Crítica | 15h17 – Trem Para Paris

“Eu não sei, senhora. Eu apenas não queria que minha família descobrisse que eu morri escondido debaixo de uma mesa.”

Como um homem, nas últimas passagens de uma jornada artística grandiosa, por meio da direção e da atuação cinematográfica, consegue manter um respiro tão vívido sobre as possibilidades de sua própria arte transgredir uma noção usual da linguagem? Clint Eastwood não apenas urge uma necessidade por desbravar, novamente, os heróis estadunidenses, vestindo uma camisa patriótica um pouco ingênua até, quase que purificada de um viés ideológico gritantemente acentuado e tornado hostil, como também não recorre a ambiguidades para discursar sobre mais do que meros arquétipos de heróis – Sniper Americano desvirtua-se um pouco disso, porém, ainda se prende a um olhar particular sobre o soldado e sobre os traumas carregados por veteranos, não um pensamento completamente generalista e impessoal. Os indivíduos heroicos, mesmo que alicerceados em conceitos republicanos, são justamente os cernes de Sully – O Herói do Rio Hudson – menos polêmico, particularmente – e, enfim, do corajoso 15h17 – Trem Para Paris – recorrendo ao militarismo, mas sendo mais cívico. Os super-heróis do anti-herói por excelência.

Clint Eastwood adora esses heróis e, mesmo que não sejam os heróis de muitas outras pessoas, personagens que, para certos grupos, no qual me incluo consideravelmente, poderiam ser encarados até mesmo como antagonistas – o caso do Sniper Americano é muito claro -, os símbolos são recriados através de um esmero imagético interessantíssimo. O que quer que seja o que o cineasta, atualmente, esteja encarando como verdadeiros exemplos da magnanimidade humana, 15h17 – Trem Para Paris é um clímax cinematográfico sobre as virtudes da nação americana como um protótipo da virtude do homem. Os personagens são novamente soldados e, nesse em caso específico, moldam-se ainda na infância já interessados por armas. A ambiguidade da guerra não está em jogo. A discussão das armas, muito menos. Clint Eastwood possui suas posições envoltas dessas temáticas muito esclarecidas, contudo, o ápice dessa sua jornada através do herói americano enaltece o indivíduo acima de qualquer outra coisa e esse argumento é construído de um dos modos mais inteligentes que o cineasta já se propôs em décadas de carreira.

Os atores são substituídos pelos verdadeiros heróis, retirados da própria realidade em que se encontraram uma vez no passado, onde confrontaram um terrorista, e então realocados em uma versão “imaginada” da mesma, partindo de uma curiosa encenação que mescla o amadorismo com o chamado ao heroísmo, como se fossem pessoas verdadeiramente normais as chamadas pelos espectadores de protagonistas. Quando as coisas são interpretadas, ganham uma noção de objetivo, de roteiro sendo interpretado, enquanto Spencer Stone, Alex Skarlatos e Anthony Sadler, em contrapartida, são meros não-atores sendo chamados para reviverem a história que marcou as suas vidas, sem muitos jogos narrativos “mentirosos”, como se o caso fosse maior do que na verdade foi – embora tenha sido gigantesco em um certo nível. O passado é mais significativo. A construção ao momento transpõe heróis, não a situação em si, um clímax muito bem executado, no entanto, rápido, sem mistérios para a condução. Quando não enfoca-se nos atores mirins, Clint captura, sem pretensões narrativas enormes, a trivialidade urbana, porque o herói nasce do acaso.

O símbolo do cidadão e militar estadunidense, moldado por valores patrióticos em segunda escala, mas, em primeira, sobretudo vontades altruístas – o anseio do protagonista por salvar pessoas, a exemplo – é competentemente construído – com uma automaticidade meio ordinária -, contudo, a ação, o momento do heroísmo transformado em realidade, é espontânea. Um caso muito específico precisou acontecer, ou seja, uma viagem de trem para Paris, que o roteiro, inspirado no livro de memórias do trio, compreende ter sido obra do destino, orquestrada por encontros aleatórios na viagem pela Europa que os garotos traçaram. “Os americanos precisam parar de acreditar que toda vez que o mal é derrotado a responsabilidade é deles”, aponta um guia turístico. O escanteamento dos demais personagens além de Spencer é problemático, e o sentimentalismo presente com as mães, interpretadas por Jenna Fischer e Judy Greer, nunca ganha uma carga emocional concreta, à base de uma receita que evidencia a moralidade que constrói esses corretos – antes rejeitados – cidadãos americanos – não os heróis supremos, mas ainda heróis de valor.

15h17 – Trem Para Paris (15:17 to Paris) – EUA, 2018
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Dorothy Blyskal
Elenco: Spencer Stone, Alek Skarlatos, Anthony Sadler, Ray Corasani, Jenna Fischer, Judy Greer, Bryce Gheisar, Jaleel White, Tony Hale, P. J. Byrne, Thomas Lennon, Robert Pralgo
Duração: 94 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.