Crítica | Zero Days (2016)

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estrelas 4,5

Alex Gibney foi vencedor, juntamente com Eva Orner, do Oscar de Melhor Documentário em 2008, com Um Táxi Para a Escuridão, mas é também conhecido pelo público em geral através de festivais e indicações a inúmeros prêmios, por documentários como We Steal Secrets: The Story of WikiLeaks (2013) e Going Clear: Scientology and the Prison of Belief (2015). Seu princípio de pesquisa, que também se reflete na forma — talvez ainda mais fortemente após os quatro documentários que realizou em 2010— é um misto de jornalismo crítico, exposição comentada e análise de consequências para os Estados Unidos e para os países parceiros ou dominados, terminando, eventualmente, com impactos e perspectivas que o objeto documentado pode causar.

Dentro desse modelo de fazer documentário, é fácil perceber que há muita coisa para se considerar. Gibney é criterioso na exposição dos fatos e mostra como os dois lados da moeda pensam a respeito do que ele documenta. Em Zero Days (2016), documentário sobre o vírus/worm produzido, segundo o documentário, pelos Estados Unidos, Israel e aliados (dentre os quais se destaca o Reino Unido), para boicotar as bases digitais de controle das usinas de Natanz, Irã, entre 2009 e 2010. Do documentário, o que podemos apontar como falta é uma maior deixa para o lado iraniano ou de vozes políticas do Oriente Médio. Explorar mais os cenários de países que estiveram diretamente ligados à invasão ou à variação dela, após o vazamento, como Belarus, Iraque e até mesmo Israel, ampliaria bem mais o leque e o diálogo. Mas ele ainda existe, em porte pequeno e serve muito bem para contextualizar o espectador.

Antes de mais nada, é importante definir o que significa o termo “Zero Day” ou “Dia Zero”, como conhecemos aqui no Brasil. O termo define uma falha de segurança não documentada e inexplorada; um agente de disseminação de vírus contra a qual não existe correção conhecida (patches, service packs, hotfixies, recomendações técnicas), já que o próprio desenvolvedor da solução ou quaisquer soluções de detecção ou correção de vulnerabilidades ainda não conhecem a falha. O vírus/worm em questão no documentário chama-se Stuxnet, e é em torno dele que toda uma política de cyber-guerra é discutida, partindo não de uma ideia sensacionalista para um documentário defensor do programa de armas nucleares iraniano, mas de documentos, investigação jornalística e declarações de diretores, ex e atuais membros ou colaboradores da Casa Branca, Pentágono, CIA, NSA e outras divisões governamentais.

As entrevistas e trechos de notícias iniciais (tem até um take do nosso Jornal Nacional!) servem para mostrar ao público que a ameaça é real e foi amplamente noticiada ao redor do mundo. Em seguida, passamos para uma dissecação do programa, desde aquilo que o antecedeu e seu lugar no mundo contemporâneo, até declarações técnicas de como foi identificado e a luta até que fosse eventualmente tratado, evitado ou usado como arma no contra-ataque terrorista. Mas o espectador não deixa de perguntar, em um primeiro momento, “por quê esses eventos de 2009 e 2010 têm importância para um documentário desse porte, em 2016?“. Essa pergunta é respondida apenas na reta final do filme.

Como em um longa de James Bond ou qualquer boa ficção científica que tenha computadores e cyber-guerra, somos apresentados a um novo conceito de enfrentamento entre nações. Com o descontrole do Stuxnet, após um grande erro cometido por Israel, e o conhecimento do mundo de que um tipo de invasão pode ser feita e destruir lugares de grande importância para um país sem que haja uma mobilização militar, deu oficialmente origem a uma era de “guerra à distância”. Os impactos disso para as sociedades ainda são desconhecidos, porque não se sabe quantos Dias Zero essas novas armas possuem e o que elas podem fazer. Desligar todo o fornecimento de energia de uma grande cidade? De uma unidade da federação? De um país? Interromper o fornecimento de água? A circulação de transportes que dependem de uma central computadorizada? Qual é o alcance?

Através de um bom uso de recursos expostos de maneira dinâmica, e com entrevistados bem escolhidos, consultoria e investigação de fontes oficiais, Zero Days é o tipo de filme que nos prepara através da explicação de algo de um passado recente para que entendamos uma situação presente e seus perigos e desdobramentos para o futuro. Definitivamente, essencial.

* Em 2010, o diretor lançou: Client 9: The Rise and Fall of Eliot Spitzer / FreakonomicsMy Trip to Al-QaedaCasino Jack and the United States of Money.

Zero Days (EUA, 2016)
Direção: Alex Gibney
Roteiro: Alex Gibney
Duração: 116 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.