Crítica | Quando Fala o Coração

estrelas 3

O segundo filme de Hitchcock feito para o produtor David O. Selznick foi marcado por discussões entre os dois – tanto que o filme seguinte de Hitch, Interlúdio, acabou sendo vendido para a RKO e produzido pelo próprio diretor – mas também entrou para a história do cinema por características bastante peculiares.

A história oficial e as várias lendas que cercam o filme dizem que a ideia que impulsionou a realização do filme foram as bem-sucedidas sessões de psicanálise a que o produtor Selznick teria se submetido, tanto que sua terapeuta participou do filme como conselheira técnica – crédito incluído na produção. A psicanálise era ainda algo novo, mas despertava a curiosidade apaixonada de muitos. Isto explica que o filme se inicie com créditos bem didáticos, explicando que o filme pretende acima de tudo enaltecer as virtudes da psicanálise como forma de cura para as doenças mentais e em recuperar a razão a pacientes perturbados. Daí vem seu título original – Spellbound – que pode ser traduzido como confuso, desorientado, o que torna o título brasileiro ainda mais injustificável.

Há um romance entre a Dra. Constance (Bergman) e o personagem de Gregory Peck – que de início se faz passar pelo Dr. Edwardes – que passa a ser seu paciente por quem ela se apaixona, mas embora este preâmbulo amoroso ocupe uma boa parte da história, o filme deixa bem claro que está mais interessado em povoar um filme de mistério com as ideias trazidas pela moderna ciência da psicanálise. Este talvez seja o maior problema do filme. Em seu temor de não ser plenamente compreendido pelo público, o roteirista e produtor rechearam as cenas de diálogos bastante didáticos sobre a psicanálise, mas tornando tudo muito simplório e hoje bastante risível. Há uma verborragia nada verossímil por parte dos médicos da clínica e mesmo nos diálogos entre Bergman e Peck, querendo a tudo enquadrar e citar em termos, teorias e síndromes identificadas pela psiquiatria, tornando muitas cenas tediosas – onde complexo de culpa e síndrome disso e daquilo surgem a todo instante, para explicar comportamentos de uma forma bastante rasa e simplista.

Talvez o maior achado do filme, e ideia de Hitchcock – mal utilizada pela interferência do produtor Selznick, resultando daí as brigas que se seguiram entre os dois – tenha sido contratar o pintor Salvador Dali para conceber visualmente uma sequencia de sonho do filme. As cenas acabaram gerando material para mais de 20 minutos, que sob a censura de Selznick resultaram na versão final do filme em pouco mais de 2 minutos. Mas mesmo sua pequena duração tornaram a cena o ponto-chave do filme e fruto de toda sua fama e publicidade. O brilhantismo desta cena de sonho, que guarda muitas semelhanças com a fase do expressionismo do cinema alemão, contrasta com o roteiro um pouco arrastado e que parece ter dificuldade em se solucionar, resultando num final  bastante abrupto e pouco convincente em sua construção.

É verdade que há outras ideias bem solucionadas visualmente, além do sonho de Dali, e que são mérito próprio de Hitchcock, sobreviventes da ingerência de Selznick. Uma delas é a que acompanha numa montagem de planos rápidos a prisão e julgamento de John Ballantyne (Peck) como principal suspeito pela morte do Dr. Edwardes. Esta sequencia nos poupa das frequentes e comuns “cenas de julgamento” que os americanos tanto apreciam. Esta agilidade fílmica, no entanto, é pontual, infelizmente, num filme que é demasiadamente dialogado. Mas é a excelência na direção de certas sequencias que provam que se Hitchcock tivesse a liberdade necessária, Quando Fala o Coração seria com certeza bem melhor. Prova disso é que a mesma equipe (roteirista, atores e técnicos), livre da supervisão de Selznick, conseguiu atingir um resultado positivo com Interlúdio.

Embora não seja um filme ruim – apesar de mal construído – Quando Fala o Coração não era um dos favoritos nem do próprio Hitchcock, que o reconhecia como um de seus filmes falhos. Aliás, é mesmo difícil reconhecer o filme como sendo realizado pelo mestre do suspense, pois há poucos elementos nele que remetem a características típicas do diretor. Acredito que o filme se insere numa fase que não foi definitivamente a melhor do diretor, que, no entanto, na década seguinte daria a volta por cima, realizando seus melhores filmes, inúmeras obras-primas em sequência, culminando com seu filme mais popular – Psicose.

Quando Fala o Coração (Spellbound, 1945)
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Ben Hecht, Angus McPhail
Elenco: Ingrid Bergman, Gregory Peck, Michael Chekhov, Leo G. Carroll, Rhonda Fleming
Duração: 111 minutos

SIDNEI CASSAL. . . . Formado em Letras (Português/Francês) . Estudante de Direito. Trabalhei com redação e criação publicitária. Participei de Oficina de Cinema, em convênio com a TVE-Porto Alegre, onde os curta-metragens produzidos foram montados e exibidos. Cinéfilo de carteirinha.