Marlon Brando, Gene Hackman, Christopher Reeve, Ned Beatty, Jackie Cooper, Glenn Ford, Margot Kidder, Phyllis Thaxter, Marc McClure, Valerie Perrine, Maria Schell, Terence Stamp, Jack O’Halloran, Jeff East, Sarah Douglas, Diane Sherry Case
Duração: 143 min. (versão de cinema), 150 min. (vesão estendida)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.