Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Castrovalva (Arco #116)

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estrelas 4

Equipe: 5º Doutor, Adric, Nyssa, Tegan
Espaço: Planeta Castrovalva
Saga: Trilogia do Mestre
Tempo: 1981 (antes de 28 de fevereiro)

SPOILERS!

Castrovalva é o tipo de história que o espectador entende que tem problemas — notadamente problemas de narrativa, nos dois episódios finais, mas há também uma grande falha na direção de atores, com exceção de Peter Davison –, todavia, não consegue desgostar da trama de jeito nenhum. Aliás, as referências e o sempre mágico princípio de apresentação de um novo Doutor são o bastante para colocar este arco de estreia da 19ª Temporada em alta conta.

Aqui é finalizada a Trilogia do Mestre, iniciada em The Keeper of Traken e seguida por Logopolis, cujos momentos finais, com toda a situação de perseguição policial feita a Adric, Nyssa e Tegan segue para o seu desfecho. Recém-regenerado, o 5º Doutor encontra imensa dificuldade para fixar sua nova persona e precisa ser carregado para a nave. Esse tom contemporâneo que vemos nos primeiros minutos serve apenas para afastar Adric de cena (que é colocado na teia energética do Mestre) e fazer Nyssa e Tegan guiarem um errante Senhor do Tempo para Castrovalva, lugar de calmaria e livre de qualquer interferência externa, onde ele poderia completar o seu processo de regeneração em paz.

Os dois primeiros episódios tem como função mostrar esse tráfego da Terra para Castrovalva e, fora alguns momentos cansativos e domínio do Mestre sobre a TARDIS do Doutor, tudo funciona muito bem. Os dois episódios finais mostram a chegada e recuperação do recém-regenerado, mas o roteiro abre o leque de relações e possibilidades, mostrando não só essa fase de ajustes biológicos, mas também a força e determinação de Nyssa e Tegan, além de usar um McGuffin perfeito na pessoa do Portreeve, interpretado por Neil Toynay (anagrama de Tony Ainley), uma das provas definitivas, nesse início de jornada, de que o Mestre estava em boas mãos.

O desenho de produção do arco se baseou na litografia de nome Castrovalva, de M. C. Escher, originalmente publicada em fevereiro de 1930. Castrovalva, na verdade, é o nome de uma vila da região de Abruzzo, na Itália. Foi após uma visita a essa vila que Escher pintou a paisagem, com suas casas à beira de um alto monte e um grande vale abaixo. A produção de Doctor Who tomou como princípio essa imagem e encontrou em Harrison’s Rocks, East Sussex, Inglaterra, o lugar perfeito para locação. O roteiro ainda traz referências conceituais do conto Tlön, Uqbar, Orbis Tertius e outras obras de Jorge Luis Borges, misturando um enigma fantasioso com elementos clássicos de ficção científica, terminando em um apocalipse angustiante, quando Castrovalva se dobra em si mesma, graças à intervenção do Mestre, a fim de se vingar do Doutor.

Mas de todas as coisas, a grande revelação aqui é Peter Davison. Que incrível interpretação a dele! Os primeiros momentos confusos dentro da TARDIS, já no início do primeiro episódio, me conquistaram por completo. O ator conseguiu trazer nuances do 1º, 2º e 3º Doutores, além de encenar uma brincadeira hilária com a encarnação caótica que foi a do 4º Doutor. Além disso, a delicadeza com que o ator levou o personagem no início contrasta com alguns momentos de desespero e intromissões um pouco cômicas, mostrando de maneira sutil e acertada o alcance dramatúrgico do ator, o que me faz pagar um pouco a língua por nunca ter gostado dele nos áudios da Big Finish. Pelo menos agora eu sei que na série, ele é excelente.

De todos os processos de regeneração até agora, este do 5º Doutor foi o mais intenso e o que mais conseguiu “desnudar” a promessa do que seria essa nova face do personagem. Momentos como a escolha do figurino — aliás, a equipe de figurino para os habitantes de Castrovalva merece aplausos pela mistura de tempos/tendências! –, o riso que ninguém segura quando o plano do Mestre dá errado e ele grita “MY WEEEEEEEB!!!” e o Doutor bebendo chá de Valeriana com Alecrim e fazendo careta são partes bem distintas que dizem muito sobre a atmosfera dessa nova era. Como pontos negativos, destacam-se a interpretação questionável dos companions e a construção do plano do Mestre, às vezes chateante demais, a despeito da ótima presença de Anthony Ainley. Uma chegada e tanto, essa do 5º Doutor!

Castrovalva (Arco #116) — 19ª Temporada
Direção: Fiona Cumming
Roteiro: Christopher H. Bidmead
Elenco: Peter Davison, Matthew Waterhouse, Sarah Sutton, Janet Fielding, Anthony Ainley, Derek Waring, Michael Sheard, Frank Wylie, Dallas Cavell, Souska John
Audiência média: 9,57 milhões
4 episódios (exibidos entre 4 e 12 de janeiro de 1982)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.