Crítica | O Cidadão Ilustre

o-cidadao-ilustre-el-ciudadano-ilustre-plano-critico

estrelas 4

Qual é o papel do artista na sociedade atual? Essa é a pergunta (nada simples, diga-se de passagem) que motiva o mais novo filme dos argentinos Gastón Duprat e Mariano Cohn, que chegou ao Brasil em maio de 2017, tendo em sua conta várias indicações e prêmios importantes, incluindo o de Melhor Ator no Festival de Veneza para Oscar Martínez. Os diretores de O Homem ao Lado, em parceria com o roteirista Andrés Duprat, lançam um filme que traz à baila um tema extremamente inquietante e complexo. Dosando humor e drama de forma competente, embora não sem deslizes, O Cidadão Ilustre discute a função da arte em um mundo pragmático, que submete o autor a tensões que surgem tanto nos ambientes mais cosmopolitas como nos mais provincianos.

Daniel Mantovani é o mais novo escritor latino-americano laureado com o Prêmio Nobel de Literatura. Seu discurso de agradecimento tão ácido lembra o de Jean-Paul Sartre ao recusar o mesmo prêmio décadas antes, ocasião em que o francês afirmou que “um homem não merece ser consagrado em vida”. Mantovani se recusa a usar o traje tradicional na cerimônia e também não faz a protocolar reverência ao rei e à rainha suecos. O premiado autor parece confuso – a cabeça apoiada sobre as mãos minutos antes de entrar no palco para proferir seu discurso pouco amistoso. Vivendo na Europa há 40 anos, o artista argentino, após receber sua condecoração máxima, resolve retornar a sua cidade natal – a pequena Salas. Quem é exatamente Daniel Mantovani? Um escritor de todo o mundo ou da bucólica Salas? A que lugar ele, de fato, pertence? Como será recebido por seus concidadãos?

O artista receberá inúmeras homenagens em sua terra natal. Um busto seu será construído em praça pública. Ele andará em um barulhento carro de bombeiros, ao lado da Miss da cidade (uma cena hilária) e também receberá uma medalha por seus grandiosos feitos além-mar. Um autêntico salense. Ou não. Daniel é recebido como herói, mas ainda assim um herói “estrangeiro”, que não pertence verdadeiramente à cidade. Sua presença causa distúrbio pouco a pouco e faz surgir situações embaraçosas e outras bastante perigosas. O célebre escritor passa a receber convites indesejados, pedidos lhe são feitos em tom de extorsão e ameaças explícitas acontecem, por fim. A pequena Salas revela sua verdadeira hospitalidade.

É interessante que o filme traga luz a uma questão recorrente para artistas do Novo Mundo que alcançam a glória do outro lado do Atlântico. Em seu discurso, Mario Vargas Llosa, vencedor do Nobel de Literatura de 2010, expõe a mesma ferida do personagem de Martínez. O peruano afirmava: “Alguns compatriotas me acusaram de traidor e cheguei a ponto de quase perder a cidadania quando, durante a última ditadura, pedi que os governos democráticos do mundo punissem o regime com sanções diplomáticas e econômicas, como sempre fiz com relação a todas as ditaduras, as de qualquer espécie. […] Não foi aquela uma ação precipitada e passional de um ressentido, como escreveram alguns polímatas, acostumados a julgarem os outros a partir da própria pequenez.”. Llosa demonstra que é possível ser aplaudido como um “cidadão ilustre” e, ao mesmo tempo, atacado como um inimigo da pátria. Trata-se de uma espécie de limbo, que aparece de forma muito feliz no filme.

Outra grande questão que O Cidadão Ilustre trabalha é o papel do artista no mundo atual e, possivelmente, em qualquer tempo e lugar. De forma bem-humorada, a questão é tratada em diversas camadas. Quando Daniel está chegando a Salas e o pneu do carro fura, o motorista chega a usar as páginas de seu livro para se limpar. A cena arranca risos do público – um vencedor do Nobel de Literatura completamente perdido em um local ermo, vendo sua obra usada para uma finalidade tão ordinária. Ponto para o bom roteiro de Andrés Duprat, que pontua a questão do fazer artístico com afiada auto-ironia. A plateia presente nas palestras de Daniel, completamente atônita, é outro ótimo elemento cômico do roteiro, traduzindo um importante questionamento sobre o real alcance da arte e da cultura em nossos dias.

Mas se o humor surge tão bem em alguns momentos, em outros ele se torna cansativo. A caricatura que o filme faz acerca do provincianismo dos habitantes de Salas vai bem até certo ponto. Acho excessivas tantas cenas em que personagens fazem piadas e gracejos, tentando impressionar Daniel. Quando o escritor dá uma entrevista para uma emissora local, a completa falta de percepção do entrevistador e do cameraman sobre a importância do convidado me soa uma bobagem sem tamanho. Não condeno a caricatura. Acho que ela tem sim seu lugar, se bem utilizada. Mas o filme insiste demais nessa estratégia e a escassez progressiva de risadas na sala de cinema traduz bem que o recurso havia se esgotado. Outro problema do roteiro, a meu ver, é o núcleo irritantemente óbvio dos personagens Irene e Antonio. Dispensável e até constrangedora a história da ex-namorada e seu marido enciumado, mesmo com a atuação de Dady Brieva salvando parte do arco.

Mas o filme se recupera muito bem de seus tropeços. Gosto muito da cena em que Daniel discursa sobre a arte e a cultura, durante o concurso de pinturas da cidade. Afora a interpretação estupenda de Oscar Martínez (o que não surpreende em nada), as ideias ali presentes são extremamente convidativas à reflexão. Tal como uma tribo africana que não tem nenhuma palavra para significar “liberdade”, já que seus integrantes são efetivamente livres, a cultura só pode existir longe de seus autoproclamados bastiões. O eloquente discurso de Daniel Mantovani é um belo arremate à discussão central de O Cidadão Ilustre. Ele aproxima o cosmopolitismo do Prêmio Nobel e o provincianismo de Salas – o protagonista não encontra um caminho fluido para sua arte em nenhum dos dois extremos.

O filme de Gastón Duprat e Mariano Cohn questiona, por fim, o conceito de autenticidade da arte. Embora os habitantes de Salas procurem na obra de Daniel Mantovani personagens que os representem e a Academia inclua o escritor em seu establishment como uma forma de apoderamento, a cena final de O Cidadão Ilustre proclama a soberania do artista sobre a própria obra. Pouco importa se assistimos a uma ficção ou a uma história real transcrita para as páginas de um livro. O que interessa mesmo é a mensagem de que o artista só é capaz de dar voz ao mundo que o cerca quando se sente livre para preencher as lacunas que a realidade deixa em branco. A frase final do discurso do norte-americano William Faulkner, outro vencedor do Nobel de Literatura, é insubstituível nesse momento: “A voz do poeta necessita ser não meramente o registro e o testemunho do homem – ela pode ser uma das escoras, o pilar para ajudá-lo a subsistir e prevalecer”.

O Cidadão Ilustre (El Ciudadano Ilustre) – Argentina, 2016
Direção: Gastón Duprat, Mariano Cohn
Roteiro: Andrés Duprat
Elenco: Oscar Martínez, Andrea Frigerio, Belén Chavanne, Nora Navas, Dady Brieva, Gustavo Garzón, Marcelo D’Andrea, Ivan Steinhardt, Manuel Vicente, Emma Rivera
Duração: 118 minutos

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.