Crítica | Os Defensores: O Dia dos Defensores (Marvel Feature #1 a 3 e Os Defensores #1 a 5)

Provavelmente em razão da prometida série Os Defensores, do Netflix, que reunirá Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro, o nome deste grupo esteja na “boca do povo”. Mas somente os leitores mais antigos ou aqueles que também se preocupam em procurar ler publicações históricas da Marvel saberão que Os Defensores, na verdade, é um grupo – ou melhor, um “não-grupo” – que remonta à década de 70 e que tinha na composição original base três dos mais poderosos heróis da Marvel: Doutor Estranho, Namor e Hulk.

Voltando um pouco no tempo, para o finalzinho da década de 60, é importante lembrar que o Doutor Estranho, pivô da junção dos personagens sob a referida denominação, não tinha mais título próprio. Sua publicação havia sido cancelada abruptamente na edição #183, de novembro de 1969, apesar de estar vendendo quantidades que hoje seriam consideradas mega-sucessos (para lá de 400 mil exemplares, sendo que, hoje, uma edição terá sorte se vender 100 mil nos EUA). A própria história iniciada em seu último número solo só foi encerrada em dois crossovers, um em Sub-Mariner (Namor) #22 e outro em O Incrível Hulk #126.

Foram esses bem-sucedidos crossovers que funcionariam como gancho narrativo para a futura formação dos Defensores na nascente publicação Marvel Feature, de dezembro de 1971, responsável por apresentar novos personagens e conceitos e, ato contínuo, pelo título spin-off dedicado ao grupo, Os Defensores, que duraria ininterruptamente até a edição #152, de fevereiro de 1986, com apenas uma mudança de título para Os Novos Defensores na edição #125. Ao longo da centena e meia de edições, o “não-grupo” teve diversas formações, mas a mais clássica continua sendo aquela formada por Doutor Estranho, Namor, Hulk, Surfista Prateado, Valquíria e Cavaleiro Negro.

As críticas abaixo foram divididas entre as duas publicações mencionadas, lidando com a gênese do grupo até sua formação principal já estabelecida.

estrelas 2,5

Marvel Feature #1 a #3

Em três histórias independentes, Roy Thomas faz algo como “testes de popularidade” do Doutor Estranho junto com Namor e Hulk, a partir dos crossovers separados de pouco tempo antes. A primeira história é particularmente interessante, pois dá conta do tempo em que o Doutor Estranho ficou “fora do Universo Marvel”, sem revista própria.

Assim, logo no começo, vemos Estranho fazer referência a eventos com sua “volta recente” à Greenwich Village e ao tempo em que passou como assistente de cirurgia sob outro nome. A promessa é que veremos o que aconteceu na mesma publicação, na história secundária e é isso justamente o que acontece. Mas, antes, vamos ao prato principal.

Nele, Estranho é chamado pelo moribundo Yandroth, que revela que sua morte catalisará o literal fim do mundo, com a explosão dos estoques nucleares das nações bélicas a partir de uma máquina que reúne tecnologia e magia batizada de Omegatron. Procurando ajuda para lidar com a ameaça, a projeção astral do herói reúne primeiro Namor e depois o Hulk e tenta recrutar o Surfista Prateado por sugestão do então ex-rei de Atlântida, mas não consegue (e fica já a deixa de que o herói cósmico preso à Terra fará parte do grupo). Os três, então, partem para lidar com o Omegatron, localizado em um remoto farol em um promontório.

A ameaça definitivamente não justifica a reunião de heróis tão poderosos e Thomas poderia ter criado algo mais urgente, que efetivamente traga perigo a eles. O que vemos é uma batalha que não usa o potencial dos personagens e acaba muito rapidamente, quase que em um anti-clímax.

A breve história secundária, prometida no início da principal, revela-se como mais interessante. Lá descobrimos que Estranho renunciara seus poderes para então trabalhar junto com os homens comuns. Ele volta para sua mansão em Greewich Village, que deveria estar completamente fechada, somente para descobrir que ela não só está aberta, como Wong e o Doutor Estranho – usando o figurino super-heroístico com máscara, luvas e botas conforme decisão editorial nos números finais da publicação solo do herói – vivendo ali. Não demora e o verdadeiro Estranho descobre que se trata de seu velho arquiinimigo em mais um plano para destruí-lo. O Ancião – sempre ele – devolve-lhe os poderes, com a promessa de que Estranho jamais voltará a renunciar seus poderes.

