Crítica | A Separação

estrelas 5

Em sua superfície, A Separação, ganhador do BAFTA, Globo de Ouro e do Oscar de 2012 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, é um filme que trata sobre isso mesmo, uma separação. O casal, de uma classe mais alta iraniana, claramente ainda se ama mas Simin (Leila Hatami) acredita que, se eles se mudarem para o exterior, a filha do casal, Termeh (Sarina Farhadi), terá melhores oportunidades na vida. Nader (Peyman Maadi) é contra a mudança, pois ele precisa ficar para cuidar de seu pai idoso e que sofre de Alzheimer (Ali-Asghar Shahbazi). Assim, para Simin, a separação é a única solução, mas desde que, claro, Nader abra mão de Termeh, algo que ele se recusa a fazer.

Quando o filme começa, a câmera focaliza Simin e Nader tendo a discussão acima perante o que julgamos ser um juiz. O resultado é que a separação não é concedida, o que leva Simin a se mudar para a casa dos pais como forma de protesto. Termeh fica com Nader ajudando-o a cuidar do pai. No entanto, claro, a ausência de Simin é sentida e, a partir daí, a fita realmente começa.

Sem Simin, Nader tem que contratar alguém para cuidar da casa e, no mínimo, olhar por seu pai que piora a cada dia. Entra, então, Razieh (Sareh Bayat), mulher mais humilde e altamente religiosa que passa a cuidar da residência primordialmente e, apenas como consequência inevitável, do senhor idoso (apesar de sua enorme relutância nesse sentido, ligando até para um serviço telefônico de “disque-pecado” para saber se trocar as calças de um idoso com Alzheimer e que se urinou todo é ou não um ato pecaminoso).

Contar mais é estragar o prazer de ver essa obra, mas basta dizer que, a partir daí, as coisas pioram muito para o casal Simin e Nader, especialmente para Nader. Grande parte do filme se passa em um tribunal, mas não como estamos acostumados a ver em filmes hollywoodianos. No Irã, conforme o diretor faz questão de mostrar (não saberia dizer se é assim mesmo ou se ele exagerou, mas tenho para mim que é realmente dessa maneira) a informalidade impera, com Juízes dando opiniões o tempo todo e pedindo depoimentos que poderiam ser facilmente alterados por alguém de má fé. Advogados basicamente não existem.

O diretor e roteirista, Asghar Farhadi, navega por águas turbulentas e apresenta um filme brilhante, com caracterizações e atuações inesquecíveis. Tudo é muito intimista, mas funciona para mostrar a sociedade iraniana com um todo, sem tomar partido.

O grande ponto que, para mim, o diretor quis mostrar, porém, é o quanto a verdade é relativa. Há um acontecimento no filme que catalisa o julgamento que mencionei e que serve para mostrar a natureza humana (pouco importa se é um humano do Irã ou de um outro país) e as várias versões da verdade. Talvez seja o melhor trabalho nesse sentido depois de Rashomon, de Kurosawa. Quando Farhadi entra no aspecto religioso (novamente, sem julgar), ele o faz de maneira natural, sem chamar atenção para o fato e isso, de certa maneira, é que capaz de assombrar a nós, membros de sociedades em que a separação entre religião e Estado é a norma, apesar de não haver a separação absoluta na prática. Particularmente, fiquei de queixo caído com o quanto o “juramento sobre o Corão” é levado à sério. Tente contrastar isso com “juramentos sobre a Bíblia” para vocês perceberem o que estou falando.

Apesar de um roteiro incrível, bem amarrado e que não tem cenas irrelevantes, o que chama atenção mais ainda são as atuações. Peyman Maadi, Sareh Bayat e Shahab Hosseini (que faz Hadjat, o marido de Razieh) estão perfeitos em seus respectivos papéis. Leila Hatami está apenas correta, porém, sem comprometer o filme. O grande destaque, porém, é mesmo Sarina Farhadi (no papel de Termeh, a filha do casal principal). Que coisa incrível. A garota passa o sentimento de angústia diretamente para nós, espectadores. Ela assiste a tudo o que está acontecendo quase sem poder fazer nada, mas, ao mesmo tempo, suas ações demonstram uma monstruosa compreensão do que está ocorrendo. Seu mundo está desmoronando e ela sabe que talvez dependa dela a saída de tudo. Fico pensando se a atriz (filha do diretor, vale dizer) não teria uma maturidade que vai além de sua tenra idade. Se ela tem toda essa maturidade, fico por um lado feliz, pois ela consegue nos brindar com uma atuação inesquecível, mas, por outro, fico triste, pois esse grau de sapiência me parece incompatível com uma infância que tenha sido realmente aproveitada. Mas quem sou eu para julgar? Fato é que Sarina Farhadi nos oferece uma das mais enternecedoras atuações que já passou pelas telonas.

Muitos reclamarão do final do filme e não direi o porquê, pois qualquer pista estragaria o prazer de ver a obra. No entanto, confiem em mim: esse era o único final possível. Se o diretor tivesse ido além, ele não seria compatível com o resto de seu trabalho. Assistam e impressionem-se.

A Separação (Jodaeiye Nader az Simin, Irã – 2011)
Direção:
Roteiro: Asghar Farhadi
Elenco: Peyman Moaadi, Leila Hatami, Sareh Bayat, Shahab Hosseini, Sarina Farhadi, Merila Zare’i, Ali-Asghar Shahbazi, Babak Karimi, Kimia Hosseini, Shirin Yazdanbakhsh, Sahabanu Zolghadr
Duração: 123 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.