Crítica | House of X // Powers of X

Respirem fundo, pois a crítica que segue das quase 450 páginas do início do trabalho de Jonathan Hickman perante os X-Men será tudo menos curta, até porque é necessário contextualizar as minisséries e responder algumas perguntas preliminares que potencialmente surgirão na cabeça de leitores menos enfronhados no que a Marvel Comics está preparando para seus mutantes.

Vamos lá?

Duas minisséries, é isso mesmo?

(1) House of X #1 e (2) Powers of X #1.

Já respondendo à pergunta do título, sim, é isso mesmo. Duas minisséries de seis edições cada publicada ao longo dos meses de julho e outubro de 2019, ambas em preparação para o que a Marvel batizou de Aurora de X (Dawn of X), uma espécie de nova era para os mutantes que inicialmente contará com seis títulos mensais com times criativos diferentes: X-Men (sem adjetivo e com Hickman no timão), Marauders, Excalibur, X-Force, Novos Mutantes (também com Hickman no comando) e Fallen Angels. O título principal (X-Men) terá sua primeira edição publicada em 16 de outubro de 2019, com as seguintes publicadas semanalmente até meados de novembro.

No entanto, as duas séries-prelúdio – House of X e Powers of X – formam, na verdade, uma longa história única de 12 edições capitaneada por Hickman e com a primeira desenhada por Pepe Larraz e, a segunda, R.B. Silva. Tanto é assim que a cronologia de leitura é intercalando as edições quase que perfeitamente. Para evitar dúvidas, segue a ordem exata sugerida pelo próprio Hickman ao final de cada edição e que, de fato, é a melhor a se seguir:

  • House of X #1
  • Powers of X #1
  • House of X #2
  • Powers of X #2
  • Powers of X #3
  • House of X #3
  • House of X #4
  • Powers of X #4
  • House of X #5
  • Powers of X #5
  • House of X #6
  • Powers of X #6

Não há uma razão específica para a divisão em duas séries separadas a não ser uma jogada de marketing para chamar atenção para o projeto e, em última análise, vender mais, nem que o preço disso seja uma certa confusão por parte dos leitores menos atentos. Ou seja, é uma maxissérie só que serve de rearrumação do tabuleiro mutante e introdução de um novo status quo do que promete ser o começo do que um dia provavelmente chamaremos de Era Hickman diante dos X-Men. Se ela será tão prolífica quanto a Era Byrne, Era Claremont ou a Era Morrison, só o futuro dirá.

Preciso ler o que veio antes?

(1) House of X #2 e (2) Powers of X #2.

A cronologia de qualquer personagem de décadas das editoras mainstream é, normalmente, um inferno para ser acompanhada, uma verdadeira tarefa hercúlea e que normalmente resulta em frustração. No caso dos X-Men, porém, “cronologia complicada” é um eufemismo diante do tanto de idas e vindas no tempo, realidades paralelas e alternativas e mortes e ressuscitações a torto e a direito. Portanto, a melhor resposta que posso dar à pergunta do título é: se você já não leu o que veio antes, não tente ler agora.

Claro que, se você for um fã que simplesmente TEM que ler tudo ou um fanático por cronologia (eu sinto por você), não tenho muito o que dizer. Mas, se você é uma pessoa “normal”, então começar diretamente em House of X é perfeitamente razoável. Ou quase…

Note que Hickman não escreve nada fácil e mastigado. Ele é um mestre em criar e expandir universos (veja o magnífico trabalho que ele fez com os Vingadores ao longo de anos até chegar em Infinito) de tal forma que, normalmente, o resultado final é que ele reescreve a história do universo que aborda, criando elaborados e multifacetados retcons que só não são mais ambiciosos por falta de espaço. Portanto, a leitura não é tranquila ou relaxante, especialmente não no começo para quem não for muito versado nos mutantes, mas confie em mim quando eu digo que, quando a leitura pega o ritmo, as peças vão sendo muito bem encaixadas e, ao final da maxissérie, tenho certeza que esse novo status quo parecerá quase que completamente normal para todo mundo.

Com base nisso, não pretendo aqui fazer um apanhado do que veio antes, pois House of X e Powers of X foram pensadas como um jumping point, ou seja, um ponto de entrada para novos leitores. É um jumping point particularmente complexo e desafiador (como tudo que vale a pena), mas, mesmo assim, é um jumping point. Dito isso, se o leitor não tiver nenhuma familiaridade com os X-Men, aí a coisa pode ficar realmente complicada, mas mesmo assim é possível, com paciência e perseverança, ler tudo sem ficar completamente perdido.