E, assim, em um passe de mágica, a “ausência” do Doutor Estranho é explicada em um cuidado muito interessante da editora.

Na segunda edição de Marvel Feature, Dormammu volta para ameaçar a Terra, depois que é invocado por seus adoradores na Terra. Não podendo fisicamente entrar em nossa dimensão em razão de promessa inquebrantável feita ao Doutor Estranho, ele então comanda seus minions a capturarem o corpo físico de seu inimigo para que ele possa possuí-lo e, então, em sua interpretação, não quebrar a promessa.

E assim é feito. O corpo de Estranho é sequestrado por um plano inteligente dos adoradores de Dormammu e só resta a Cléa usar o pouco de poder que tem para invocar os seres sobre os quais Estranho estava pensando antes de sumir. Quem são? Acertou quem disse Namor e Hulk. Respondendo ao chamado, os dois se dirigem à Montanha Bald para lidar com a ameaça e conseguem, claro, salvar Estranho cuja projeção astral residente em Wong enfrenta Dormammu em sua dimensão.

A narrativa, aqui, é bastante ágil e funciona muito mais eficientemente como uma razão urgente para que os três heróis se juntem do que a história anterior. Usar o corpo sequestrado de Estranho para tirar o herói da jogada e permitir que Namor e Hulk ganhem os holofotes é uma jogada inteligente – ainda que clichês – de Roy Thomas, que consegue criar uma boa história da trinca.

Finalmente, no terceiro número, a ameaça é Xemnu, um monstro espacial que surgira pela primeira vez em Journey into Mystery #62, de novembro de 1960. Parecido com outro monstro Marvel, Wendigo, sua forma etérea toma posse do corpo de um astronauta americano que, ao voltar à Terra, convence seu parceiro a largar a NASA e ganhar dinheiro com um show infantil na televisão (sim!), somente como ponte para, assim como o Flautista de Hamelin, atrair as crianças dos EUA para um foguete e levá-los para seu planeta. A história, sem pé nem cabeça, força a entrada do Doutor Estranho, a partir do jovem Jim Wilson, então a única pessoa capaz de acalmar o Hulk (e que substituíra Rick Jones como parceiro do Gigante Esmeralda), que sente que há algo de errado com Xemnu na televisão. A seu pedido, Estranho, com um encanto que lhe faz parecer o Hulk, se oferece a aparecer no programa, somente para que, então, o verdadeiro Hulk venha, além de Namor.

Roy Thomas jogou a lógica pelos ares e fez uma história nonsense aqui. Ela diverte, sem dúvida, mas deixa muito a desejar em termos de narrativa, com as situações forçadas demais.

O lápis das três edições ficaram ao encargo de Ross Andru, que trabalha bem a disposição de quadros e os detalhes de fundo, sem grandes arroubos criativos, porém. Finalizando seu trabalho, temos Bill Everett nas edições #1 e #3 e Sal Buscema na edição #2, ambos com competentes trabalhos que dão personalidade aos traços de Andru.

O começo dos Defensores fora de seu título solo não foi lá muito brilhante, mas é uma leitura fácil e interessante historicamente. Vale o esforço em achar as edições para conferí-las.

Marvel Feature Presents The Defenders #1 a 3 (EUA, 1971/2)
Roteiro: Roy Thomas
Arte: Ross Andru, Don Heck (história secundária do #1)
Arte-final: Bill Everett (#1 e #3), Frank Giacoia (história secundária do #1), Sal Buscema (#2)
Letras: Sam Rosen (#1 e #2), Artie Simek (#3)
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: dezembro de 1971 a junho de 1972
Editora no Brasil: Editora Abril (Capitão América #52, 53 e 55)
Data de publicação no Brasil: setembro, outubro e dezembro de 1983
Páginas: 30 (#1), 29 (#2), 24 (#3)

estrelas 4,5

Os Defensores #1 a #5

O primeiro arco de Os Defensores é uma aula de como amarrar eventos passados com novos eventos em um conjunto harmônico que dá partida a um novo (não)grupo com grande potencial. Steve Englehart, mestre da narrativa dos anos 70, trabalha um texto que pega emprestado dos crossvers do Doutor Estranho em Sub-Mariner #22, O Incrível Hulk #126, além de Marvel Feature #1 em uma história que reúne o futuro Mago Supremo da Marvel, Namor, Hulk, Valquíria e Cavaleiro Negro no começo de uma “grande amizade”.

