Crítica | A Espera (2015)

estrelas 3,5

Obs: Existe um pseudo-mistério no filme que é integral à trama e perfeitamente passível de ser deduzido minutos após o início da projeção, já que não é algo mantido em segredo, ainda que não seja escancarado. Como a crítica ficaria vazia sem comentários sobre ele, fica o aviso que há spoilers.

Baseado mais do que livremente na peça A Vida que Te Dei do sensacional dramaturgo italiano Luigi Pirandello, A Espera é um filme atmosférico, por vezes fantasmagórico, com belas atuações de Juliette Binoche e Lou de Laâge, a primeira como uma mãe enlutada pela morte de seu filho e, a segunda, como a namorada do rapaz que não sabe do acontecido. Trata-se de um produção delicada, silenciosa, criada para que o espectador contemple a finitude da vida e o papel da dor na aceitação da morte.

Filme de estreia de Piero Messina, diretor-assistente de Paolo Sorrentino, a história gira em torno da chegada de Jeanne (de Laâge) à mansão siciliana decadente de Anna (Binoche), cujo filho Giuseppe (Giovanni Anzaldo) acabara de morrer. Jeanne, que havia sido namorada do jovem, volta na esperança de reconciliação e Anna esconde da jovem sua perda, mantendo-a lá à espera do ex-namorado para as festividades da Páscoa. Há muito de Sorrentino no tratamento das imagens por Messina, sempre privilegiando grandes espaços que ele fecha em volta dos personagens, sufocando-os com escuridão e um espetacular uso da profundidade de campo para ampliar a sensação de isolamento e solidão tanto de Anna quanto de Jeanne.

As duas mulheres choram por razões diferentes – uma pela morte do filho e a outra pelo fim do namoro com o rapaz que ela não sabe que morreu – e esses lutos muito particulares vão, gradativamente, encontrando-se. Há um esforço bem sucedido das atrizes em compor personagens que são apresentadas sem vida, presas dentro de si, mas que, na medida em que passam a se conhecer melhor, vão desabrochando, ganhando segurança e efetivamente iluminando-se em um processo lento e gradativo, mas muito bonito. A fotografia de Francesco Di Giacomo emula essa progressão atmosférica, levando-nos do preto quase absoluto até muito sol, água translúcida em tomadas submarinas em contra-plongée, vestidos coloridos e muita vida, com uma trilha sonora diegética pop que realça a vitalidade e a exuberância, além de organicamente lembrar da presença ausente de Giuseppe.

Mas o título já dá todas as pistas. A espera das duas mulheres é a espera do espectador também e não há como fugir de uma certa lentidão proposital no caminhar da obra. Pouco se fala, mas muito se diz com olhares, gestos e um excruciante sentimento de saudades que vai permeando cada quadro, cada singela sequência de Anna e Jeanne, sejam juntas, separadas ou encontrando-se com rapazes que por acaso estão por ali.

Essa espera, porém, vem com um preço caro. O roteiro, escrito a quatro mãos, uma delas do próprio Messina, exige que o espectador aceite a premissa sem discutir. A permanência de Jeanne na completa ignorância sobre o destino de Giuseppe é improvável ao extremo, chegando a incomodar se não se fechar os olhos a isso ou se não for possível achar uma explicação melhor. Se na peça de Pirandello algo semelhante ocorre, lá há justificativa da época em que sua obra se passa, com uma vida mais lenta, sem a presença da tecnologia. Em A Espera, ainda que Messina faça o máximo para localizar o filme temporalmente em 2005 ou antes (o Papa João Paulo II é visto ainda vivo pela televisão), isto não é suficiente para que Jeanne permaneça “enganada” por tanto tempo.

No entanto, há que se considerar a alternativa. Jeanne pode ter, ainda que inconscientemente, escolhido permanecer alheia à morte de Giuseppe, apesar de todos os sinais ao seu redor. Ela está ali vivendo os últimos dias com algum contato, mesmo que indireto, com seu amado, até que ela é obrigada a confrontar a realidade. O mesmo vale para Anna, que provavelmente vê em Jeanne um resquício de seu filho, uma chance de estender a permanência dele, ainda vivo de alguma forma, em sua mente. Portanto, olhando sob esse prisma, a suspensão da descrença exigida pelo diretor talvez não seja, afinal, tão grande assim, o que permite o espectador apenas contemplar o caminho doloroso dessas duas mulheres de diferentes gerações.

Mesmo considerando as belas imagens e as atuações de Binoche e de Laâge, Messina erra ao permitir que o filme acabe repetindo sua narrativa. Há uma razoável demora para que as personagens efetivamente se conectem e o ápice, por isso, parece acontecer rápido demais, somente para dar espaço a um dénouement novamente vagaroso, talvez até cansativo. Considerando que não há assunto novo, que o mistério da morte de Giuseppe não é algo construído como uma surpresa efetiva (e não é de forma alguma) e que a pegada fantasmagórica/gótica deixa de existir quando Anna e Jeanne “quebram o gelo”, Messina poderia ter encurtado essa jornada significativamente e, com isso, melhorado o passo de sua obra. Do jeito que ficou, A Espera ganha em beleza, mas perde em conteúdo, por vezes parecendo vazio, ainda que efetivamente não seja.

A Espera é, no final das contas, um filme difícil de ser classificado e um belo estudo de personagens com excelentes atuações, ainda que se alongue bem além do que deveria. Contemplação é uma das palavras-chave, sem dúvida. Mas a outra talvez seja paciência.

A Espera (L’Attesa, Itália/França – 2015)
Direção: Piero Messina
Roteiro: Giacomo Bendotti, Ilaria Macchia, Andrea Paolo Massara, Piero Messina (baseado em peça de Luigi Pirandello)
Elenco: Juliette Binoche, Giorgio Colangeli, Lou de Laâge, Domenico Diele, Antonio Folletto, Corinna Locastro, Giovanni Anzaldo
Duração: 110 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.