Crítica | Em Ritmo de Fuga

estrelas 4,5

A maior parte dos projetos cinematográficos de Edgar Wright, como Scott Pilgrim Contra o Mundo e Todo Mundo Quase Morto, sustentaram perfeitamente a assinatura artística do cineasta. Boa parte desses projetos tornaram-se acertos gigantescos nos gêneros que o diretor se propôs a abordar ou a satirizar. Um dos mais talentosos de sua geração, Wright desenvolve em seu mais novo longa-metragem seu ápice estilístico. Curiosamente, apesar de ter sido pensado mais de 20 anos atrás, a obra fora idealizada efetivamente apenas quando o diretor dirigiu para o grupo musical Mint Royale o videoclipe da música “Blue Song”, que mostrava logo um motorista de fuga de um grupo de ladrões de banco. Amante de música, por sinal.

A mesma premissa retorna para embalar Em Ritmo de Fuga que, apesar de ter um título abrasileirado ridiculamente genérico, é único ao buscar situações inimagináveis com muito vigor. O motorista agora ganha um codinome, além de um background vistoso. Possuindo uma dívida com Doc (Kevin Spacey), um misterioso mestre do crime, Baby (Ansel Elgort) é o único membro da equipe de assaltantes a bancos do criminoso a participar de todas as suas operações. O exímio motorista começa a atrair a atenção de seus outros parceiros de equipe devido a seu jeito calado e presumivelmente prepotente. No entanto, memórias de um passado trágico acobertam uma personalidade mais sensível, passível de compaixão pelo público, apesar da vida moralmente dúbia.

O enredo simples é construído em meio a sequências frenéticas e extremamente dinâmicas. O filme soa como uma dança excepcionalmente bem ritmada, e seu primeiro ato deixa a intenção de Wright muito clara. Fora a tão bem conduzida sequência de abertura, memorável desde a sua concepção, é interessantíssimo notar como o cineasta consegue deixar um simples caminhar a uma cafeteria local tornar-se divertidamente empolgante. Os passos de Ansel Elgort compõem uma coreografia das mais acertadas, tão bom quanto em musicais de fato. Entretanto é digno notar que, além dos planos curtos da primeira sequência de ação, Wright tem como um aliado magistral a excelente trilha sonora musical do filme que salienta ainda mais o acelerado ritmo da obra.

A personalidade calada de Baby, muito bem incorporada por Elgort, argumenta a favor das escolhas musicais, fazendo com que as melodias diegéticas ganhem mais significado do que a contribuição como mero ornamento estético “irado”. A música assume um papel narrativo importantíssimo, quase como o que vimos recentemente no blockbuster Guardiões da Galáxia Vol. 2. A adesão de um pano de fundo que justifique o constante uso de fones de ouvidos não é de muito apreço pessoal, por tirar um pouco da graça de se ver um personagem cool apenas por ser cool, mas realmente não dá para discordar da qualidade na intenção de Wright em humanizar Baby, nunca deixando-o de lado em seu texto, apesar de parecer substancialmente e talvez excessivamente surrealista.

Sua habilidade ao volante é muito bem saboreada pelo argumento, que traz mais paralelos relacionados às quatro rodas, sendo o mais importante relacionado com o passado pungente que comove constantemente o personagem. As gravações em fitas, um dos diversos aspectos vintage do filme, também possuem suas próprias camadas de desenvolvimento, sendo artefatos narrativos bem apresentados e dissertados pelo roteiro. Com tanta excentricidade e diversão, seria fácil que o diretor acabasse levando a obra para um retrato glamourizado da vida criminal. O que acontece é exatamente o contrário. Em meio a algumas possíveis alusões à franquia de jogos Grand Theft Auto, o cineasta não só denuncia – de forma muito legal – a perversidade envolvida nesse meio, como também busca mostrar outros lados, estes mais complexos e menos maniqueístas.

As caricaturas dos famigerados “caras maus” tomam forma nas figuras de personagens como Bats (Jamie Foxx), uma contribuição para o deslocamento do protagonista de sua mentalidade “alienada”, fazendo-o tomar ciência das consequências de suas atitudes. A graça de Em Ritmo de Fuga é que nenhum coadjuvante é levado ao estado de implausibilidade existencial. Bats, por exemplo, transmite muito bem  a ilustração de um alguém movido por impulsos insanos, a beira da loucura psicótica, enquanto Buddy (Jon Hamm) leva sua impulsividade às causas passionais, contudo, nunca suficientemente justificáveis. Quando o filme pensa em caminhar para um exagero de si mesmo, a veia cômica de Edgar Wright mostra-se extremamente apurada, com muitas referências e gags. O que dizer da confusão hilariante envolvendo as máscaras de Michael Myers?

O segundo ato desacelera um pouco o filme, focando na construção do relacionamento entre Baby e Deborah (Lily James). Contudo, é inegável a ótima condução harmônica de Edgar que novamente alia a trilha sonora a performances corporais bem coreografadas. A química entre os dois personagens é estabelecida logo na cena da lavanderia e, apesar de rápida, funciona perfeitamente. O cineasta ainda guarda bons momentos relacionados a Baby e seu pai adotivo surdo Joe (CJ Jones). As interações entre os dois exteriorizam graciosismo, tanto por parte de Baby, quanto por parte de Joe, visto que o idoso definitivamente preocupa-se com os caminhos que seu filho está tomando.

Por outro lado, o terceiro ato parte para uma visceralidade abrupta, próxima, em suas devidas proporções, de algo que Quentin Tarantino faria. Infelizmente, esse aspecto inesperado da trama evidencia uma construção rasa de personagens. Todavia, a necessidade de um desenvolvimento mais amplo de personalidades não se faz tão presente aqui quantos em outros filmes semelhantes, tendo em vista que a obra funciona perfeitamente sem uma decoração narrativa formal. O problema é que algumas decisões do roteiro, ao final do filme, clamam por uma condução melhor contornada pelas mãos de Wright. Soam um pouco artificias sem isso.

Um dos filmes mais pé no chão do cineasta Edgar Wright, Em Ritmo de Fuga prova-se ainda assim como um de seus mais sensacionais longas. A mente do cineasta torna tudo mais fluido e interessante, sem que seu argumento, não tão fenomenal quanto sua direção, impeça o sucesso da obra. Simplesmente este é um dos filmes mais divertidos e originais do ano, em toda a sua informalidade. Um espetacular musical de ação.

Em Ritmo de Fuga (Baby Driver) — EUA/Reino Unido, 2017
Direção: Edgar Wright
Roteiro: Edgar Wright
Elenco: Ansel Elgort, Kevin Spacey, Lily James, Eiza González, Jon Hamm, Jamie Foxx, Jon Bernthal, Flea, Lanny Joon, CJ Jones
Duração: 113 min.

GABRIEL CARVALHO . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidades, movido por uma pequena loucura chamada amor. Já paguei as minhas contas e entre guerra de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia. Eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar, não é mesmo?