Crítica | Mulher-Maravilha (Sem Spoilers)

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estrelas 3,5

  • Leiam, aqui, a crítica com spoilers e, aqui, o Entenda Melhor com referências e easter-eggs do filme.

Goste ou não do polêmico Batman vs. Superman é praticamente unanimidade que, durante uma parcela do filme, a Mulher-Maravilha roubou nossas atenções por completo, com direito até a enquadramentos diferenciados que valorizaram a importância da personagem. Evidente que, após essa curta demonstração, o hype para seu filme solo apenas se intensificou e, conforme os trailers foram liberados, é seguro dizer que não ficamos desapontados. De fato, já passara da hora da personagem feminina mais importante dos quadrinhos ganhar sua adaptação para os cinemas, algo que quebrasse a estúpida afirmação de que heroínas não sustentariam um longa-metragem próprio. Mas não bastava um filme qualquer e sim um que verdadeiramente fizesse jus à famosa amazona.

A trama principal tem início em Temiscira, a ilha das amazonas, à parte do mundo dos homens, habitada somente por essas mulheres guerreiras. A paz que há tanto cultivavam é interrompida quando o avião de Steve Trevor (Chris Pine) cai em uma das praias da ilha. Após salvá-lo, Diana (Gal Gadot) e as outras amazonas descobrem da Grande Guerra que assola todo o mundo exterior. Compelida a lutar pela paz, aquela que ficaria conhecida como a Mulher-Maravilha decide partir junto desse homem, na esperança que ele o leve até Ares, quem a guerreira acredita que está causando todo o conflito, em razão das histórias que escutara quando criança.

Um dos melhores aspectos de Mulher-Maravilha é que se trata de uma história auto-contida. Há, sim, suas referências ao restante do Universo Estendido DC, mas nada mais que isso, pois o foco, aqui, está em quem deveria estar: Diana. O roteiro de Allan Heinberg faz o ótimo serviço de trabalhar a personalidade de sua protagonista, valorizando suas aspirações, tornando-a, desde cedo na projeção, em um ícone, alguém que acredita na bondade da humanidade, independente de qual lado do conflito estamos falando. Há um ar leve ao redor da personagem, a inocência que beira a ingenuidade, característica tão presente naqueles que sonham.

Gadot representa isso do início ao fim, com uma atuação genuína, que garante à Diana um carisma acolhedor, o que apenas aumenta com seu desconhecimento sobre o mundo dos homens. Enxergamos nela a mistura de estranhamento e encantamento, enquanto ela tenta aprender mais sobre os costumes daquele estranho local. Impressionamo-nos, verdadeiramente, com a maneira como todos aqueles ao seu redor (exceto os inimigos, claro) se conectam com ela de forma fluida, natural, com certa perplexidade, claro, considerando as diferenças entre essas duas realidades, mas a enxergando como alguém que, genuinamente, está ali para ajudar. Dito isso, não há como olhar para tal mulher e não enxergar a heroína dentro dela.

De todas essas relações mostradas no filme, porém, talvez nenhuma delas demonstre tamanha sinergia quanto a da protagonista e Steve Trevor. Chris Pine nos entrega o personagem que representa perfeitamente tudo o que a amazona enxerga de bom na humanidade: acima de tudo, ele pretende salvar vidas e está disposto a fazer de tudo para alcançar tal objetivo. A interação dos dois é bem-humorada e orgânica, emprestando ainda mais descontração à narrativa, além de nos presentear com algumas boas risadas, alívios cômicos bem-vindos, considerando o cenário de desolação da Primeira Guerra que é muito bem representado pelo filtro azulado, que se contrapõe ao radiante visual de Temiscira. Além disso, é gratificante enxergar como Trevor é bem construído ao longo da projeção, nunca roubando o destaque de Diana, mas funcionando como o ideal sidekick dessa jornada.

Infelizmente, o mesmo não pode ser dito dos outros personagens secundários, especificamente aqueles que conhecemos no segundo ato da obra. Tratam-se de indivíduos introduzidos um a um, mas que são esquecidos ao longo da história, não desempenhando nenhum papel de destaque. Fossem substituídos por personagens sem grande distinção, presentes apenas para emprestar um maior realismo à obra, não perderíamos tanto tempo os conhecendo, o que garantiria maior fluidez à trama. Tudo isso piora com relances de subtramas individuais que jamais são concluídas ou sequer desenvolvidas ao longo da obra – devaneios que tiram nossa atenção do foco na Mulher-Maravilha e Trevor.