Finalmente, a crítica!

(1) House of X #3 e (2) Powers of X #3.

A história macro das minisséries é muito conhecida dos leitores de X-Men ao longo das décadas: o Professor X, agora só X e ocupando o esguio corpo de Fantomex, funda, juntamente com Magneto, uma nova nação mutante e exige o reconhecimento de soberania pelas nações do mundo. No lugar do tão acalentado sonho de tolerância e coexistência pacífica que Xavier manteve aceso por tanto tempo, agora ele quer paz para seu povo e um lugar seguro para todos os portadores do gene X, sejam eles bons ou maus, viverem.

Que lugar é esse? Simples, a ilha viva mutante Krakoa, no Oceano Pacífico. Antiga inimiga dos X-Men e introduzida em Giant-Size X-Men #1, de maio de 1975, que não sem querer trouxe importante reformulações na equipe, a ilha, agora, está disposta a acolher seus pares, tendo Xavier como intermediário e “portais vegetais” para facilitar a locomoção de seus habitantes. De forma a barganhar a soberania com a ONU, o professor oferece drogas milagrosas criadas a partir da flora de Krakoa em uma invencionice narrativa que incomoda pela conveniência e facilidade e que eu espero fortemente que Hickman aprimore nas publicações mensais.

De toda forma, essa é, apenas, a história de superfície, pois há muito mais para ser apreciado aqui, com Hickman realmente fazendo o que pode para oferecer uma introdução que parece o passo inicial de um complexo plano que será desvelado ao longo de anos de histórias. E, considerando o que ele fez em Infinito, não tenho razões para duvidar da capacidade do roteirista em entregar o que promete se a Marvel Comics lhe der tempo suficiente.

Para começo de conversa, ele não só lida com as usuais missões paralelas de diversos grupos de mutantes para tornar o reconhecimento de Krakoa possível, como também, na melhor tradição dos X-Men, trabalha com visões de passado e futuro, costurando não uma, mas quatro linhas temporais diferentes em sua narrativa, uma que se passa no Ano Um, outra no Ano 10, que seria o presente, outra no Ano 100, com a Terra dominada por Nimrod e, finalmente, o Ano 1000, com uma estranhíssima pós-humanidade. Cada uma dessas épocas é trabalhada com vagar e inteligência, ainda que o vai-e-vem seja dinâmico e repleto de informações específicas que Hickman “explica” na forma de glossários presentes em cada edição, artifício que pode parecer redundante e expositivo, mas que não verdade não é, pelo menos não nessas duas minisséries, já que é importante contextualizar o que lemos. O autor consegue estabelecer uma lógica temporal e trabalhar as tecnologias de cada tempo de maneira a deixar o leitor menos confuso, indo do micro (como as plantas de Krakoa) até o macro com as civilizações tecnocráticas que populam o Universo Marvel.

Em meio a tudo isso, como elemento principal, ele coloca uma improvável personagem: Moira McTaggert. A cientista, amor de Charles Xavier e mãe de Proteus é a peça-chave para tudo o que Hickman apresenta e, para que isso seja possível, ele costura um complexo, mas sensacional retcon para a vida dela, transformando-a em uma mutante. Não falarei mais do que isso aqui e nem explicarei seu poder (que nunca vi antes e não é algo banal como “soltar raios pelas mãos”, acreditem), mas é importante salientar que ela é o centro nervoso dos acontecimentos da história e tem sua presença conectada com absolutamente tudo que Hickman coloca nas páginas. Sem dúvida é algo que temos que aceitar e quem não gosta de retcons dessa natureza provavelmente torcerá o nariz, mas tenho para mim que tudo funciona muito bem, sem desdizer de maneira brusca o que conhecemos da personagem.

Da mesma maneira, aprendemos, aqui, que existe uma mega-organização nas sombras que congrega membros das mais diversas e antitéticas organizações do Universo Marvel, da I.M.A. à S.H.I.E.L.D. passando até mesmo pela Hidra. Essa organização é a grande vilã das minisséries e sua existência e o que eles pretendem fazer funcionam provavelmente um prelúdio do que está por vir e a “desculpa” necessária para uma sequência de ação com um grupo de X-Men liderado por Ciclope que tem como verdadeira função revelar o que exatamente Charles Xavier está fazendo nas primeiras páginas da primeira edição de House of X.

(1) House of X #4 e (2) Powers of X #4.

