Crítica | Corpo Elétrico

Em dado momento de Corpo Elétrico, um plano-sequência numa viela acompanha a saída de Elias (Kelner Macêdo) e seus amigos da fábrica de tecido onde trabalham, e durante o caminhar, os corpos e rostos dos personagens somem e reaparecem no quadro em meio a diálogos aparentemente improvisados e banais que mal são compreendidos, deixando assim o espaço para que a imagem fale por si só, onde o que grita em cena é a individualidade de cada um daqueles corpos que se encaixam em um mesmo plano, e logo a individualidade se transforma em pluralidade, ainda mais levando em conta o que já fora estabelecido pelo diretor estreante Marcelo Caetano até então: Corpo Elétrico não é apenas o típico retrato de um(uns) cotidiano(s) LGBTQ, mas um recorte (e é importante grifar esta palavra) de um convívio social marcado por um grupo de classe-média baixa, que aqui despontam em novas configurações de desejo, gênero e sexualidade.

Como fio condutor deste retrato (apesar das outras personalidades do filme falarem tão alto quanto) temos o já mencionado Elias, rapaz com pouco mais de 20 anos, que passa seus dias na fábrica de tecidos onde trabalha e, a cada batida de ponto, se entrega a uma vida libertária regada por flertes, sexo, a exploração física e direta das sensações e desejos alcançadas pelo contato com outros corpos. Logo na cena de abertura, Elias conversa com outro homem fora de plano, nu, onde fica esclarecido o desapego daqueles rostos sobre um envolvimento mais profundo, e as falas despretensiosas sobre o mar e a vida são o que ditam o espírito que Corpo Elétrico irá tomar para si e através disto tecer seu mosaico sobre a busca pela liberdade, onde o que importa é o calor do agora, do momento, dos beijos, olhares, paqueras e conversas à toa que firmam o constante movimento daqueles personagens, boêmios e entregues com orgulho às perspectivas não muito objetivas de seus futuros, pois claro, o que importa no agora é estar ligado ao outro.

Marcelo Caetano não é nenhum inexperiente dentro do ramo. Por mais que este seja seu primeiro filme, o jovem cineasta coleciona experiências com uma participação não-creditada em Boi Neon, como produtor na escalação do elenco de Aquarius, como diretor-assistente em Tatuagem e co-roteirista de Mãe Só Há Uma (não à toa, Hilton Lacerda e Anna Muylaert estão entre os produtores aqui). Tendo este currículo esclarecido, fica justificada a extrema economia de Caetano na sua proposta de filtrar o cotidiano urbano sem qualquer julgamento moral, trabalhando em cima de personalidades que, constantemente, formam um todo através de cada particularidade desnudada. Elias é apenas o ponto de partida para uma narrativa desgarrada.

Nisto, Corpo Elétrico se assume igualmente como um honesto estudo sobre uma juventude contemporânea que não se importa com o material, com o exibicionismo do que pode ser chamado de “seu”, com a militância constante de melhorias sociais (apesar de que este discurso se faz presente, mas sem qualquer exibicionismo dialogado), e que apenas desejam desfrutar dos prazeres mais baratos e carnais, mas que lhes fazem se sentirem preenchidos como um todo. Mas claro, cada um carrega seus sonhos, seus desejos, seus planos, e para eles, o caminhar natural para a realização destas ambições é o que basta.

Diante de um filme realizado com os braços tão abertos (é fácil acusar o roteiro do próprio Caetano ao lado de Lacerda e Gabriel Domingues como “fútil” ou “desprovido de expectativas reais”), se torna ainda mais prazerosa o acompanhar de um elenco composto por corpos desconhecidos mas que encaram suas personificações com uma naturalidade que elevam o filme de Macêdo, onde cada piada, provocação, sedução e interação se tornam autênticas e verossímeis em meio a proposta de coletividade. Há um cuidado especial na execução, por exemplo, das presenças cativantes de Lucas Andrade como Wellington e as participações animadas de Márcia Pantera e MC Linn da Quebrada, artistas de renome no cenário LGBTQ. E é curioso notar que, sim, a sexualidade exerce um papel fundamental nas nuances trabalhadas por Macêdo, mas sempre evitando que os conflitos tenham início neste fato, evitando aí uma arriscada banalização da representação. Todos são o que são, e é o que importa para os laços de afinidade construídos.

Para um estreante, Macêdo ainda enfrenta alguns problemas típicos, claro. Há um controle levemente excessivo em algumas tomadas e certas situações se repetem mais que o necessário, mas é de se louvar os caminhos para onde a despretensão carrega Corpo Elétrico, despretensão essa que inunda o dia-a-dia dos personagens, livres dos julgamentos sociais e preocupações com o longínquo futuro. O filme realmente resgata o prazer do banal, do casual, do carnal, e claro, da autonomia de cada corpo e sua liberdade em ser o que quiser com ele.

Corpo Elétrico — Brasil, 2017
Direção:
 Marcelo Caetano
Roteiro: Marcelo Caetano, Gabriel Domingues, Hilton Lacerda
Elenco: Kelner Macêdo, Lucas Andrade, Welket Bungué, Ana Flavia Cavalcanti, Ronaldo Serruya, Marcia Pantera, Mc Linn da Quebrada, Henrique Zanoni, Evandro Cavalcante
Duração: 94 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.