Crítica | O Tempo Não Apaga (1946)

estrelas 4

Quando Hal B. Wallis, produtor de O Tempo Não Apaga que dirigiu algumas sequências do filme sem receber crédito, estava no processo de escalação do elenco, Humphrey Bogart e Lauren Bacall, então recém-casados, sugeriram que ele assistisse uma peça de teatro em que um antigo colega da escola de teatro de Bacall atuava. Seu nome era Issur Danielovitch, mas seu nome artístico era Issur Demsky, então com 30 anos, uma idade então incomum para se começar carreira no cinema. Mas Wallis foi imediatamente atraído pela presença do ator no palco e o convidou para participar de seu filme ao lado dos medalhões Barbara Stanwyck e Van Heflin.

E foi assim que Issur, que havia decidido seguir apenas pela carreira teatral, colocou pela primeira vez os pés em um set de cinema, alterando seu nome para Kirk Douglas e construindo, quase que imediatamente, uma sólida carreira de décadas na Sétima Arte. E poucos atores tiveram e mesmo hoje em dia têm a sorte de começar em uma obra tão sólida e bem construída quando O Tempo Não Apaga, contracenando com grandes nomes e sob a batuta de Lewis Milestone, um dos grandes diretores da época, responsável por obras-primas como Sem Novidade no Front.

A fita, estruturada como um filme noir envolvendo a manipulação de homens por uma mulher forte, inevitavelmente gera comparações com o clássico Pacto de Sangue, de Billy Wilder e também estrelando Stanwyck, de apenas dois anos antes. É até possível argumentar que O Tempo Não Apaga, baseado em conto de John Patrick, foi uma tentativa de se duplicar o sucesso do filme de 1944. No entanto, o roteiro de Robert Rossen tem características próprias que o distancia do trabalho de Wilder e Raymond Chandler, especialmente com a inserção de um viés melodramático por vezes exagerado que perpassa toda a trama.

É interessante, por exemplo, como há uma enorme tranquilidade em se estabelecer o vínculo de amizade entre Martha Ivers, Sam Masterson e Walter O’Neil ainda quando crianças, 18 anos antes da ação principal em um prelúdio com atores-mirins (Janis Wilson, Darryl Hickman e Mickey Kuhn, respectivamente) em atuações que espelham brilhantemente a de suas contrapartidas já adultas – Stanwyck, Heflin e Douglas – que só vemos 25 minutos depois de iniciado o filme. O roteiro de Rossen e a direção de Milestone já estabelecem o tom de cada personagem – Martha é fria e manipuladora, Walter é submisso e fraco e Sam é valente e raivoso – e usam como catalisador a morte de Mrs. Ivers (Judith Anderson), a tia de Martha que ela odeia e quer com todas as forças fugir com Sam da mansão onde vive. Essas sequências iniciais são conduzidas de maneira cadenciada pela direção de Milestone, que faz uso da fotografia em preto-e-branco do então já veteraníssimo Victor Milner para pontar as personalidades com seu jogo de luz e sombra e um figurino que procura inverter as expectativas do espectador.

Quando o prelúdio acaba e somos levados ao presente, os personagens são reapresentados de forma suave, sem didatismos exagerados, usando muito as imagens para estabelecer Martha como uma industrialista de grande sucesso, Walter como o procurador do município alcoólatra e infeliz às vésperas de uma reeleição e Sam, pela primeira vez de volta à sua cidade natal depois da fatídica noite há quase 20 anos. Nesse ponto, o que o roteiro faz é deixar o espectador no escuro pelo máximo de tempo possível. O que exatamente Sam quer ao voltar para cidade? Ou melhor, será que ele quer alguma coisa? E o que aconteceu nesse tempo todo em que ele esteve fora? Como é a relação entre Martha e Walter agora? Todas são perguntas que ficam no ar em um primeiro momento e o filme é como um processo investigativo que vai aos poucos desvelando o passado e o presente da trinca principal, que recebe um quarto personagem na figura de uma bela e triste mulher misteriosa vivida por Lizabeth Scott que Sam encontra não muito tempo depois de voltar à cidade e que serve de catalisador efetiva para a ação que envolve paranoia, desconfiança, amor, traição e muita manipulação.