O que Hickman inventa tem relação direta com mortalidade e imortalidade e o resultado incomoda. E muito. Aqui, nesse ponto, temos não só um retcon que pode retirar a urgência das histórias e banalizar mortes (mais ainda!), como ele também exige doses cavalares de suspensão de descrença, mesmo considerando que estamos lendo uma história que tem uma ilha viva como lar de mutantes e que é capaz de criar portais vegetais de teletransporte. O roteirista, apesar de se preocupar em criar “regras” para tudo o que estabelece, dá um passo além do que deveria aqui e realmente não sei como esse aspecto desse seu novo universo conversará com o Universo Marvel ao redor. Se House of X/Powers of X fosse uma história de uma editora independente como a Image Comics, essa liberdade para criar faria muito mais sentido. Seja como for, ainda é muito cedo para medir as consequências dessa alteração de Hickman e, como ele já provou diversas vezes que não dá ponto sem nó, agora é esperar para ver como ele lidará com essa questão.

As artes ficaram ao encargo do espanhol Pepe Larraz (House of X) e do brasileiro R.B. Silva (Powers of X), ambos desenhistas de carreiras razoavelmente recentes, mas que tem absoluto comando de seu trabalho. A tarefa era hercúlea dada a quantidade de personagens que populam as páginas das minisséries, além da variedade de situações diferentes que oscilam entre paz bucólica em Krakoa e pancadaria espacial na órbita do sol, mas os dois entregam material mais do que robusto que dá conta do texto prolixo de Hickman sem deixar de deslumbrar o leitor. Seus estilos são próximos o suficiente para permitir que o leitor transite entre uma minissérie e outra sem sentir mudanças radicais, o que amplifica o ar de unicidade que Hickman procurou dar e que torna ainda mais “injustificável” essa separação.

De escolhas artísticas só desgosto do uniforme branco de Magneto e do retorno de Jean Grey à seu uniforme original de Garota Marvel, além do cabeção desnecessário de Charles Xavier que, agora, usa Cerebro como capacete. Mas sei que essas são reclamações bobas e inconsequentes, sem uma explicação técnica que ultrapasse o puro gosto pessoal. Por outro lado, os anos 100 e 1000 são magníficos diante da liberdade criativa que Larraz e Silva tiveram.

Quem lê Marvel há muito tempo sabe que os mutantes sempre foram tratados separadamente do Universo Marvel em geral, com suas próprias histórias e próprias sagas que apenas raramente se conectavam com os heróis não-mutantes de maneira mais relevante (como foi o caso, claro de Vingadores vs X-Men e outras). Hickman não faz absolutamente nada para mudar isso. Se alguma coisa, ele apenas amplifica essa separação, trazendo o Quarteto Fantástico para uma sequência de ação no começo da história e só. Diante das modificações mundiais que o reconhecimento de Krakoa como nação mutante traz, além dos tais remédios que Xavier oferece em troca, é de certa forma estranho não testemunhar a reação dos demais heróis. Mas isso é algo para o leitor respirar fundo e simplesmente aceitar. Caso contrário, será apenas fonte de frustrações.

House of X e Powers of X cumpre o prometido e servem de pontapé inicial para uma nova era para os mutantes da Marvel Comics. Jonathan Hickman pavimenta o caminho para algo enorme, expansivo, envolvendo passado, presente e futuros (no plural mesmo) que ressignifica os X-Men dentro das engrenagens de seu universo. Espero que o autor tenha tempo capitaneando esse “canto” para ver seu plano desenrolar-se como imaginou, sem precisar pegar atalhos e sem desfazer o que estabelece aqui, por mais controversas que algumas decisões tenham sido.

House of X (EUA, 2019)
Roteiro: Jonathan Hickman
Arte: Pepe Larraz
Cores: Marte Gracia, David Curiel (#6)
Letras: Clayton Cowles
Design: Tom Muller
Editoria: Annalise Bissa, Jordan D. White, C.B. Cebulski
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 24 de julho, 07 e 28 de agosto, 04 e 18 de setembro, 02 de outubro de 2019
Editora no Brasil: não publicado no Brasil no dia de lançamento da presente crítica
Páginas: 212

Powers of X (EUA, 2019)
Roteiro: Jonathan Hickman
Arte: R.B. Silva, Pepe Larraz (#6)
Arte-final: R.B. Silva, Adriano di Benedetto (#1 e 2)
Cores: Marte Gracia
Letras: Clayton Cowles
Design: Tom Muller
Editoria: Annalise Bissa, Jordan D. White, C.B. Cebulski
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 31 de julho, 14 e 21 de agosto, 11 e 25 de setembro, 09 de outubro de 2019
Editora no Brasil: não publicado no Brasil no dia de lançamento da presente crítica
Páginas: 224

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.