Tudo começa com Namor desacordado e protegido por um feitiço de energia caindo do céu literalmente ao pés do Hulk que, depois de muito argumentar consigo mesmo, decide procurar ajuda de quem percebe como inimigo (o Doutor Estranho, que, ao final de Marvel Feature #3, inadvertidamente coloca os humanos contra ele), para ajudar quem ele percebe como amigo, Namor. Mas tudo não passa de um plano sinistro do mago Necrodamus, que recebera poderes dos Undying Ones, para libertar O Inominável, vilão que, em Doutor Estranho #183, fizera o mago entrar em sua dimensão.

Com isso, temos uma história que inteligentemente traz um encerramento para o arco do Inominável e reúne os três Defensores novamente de maneira mais legítima e definitiva, tendo o Doutor Estranho como líder. É particularmente interessante como Estranho dirige-se com enorme respeito a Namor, mas trata o Hulk com adjetivos simpáticos como “monstro” e “gigante”, em um texto que sutilmente mostra preconceito e mantém em xeque a estrutura básica do grupo.

Sem perder muito tempo, Englehart também traz de volta o computador Omegatron, criado por Yandroth para destruir o mundo e adiciona ao time outro “marginal” Marvel: o Surfista Prateado. Afinal, teria sido o aprisionado ser cósmico que arremessara Namor de sua prancha aos pés do Hulk, algo que é prontamente investigado pelo grupo depois da usual pancadaria entre super-heróis. E, em um fôlego só, o grupo pula de dimensão em dimensão, primeiro tentando libertar o Surfista do campo de força estabelecido por Galactus ao redor da Terra, somente para se depararem diretamente com o Inominável e uma enlouquecida Barbara Norriss, a garota que se sacrificara por Estranho, permanecendo para trás naquela dimensão.

A personagem serve, então, de trampolim para que, em outra dimensão, desta feita a da rainha Casiolena, Encantor, lá aprisionada junto com o Cavaleiro Negro depois de traição do Executor, use seu corpo para criar o que se poderia chamar da terceira versão da Valquíria, que ajuda o grupo a fugir dali. Com o Cavaleiro Negro transformado em pedra e Valquíria adaptando-se à vida na Terra, o quinto número do arco a coloca – junto com Namorita – diante de Deus Ex Machina, versão gigantesca e modernizada de Omegatron, que mostra o valor da heroína para o grupo.

Como se pode ver, o texto de Englehart é de uma fluidez impressionante. Ele não perde o ritmo e faz suas peças se encaixarem com exatidão ao longo da narrativa, construindo um excelente começo para os Defensores, com personagens realmente relevantes e bem trabalhados e não reunidos “do nada” como costuma acontecer com diversos grupos.

A arte, que ficou ao encargo de Sal Buscema, é também excelente, com forte expressividade nos rostos dos personagens e a graça nos movimentos corporais e nas lutas que sempre marcou seus trabalhos. Ao mesmo tempo que enxerta seus quadros com detalhes, Buscema não esquece do pano de fundo e, sempre que possível, enriquece a narrativa com elementos visuais de se tirar o chapéu. Seu único pecado é na às vezes tumultuada composição de quadros que o impede de usar muitas splash pages que, vale notar, ele desenha como ninguém.

O primeiro arco de Os Defensores é um marco setentista da Marvel que realmente merece atenção dos leitores. São histórias bem construídas e concatenadas que criam um grupo heterogêneo para lá de interessante e que não pode passar despercebido pelos fãs de quadrinhos.

Publicado originalmente em 29/10/16.

Os Defensores #1 a 5 (The Defenders #1-5, EUA – 1972/3)
Roteiro: Steve Englehart
Arte: Sal Buscema
Arte-final: Frank Giacoia (#1), John Verpoorten (#2), Jim Mooney (#3), Frank McLaughlin (#4 e #5)
Letras: Artie Simek (#1, #3 e #4), John Costanza (#2), Charlotte Jetter (#5)
Cores: Petra Goldberg, Glyni Wein
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: agosto, outubro e dezembro de 1972 e fevereiro e abril de 1973
Editoras no Brasil: Editora Abril (Capitão América #59 a 61 e 63), Panini Comics (Coleção Histórica Marvel #1)
Data de publicação no Brasil: abril a junho e agosto de 1984 (Abril) e julho de 2016 (Panini)
Páginas: 21

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.