Crítica | Hellboy – Vol. 6: Paragens Exóticas

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Mesmo considerando todo o exotismo lovecraftiano que Mike Mignola sempre enxertou em Hellboy, chega a ser estranho ler Paragens Exóticas, sexto volume da série principal, desta vez composto de duas minisséries de duas edições cada, diante da temática aquática que serve de pano de fundo. Afinal, imaginar o Vermelhão como um “viajante” submarino, que é o que o autor basicamente o transforma aqui, não é algo simples ou natural de se imaginar.

De certa forma, parece que Mignola não sabia muito bem o que fazer com seu grande personagem após O Verme Vencedor, com Hellboy, desgostoso com o B.P.D.P., desistindo de seu empregado e anunciando que partiria para a África quase que aleatoriamente. A primeira história, O Terceiro Desejo, começa por lá, mas logo arremessa o Garoto do Inferno para o fundo do mar onde ele, então, passa a protagonizar uma adaptação de A Pequena Sereia, de Hans Christian Andersen, inicialmente imaginada como uma história de ninguém menos do que Namor, da Marvel Comics.

E o divertido nisso tudo é que a coisa acaba funcionando e, ainda por cima, muito bem. Hellboy em nenhum momento deixa de ser o proverbial peixe fora d’água, mas, capturado por três sereias que, querendo ver seus desejos tornarem-se realidade, o entregam à bruxa-sereia-mor, ele passa a viver acorrentado, com um prego em seu cotoco de chifre que o permite respirar, mas sem poder fazer muito, no covil da monstruosa criatura.

É uma espécie de narrativa passiva em que a natureza de Hellboy é novamente abordada, com a bruxa querendo destruí-lo (e picotá-lo) para evitar o apocalipse e que serve de aprofundamento sobre sua misteriosa “mão direita da perdição”, misturada com boas sequências de ação que não ficam adstritas ao protagonista, lidando, também, com uma das sereias cujo desejo é devolver uma arma mítica ao túmulo de seu amado pai. Há uma bela harmonia na história como um todo e o visual submarino não só dá oportunidade para Mignola trabalhar criaturas e ambientações diferentes do usual, como emudece todas as cores em uma bela paleta quase monocromática de Dave Stewart que afeta até mesmo Hellboy, retirando-lhe o vermelho vivo e emprestando uma cor de “tijolo” que fica excelente no personagem.Como o leitor poderá reparar na ficha técnica mais abaixo, entre O Terceiro Desejo e A Ilha, houve um hiato de três anos sem que histórias de Hellboy por Mignola saíssem. Isso pode ser em parte explicado pela produção do primeiro longa-metragem do personagem, lançado em 2004 e também por uma espécie de bloqueio criativo do artista, o que corrobora a impressão de que ele não sabia muito bem o caminho que sua criação percorreria.

Depois de muita dificuldade, veio, então, a minissérie A Ilha, também em duas edições, que já começa com uma estranha elipse que determina que Hellboy passou dois anos vagando pelos oceanos. O título e o começo da história, com Hellboy chegando a uma ilha misteriosa com um navio pirata naufragado e confraternizando com os espíritos dos piratas mortos, não dá pistas da dimensão do que Mignola acaba fazendo. Em um crescendo constante, que envolve mais um castelo em ruínas, o autor mergulha fundo na mitologia de seu universo, literalmente contando-nós a história de sua criação e amarrando-a com as criaturas lovecraftianas que ele tanto adora e que adornam praticamente todas as histórias de Hellboy, notadamente Ogdru Jahad, seu Cthulhu particular e objeto de desejo de Rasputin.

Com isso, inesperadamente, Mignola incute um caráter épico e ambicioso a seu projeto de retorno à Hellboy, trazendo inclusive a figura demoníaca que seu protagonista em tese deveria ter se transformado se não tivesse “se adaptado” à raça humana em mais uma narrativa que faz com que o Vermelhão tenha que, na literalidade, lutar contra seus demônios. E, mais uma vez, apesar da improbabilidade, a história funciona bem, adicionando belas e profundas camadas a toda a mitologia hellboyana.

Paragens Exóticas, portanto, tinha tudo para dar muito errado. A transformação de Hellboy em uma criatura aquática era uma ideia bizarra demais para funcionar e contar a história gótica do universo em uma minissérie de apenas duas edições parecia um exercício em futilidade. Mas os astros lovecraftianos estavam alinhados e o resultado foi a volta à forma do demônio de chifres serrados.

Hellboy – Vol. 6: Paragens Exóticas (Hellboy – Vol. 6: Strange Places, EUA – 2006)
Contendo: Hellboy: The Third Wish #1 e 2 e Hellboy: The Island #1 e 2
Roteiro: Mike Mignola
Arte: Mike Mignola
Cores: Dave Stewart
Letras: Clem Robins
Editoria: Scott Allie
Editora original: Dark Horse Comics
Data original de publicação: julho e agosto de 2002 (O Terceiro Desejo), junho e julho de 2005 (A Ilha), abril de 2006 (encadernado)
Editora no Brasil: Mythos Editora
Data de publicação no Brasil: abril de 2007
Páginas: 153 (encadernado brochura americano)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.