A narrativa ganha contornos bem mais complexos na medida em que ela se desenvolve, trabalhando a partir das personalidades da trinca principal estabelecidas no prelúdio e desenvolvendo-as fortemente e nem sempre de acordo com o que se pode esperar e constantemente em uma construção ambígua de cada ator. Stanwyck, claro, tem presença poderosa e sua atuação funde os trabalhos de Janis Wilson, a versão criança de seu personagem e Judith Anderson, a falecida tia de Martha, convencendo o espectador quase imediatamente que a Martha já adulta é uma amálgama das duas, de certa forma mantendo traços de uma infância que acabou no fatídico dia há 18 anos e sua odiada tia. A iluminação tem um papel importante aqui, não só por ser uma exigência usual da atriz que determinava contratualmente que, quando em uma cena, ela tinha que ser o centro das atenções, mas também para amplificar a dubiedade sobre sua personagem. Há até uma aura angelical que a luz amplifica sempre que ela é focada, deixando evidente o contraste de claro e escuro que vemos não só ao seu redor, como também em seu excelente figurino.

Van Heflin vive um papel descontraído que ganha contornos cada vez mais sinistros na medida em que a narrativa progride. De todos, é o personagem cujo passado menos conhecemos e, de todos, é o personagem que mais gera dúvidas sobre suas reais intenções. Não que o filme viva de mistérios, mas ele é fértil em cultivar visões até mesmo antagônicas de seus personagens de uma sequência para outra e Heflin parece se divertir transitando entre o bonachão de bem com a vida e o homem profundamente perturbado pelo que descobre e pelo que descobre ainda sentir por Martha.

Finalmente, Kirk Douglas tem um magnífico début nas telonas em um curioso papel em que ele vive um homem fraco, destruído por uma vida à sombra primeiro de seu pai e depois de sua esposa. Sua fama de durão viria apenas depois, mas é o papel cheio de nuances que ele vive aqui que catapultou sua carreira. E com razão. Seu Walter bêbado, desconfiado e descontrolado é um personagem fascinante que, apesar de todos os esforços de Stanwyck em contrário, consegue roubar as cenas em que aparece contracenando com ela e isso considerando que ele tem consideravelmente menos tempo de tela que a dupla veterana. Vemos em Walter um homem prestes a explodir e que foge para os recônditos de sua garrafa para suportar uma vida imposta a ele, mas que ele no fundo realmente quer. É o homem em uma prisão da qual não quer na verdade escapar.

Não como esquecer-se, porém, do forte apelo melodramático do roteiro de Rossen, comentei alguns parágrafos acima. Sua presença é forte em todos os momentos e Toni Marachek, a personagem de Scott, talvez seja aquela gota que faz transbordar o copo. E não considero culpa da atriz, que, aqui, fica à mercê de um roteiro que exagera em sua personagem, transformando-a de chama que dá ignição à trama principal à protagonista de uma linha narrativa paralela que não tem verdadeiro propósito (e isso sem contar com os constantes close-ups chorosos em seu rosto, cortesia de Wallis, que dirigiu essas cenas para desgosto e contrário aos desejos de Milestone). Mas o melodrama está presente também em toda a combinação possível do quarteto, inclusive entre Sam e Walter, ainda que as interações entre os dois, ainda que breves, sejam poderosas.

Além disso, o final é apressado e um pouco fora de compasso com as personalidades estabelecidas. Não havia necessidade dramática para o desfecho narrativo de Martha e Walter, que soa como uma saída fácil de um roteiro que aos poucos vai se colocando em um corner difícil de escapar, mas que poderia ter escolhido outra saída. Não é, porém, algo que estrague a jornada até lá. Os mistérios, as sutilezas das atuações e a beleza do desenho de produção criam uma obra complexa que dá gosto assistir.

O Tempo Não Apaga pode ser mais lembrado como o começo da carreira cinematográfica de Kirk Douglas, mas ele é um filme que tem seus próprios e grandes méritos. Não poderia ser um trampolim melhor para uma das maiores lendas americanas da Sétima Arte.

O Tempo Não Apaga (The Strange Love of Martha Ivers, EUA – 1946)
Direção: Lewis Milestone
Roteiro: Robert Rossen (baseado em história de John Patrick)
Elenco: Barbara Stanwyck, Van Heflin,  Lizabeth Scott, Kirk Douglas, Judith Anderson, Roman Bohnen, Darryl Hickman, Janis Wilson, Ann Doran,  Mickey Kuhn
Duração: 116 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.