Crítica | Terra Vermelha (2008)

Há algum tempo, as redes sociais evidenciaram um dos mais evidentes discursos de ódio de um “certo” deputado brasileiro conhecido por falar bobagens infundadas e teorias sem conexão científica alguma, preenchendo, se não esparramando, o nosso pote de nação vergonha alheia diante de outros países que compõem o extenso território terrestre. Uma das desculpas para o discurso é a vitimização dos grupos que defendem estas pessoas e os problemas de expansão do agronegócio. É duro de acreditar, mas esta manifestação de ignorância é apenas uma entre milhares que circulam por ai. Tudo isso, mais do que nunca, torna a reflexão do filme Terra Vermelha, dirigido por Marcos Bechis, tendo como direcionamento o roteiro de Luiz Bolognesi e Lara Fremder, necessária e atual.

Em Terra Vermelha, a cultura indígena é apresentada numa perspectiva crítica, sem os lugares comuns e todo o emprego de verniz europeu que distorce a realidade de um povo que ainda clama por paz e acesso aos seus direitos mais básicos, negados por nações colonizadoras que constantemente os envolveram em tenebrosas transações, sempre subtraindo, desde o “tesouro local”, aos itens mais básicos dos Direitos Humanos.

A história basicamente se desenvolve em torno de uma fazenda. Moreira (Leonardo Medeiros) é o filho de um fazendeiro que ocupou aquela terra. Ele precisa lidar com um grupo de índios numa fazenda, praticamente trabalhadores escravos, que ganham dinheiro (migalhas/moedas) para ser parte de uma tosca atração turística local. Estes indivíduos da tribo Guarani-Kaiowá começam a pressionar os habitantes do atual espaço que no passado, foi de seus ancestrais, algo que será fator catalisador dos problemas que se desenvolverão adiante.

Neste processo, temos um chefe de uma tribo precisa desistir do ativismo, no intuito de tentar sobreviver, colocando em xeque a sua imagem diante do povo que o tem como símbolo da tribo. O seu filho, envolvido pelas artimanhas sedutoras do capitalismo quer de qualquer jeito um tênis, um dos traços marcantes do capitalismo. Apaixonado (ou interessado) pela filha do fazendeiro, haja vista a moto da moça, o jovem que tinha em seu destino ser um xamã entrega-se aos prazeres capitalistas e adentra numa lógica que o afundará, levando dor e desespero aos envolvidos.

O provável desfecho trágico dos personagens é a única certeza que temos ao passo que os conflitos avançam. Ao longo de seus 108 minutos, o filme é conduzido com bastante realismo, numa narrativa preocupada em ter verossimilhança ao tratar dos indígenas do Mato Grosso do Sul. Lançado há uma década, Terra Vermelha ainda é bastante atual nas discussões sobre o povo indígena e sua conjetura social e política. Ao tratar da anulação dos seus direitos, as suas concepções de trabalho e cultura, bem como os aspectos religiosos que não são respeitados, o filme revela como ainda somos impregnados pela ótica cartesiana de compressão dos elementos que gravitam em torno de nossas vidas.

Entre os sons da mata, captados pela competente equipe de som, e as músicas sertanejas que acompanham a trilha sonora, somos guiados pela rotina desfavorável deste povo mergulhado numa redoma de objetificação, forçados a se inserir dentro dos códigos capitalistas. A cena de abertura é uma das melhores ilustrações críticas do filme: à beira do rio, tal como nos livros engessados de História, os índios estão nus, munidos de arcos e flechas. Os turistas, interessados no exotismo, semelhante aos seus antepassados quando aportaram nas terras americanas colonizadas, passeiam de lancha, ávidos por imagens para compartilhar em seus meios pessoais. Quando os turistas desaparecem, os índios entram novamente na mata, vestem as suas camisetas de algodão, tornam-se “civilizados”, algo diferente do espetáculo que acabara de ser contemplado, demonstrando a necessidade de “se vender” para a sobrevivência.

Dentre as tantas cenas emblemáticas, há o avião que passa e derrama uma boa quantidade de agrotóxico na região, numa demonstração de animalização dos índios, como se estes fossem mais uma das pragas que precisam passar pelo processo de extermínio. Terra Vermelha é um filme interessante por suas críticas, mas também por proporcionar uma análise que sai do estereótipo, o que permite ver este povo sob outra perspectiva. É tão atual que em 2013, um dos caciques que trabalhou no filme (o que estampa a foto da crítica ao lado de Nachtergaele) foi encontrado assassinado por problemas locais. A vida imitando a arte, mais uma vez.

Terra Vermelha — Brasil, 2008
Direção: Marcos Bechis
Roteiro: Luiz Bolognesi, Marco Bechis
Elenco: Alicélia Batista Cabreira, Camila Caetano Ferreira, César Chedid, Chiara Caselli, Eliane Juca da Silva, Fabiane Pereira da Silva, Inéia Arce Gonçalves, Leonardo Medeiros, Luciane da Silva, Matheus Nachtergaele, Nelson Concianza, Taiane Arce, Temily Comar, Urbano Palácio
Duração: 108 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.