Crítica | Mako – O Tubarão Assassino

estrelas 1

A cena é mais cinematográfica que o filme em questão. “A água borbulhava como numa máquina de lavar”, noticiou o The Guardian em 2010. “Eu andava aos tombos entre o sangue e o tubarão continuava a golpear aquela mulher”, relatou a testemunha. O que aparentemente parece uma cena de alguma obra inspirada em Tubarão na verdade faz parte de trechos da reportagem sobre um ataque de tubarão, sofrido pela turista Ellen Barnes, que infelizmente não resistiu e morreu.

Ciente da fascinação que o legado do filme de 1975 exerce na sociedade, o veículo jornalístico narrou ao mundo tal ataque, situação que colocou a região balneária do Egito em problemas na época, haja vista os 11% da economia local oriunda do turismo. Segundo a matéria, especialistas levantaram a suspeita de o ataque ter sido de um tubarão-mako, mesma espécie que dá título ao filme analisado, Mako – O Tubarão Assassino, dirigido pelo equivocado William Grefé, que também assina o roteiro, juntamente com Robert W. Morgan.

Tanto no filme como no acontecimento egípcio, o tubarão surgiu como pano de fundo para conflitos que gravitam em torno da narrativa. Por que um tubarão de mar aberto atacaria alguém numa região praieira? É ai que entra a conspiração, semelhante ao que muitos filmes oriundos do legado de Tubarão tentaram fazer. Segundo o noticiado, o serviço secreto israelita, a “mitológica” Mossad, teria lançado um tubarão para atacar a indústria do turismo do Egito. O engraçado é que Abdel Fadil Sloud, governador do Sul do Sinai, não descartou a possibilidade e pediu tempo para afirmações.

Cinematográfico? A treta continuou: “a Mossad tem assuntos mais importantes que enviar tubarões para os vizinhos”, declarou o porta-voz do Ministério dos Negócios estrangeiros ao jornal El Mundo. Segundo a réplica, os egípcios tinham assistido demais ao filme de Spielberg. A notícia explodiu na esfera virtual na época, midiatizando pela enésima vez os conflitos políticos da região, mas, além disso, delineou o legado cinematográfico de Tubarão, demonstrando que o filme tem o seu potencial no imaginário mundial, capaz de quatro décadas posteriores ao seu lançamento, ainda alimentar narrativas jornalísticas e cinematográficas, tal como fez nos anos 1970, sendo Mako – O Tubarão Assassino, filme irregular e oportunista, um desses derivados deste legado. O prefeito ganha a sua versão num dono de bar e o tubarão ocupa o lugar de vítima: logo de início sabemos que estamos diante de um filme cheio de inversões.

A narrativa que flerta com o suspense e a aventura possui um roteiro assinado à quatro mãos que adentra nos meandros do estilo burlesco: um homem consegue se comunicar com tubarões após adquirir um raro amuleto. Diante dos novos poderes mentais, passa a aniquilar todos aqueles que ameaçam o animal marinho. Seria Carrie – A Estranha encontrando Tubarão? Estilisticamente o filme configura-se como uma paródia, mas em termos narrativos, brinca de leve com o a obra ponto de partida, Tubarão, de Steven Spielberg, lançado pouco tempo antes, em julho de 1976.

Trilha sonora vagarosa, design de produção ruim e iluminação sem eficiência demarcam esta narrativa que carrega mais sangue no título que no conteúdo em si. Os atores parecem se divertir e assustar ao mesmo tempo, pois segundo dados, o cineasta realizou as cenas subaquáticas com tubarões reais. Na obra, assim como no caso ocorrido no Egito em 2010, os humanos é que parecem mais complicados que os tubarões, pois atacam os tubarões sem nenhuma razão aparente. A inversão toma conta da narrativa, possibilita um caminho aparentemente interessante de início, mas se perde diante dos primeiros vinte minutos.

Ao longo dos seus 90 minutos essa produção está mais para um romance erótico. Ao pegar carona na onda do jawsplotation, Mako – O Tubarão Assassino é pouco interessante, oportunista e caricato, mas não uma deformação atraente, ao contrário, caminha entre o tosco e a deselegância. A fera marinha encontrada em mares tropicais e conhecida por ser a mais veloz da espécie e capaz de dar saltos, daí vem a sua caça desportiva, merecia um filme melhor, tal como a sua pompa e ferocidade. Diferente de William Grefé e da sua equipe técnica, o imaginário oriental soube usar o tipo com maior potência narrativa que o filme.

Mako – O Tubarão Assassino – (Mako – The Jaws of the Death) – EUA, 1976. 
Direção: William Grefé. 
Roteiro: William Grefé e Robert W. Morgan.
Elenco: Richard Jack, Jennifer Bishop, Harold Sakata, Ben Kronen, Paul Preston, Ben Kronen, John Davis Chandler, Bufby Dee.
Duração: 90 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.