Tais deslizes, porém, são quase esquecidos quando a heroína entra em ação e a vemos cortar, pular, rodopiar e mais, enquanto usa sua espada, escudo ou laço, armas que funcionam como extensão da personagem, utilizados nos momentos propícios, sem aquela velho artifício do “deixei essa daqui para o final”. A diretora, Patty Jenkins, por alguns momentos, chega a preocupar, já que as sequências iniciais de ação apresentam planos curtos, muito próximos e que não valorizam a coreografia em tela. Felizmente, contudo, conforme progredimos, ela acerta mais na decupagem, empregando planos mais abertos e longos que causam aqueles arrepios por muito tempo ansiados. Está claro que Jenkins se apoia naquilo que foi construído por Zack Snyder nos trechos com a personagem em A Origem da Justiça, optando, inclusive, por câmera lenta à la 300 que perfeitamente se encaixa com o modus operandi da amazona. Além disso, é bom ver um filme cujo 3D não atrapalha, aliás é seguro dizer que o recurso não faz a menor diferença.

E por que disse “quase” no parágrafo anterior? Não, não foi pela hesitação da diretora nos trechos inciais – isso já era esperado, visto que esse é o seu primeiro longa-metragem de ação e Jenkins, que nos presenteara com o ótimo Monster: Desejo Assassino se sai muito bem nas sequências mais movimentadas, embora o seu forte, claramente, sejam as cenas mais dramáticas. Os problemas que assolam Mulher-Maravilha em pontos específicos são: o excesso de computação gráfica e a montagem do clímax. Claro que o CGI se faz necessário em vários momentos, mas ele se torna desconfortavelmente explícito mais de uma vez, transmitindo o tão temido ar de artificialidade. Na maior parcela da obra isso incomoda, mas não estraga o que vemos em tela, o problema está no clímax em si, que acaba se tornando tão genérico que nossa vontade é que ele acabe de uma vez e que tudo seja resolvido.

Já a montagem de Martin Walsh parece ter encontrado nesses (d)efeitos especiais uma mortal aliança, visto que se torna excessivamente burocrática, sem saber exatamente quando oscilar entre a protagonista e os personagens secundários a fim de aumentar a tensão no espectador. O que nos é passado é que o filme busca resolver um ponto para, depois, resolver o outro, quase se esquecendo de que inúmeras coisas estão acontecendo ao mesmo tempo. Sozinho, esse problema poderia ser deixado de lado, mas, com seu aliado, uma das mais importantes sequências da obra não nos entrega o que deveria: o brilhante desfecho que a personagem merecia. Em razão disso, embora o grande e previsível plot twist seja bem encaixado com o que fora proposto ao longo do filme, ele acaba sendo apresentado de maneira conveniente demais, algo que seria resolvido facilmente por uma diferente ordenação das cenas. Tudo, naturalmente, piora com as explicações dignas de vilão de James Bond, que mostra que Allan Heinberg não confiava tanto assim na inteligência dos espectadores.

 Mulher-Maravilha, portanto, traz seus defeitos, mas não deixa de nos entreter durante a maior parte da projeção, configurando-se como o definitivo acerto do Universo Estendido DC. Com boas atuações, roteiro bastante redondo e algumas sequências de ação que valorizam a personagem, a obra certamente não desapontará. Voltamos, então, à grande questão inicial: o filme faz jus à importante heroína? E a resposta honesta é “não completamente”, pois certamente ela merece algo verdadeiramente maravilhoso, mas, ao menos, estamos no caminho certo e continuamos na esperança de ver nas telonas histórias da personagem tão impactantes quanto, por exemplo, àquelas de George Pérez e Brian Azzarello.

Mulher-Maravilha (Wonder Woman) — EUA, 2017
Direção: Patty Jenkins
Roteiro: Allan Heinberg
Elenco: Gal Gadot, Chris Pine,  Robin Wright, David Thewlis, Connie Nielsen, Elena Anaya, Lucy Davis, Ewen Bremner, Doutzen Kroes, Danny Huston
Duração: 141 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.