Crítica | Perdidos no Espaço: No Place to Hide (1965 – Piloto Não Exibido)

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Perdidos no Espaço é um clássico da ficção científica televisiva que teve 83 episódios em apenas três temporadas entre 1965 e 1968, antecedendo até mesmo Star Trek, o grande divisor de águas do gênero na telinha. Reprisado enlouquecidamente por décadas, a série original foi conquistando gerações, mesmo com seu cancelamento repentino, que deixou a família Robinson perdida no espaço para sempre, sem voltar à Terra ou chegar a Alfa-Centauro, seu destino original.

Quem já assistiu a episódios da marcante série provavelmente concorda que os dois personagens mais icônicos são o traiçoeiro Dr. Zachary Smith, vivido pelo saudoso Jonathan Harris e o robô sem nome que não, não se chama Robby, mas que foi baseado em Robby, de Planeta Proibido, inclusive sendo criado pelo designer original do robô do filme de 1956, Robert Kinoshita. Poucos sabem ou se lembram, porém, que nenhum dos dois personagens existiam na concepção original da série, algo que fica evidente em No Place to Hide, o episódio piloto produzido por Irwin Allen, mas que jamais foi ao ar.

Nele, o conceito de colonização de um planeta em Alfa-Centauro continua e é a mola propulsora da narrativa. A família Robinson, composta dos pais Dr. John Robinson (Guy Williams) e Dra. Maureen Robinson (June Lockhart) e dos filhos Judy Robinson (Marta Kristen), Penny Robinson (Angela Cartwright) e Will Robinson (Billy Mumy), acompanhados do Major Don West (Mark Goddard), o piloto, são enviados em uma viagem interplanetária de 98 anos para o sistema solar mais próximo do nosso. Durante a viagem, com os tripulantes em estase, a nave passa por um cinturão de asteroides que faz a Gemini 12 cair em um planeta desconhecido. A animação suspensa demora a ser desativada e os personagens só são descongelados em 2001 (a viagem começou em 1997, 32 anos no futuro se contarmos a partir de 1965) e eles passam a explorar o planeta e a transformá-lo, por completa falta de escolha, em seu novo lar, enfrentando os desafios inerentes ao desconhecido.

Curiosamente, apesar de um começo muito lento, o piloto é bastante movimentado a partir da aterrissagem forçada da nave no planeta, com a família encontrando sinais de uma civilização antiga, enfrentando um gigantesco cíclope, que é uma referência direta à Odisseia, clara inspiração para a série, e até um mar revolto (só faltou aparecer Poseidon). Fica evidente que Allen fez do piloto o que ele realmente era: um produto para convencer a Fox e a CBS da viabilidade do projeto. Mas faltava algo. Um sabor, algo que realmente tornasse a série interessante para além de seu conceito fortemente galgado em Robinson Suíço, clássico de 1812 de Johann David Wyss, por sua vez modelado em cima do ainda mais clássico Robinson Crusoé, de 1719, por Daniel Defoe.

O episódio original, sozinho, estabelecia o fio narrativo e o potencial, mas o elenco deixou a desejar, talvez com exceção do pequeno Will, que conta com uma atuação enérgica e matreira de Billy Mumy. Foi esse vazio que, não muito tempo depois, seria preenchido pela inclusão do Dr. Smith e, também, do simpático robô, efetivamente retirando a obra da perigosa vala comum a que ela provavelmente estaria destinada não fosse a interferência da produtora e do canal de televisão, demonstrando que nem sempre o criador do conceito tem a verve comercial necessária para permitir o sucesso de sua obra.

Os valores de produção são típicos para a época em que o piloto foi criado, com cenários simples e repletos de luzes piscantes e soluções “mágicas” a partir de uma sequência de botões e de uma pseudo-ciência divertida, mas completamente camp. Os trajes espaciais prateados funcionam bem com a fotografia em preto-e-branco de alto contraste e os cenários de estúdio representando o exterior do planeta ao redor da nave usada como base do acampamento são tão bons quanto se poderia esperar de uma obra desta natureza, com o sci-fi ainda sendo visto como sub-obra na época. O mesmo vale para os efeitos especiais, todos óticos e feitos na câmera, como o gigantesco cíclope filmado em segundo plano com um jogo de perspectiva esperto que também marcaria Terra de Gigantes, do mesmo Irwin Allen, dois anos depois. Com a trilha sonora “roubada” sem pudor de O Dia em que a Terra Parou, composta pelo imortal Bernard Herrmann, inclusive a música tema que, depois, seria substituída pela criação de ninguém menos do que John Williams, então ainda assinando como Johnny Williams (ele tinha 34 anos na época e ainda estava longe de alcançar o patamar que chegaria a partir da década de 70), o toque final fortemente exotérico e surpreendentemente sério da série nesse começo conceitual seria estabelecido.

Apenas como curiosidade, segue uma lista das diferenças entre o piloto e a série que efetivamente foi ao ar:

  • O Dr. Zachary Smith não existia;
  • O robô não existia;
  • A nave era chamada Gemini 12, sendo rebatizada para Júpiter 2 no piloto oficial;
  • A viagem era de 98 anos enquanto que, no piloto oficial, ela era de cinco anos e meio;
  • A nave original tinha apenas um andar, com o segundo sendo adicionado para o piloto original de forma a permitir a evolução da sub-trama com o Dr. Smith e o robô;
  • A música de abertura de Bernard Herrmann, originalmente composta para O Dia em que a Terra Parou, foi substituída pela composta por John Williams especialmente para a série. Mas várias melodias de Herrmann continuaram sendo usadas na primeira temporada;
  • A chuva de meteoros que desvia a nave de sua trajetória foi fruto de azar, enquanto que, no piloto oficial, ela foi o resultado do desvio causado pelo Dr. Smith;
  • Os vários acontecimentos que seguem a queda da nave no planeta desconhecido foram reutilizados ao longo da primeira temporada da série, para evitar desperdício do que já havia sido filmado;
  • No Place to Hide é o título pelo qual o piloto não exibido passou a ser conhecido, mas ele não aparece no episódio.

No Place to Hide é um raro e interessante olhar para dentro de uma produção que marcou sua época (e épocas posteriores também, diria). Temos a visão de Irwin Allen muito evidente aqui, em sua sedimentação como colosso televisivo de sua era, mas também a evidente interferência da Fox e da CBS para transformar a obra original em algo mais vendável, mais palatável para o público em geral.

Perdidos no Espaço: No Place to Hide (Lost in Space: No Place to Hide, EUA – 1965)
Criação: Irwin Allen
Direção: Irwin Allen
Roteiro: Shimon Wincelberg, Irwin Allen (baseado em história de Irwin Allen)
Elenco: Guy Williams, June Lockhart, Mark Goddard, Marta Kristen, Billy Mummy, Angela Cartwright
Duração: 50 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.