Crítica | Transparent – 2ª Temporada

estrelas 5,0

Um problema frequente que alguns poderosos dramas na TV (e agora, em serviços streaming) acabam enfrentando é o seguinte: como dar continuidade em tantos e tão profundos conflitos anteriormente levantados sem fazer com que a série estacione em um território confortável e fique por lá? Porque jogar dentro de terrenos conhecidos é fácil e, se anteriormente deu certo, é provável que dará novamente… mas, cabe a pergunta, esta deve ser a postura de um bom showrunner? Para Jill Soloway, que comanda Transparent, não. E isso fica muito claro nesta magnífica segunda temporada da série.

O drama de Mort, um homem de família judaica, casado, com três filhos adultos e que, na terceira idade, resolveu assumir sua transsexualidade e se tornar Maura, nos foi apresentado como uma bomba positiva em 2014. A série, que é produzida pela Amazon e exibida em streaming pela Amazon Video, fez bonito nas premiações às quais foi indicada e ganhou um segundo ano forte, com modelos de roteiro bem diferentes do ano anterior e estrutura de temporada que mostra o quão criativa uma série pode ser e, como bônus, conseguir um espaço importantíssimo para a discussão de gênero e sexualidade na TV e internet, tema hoje tão em alta e em torno do qual tanta ignorância, desinformação e preconceito [ainda] existem.

Para quem esperava uma sequência de episódios com uma história fluída — base que mais ou menos serviu de sustentação para a 1ª Temporada — certamente teve problemas sérios com este segundo ano do show. Agora com personagens apresentados e conflitos iniciais estabelecidos, Jill Soloway resolveu unir acontecimentos da vida dos integrantes da família em formato de “crônica de crises” e realizar uma temporada que em certos blocos é tão realista que nos perguntamos se não estamos assistindo a um excelente reality show. Não apenas Maura, mas toda a família Pfefferman está sob os holofotes e os episódios são divididos em bases em que alguns deles ganham espaço individual ou, em alguns casos, episódios inteiros em que apenas um ou um grupo da família está em evidência.

É preciso observar com atenção a construção da temporada para não atribuir esse modelo de narrativa com “escanteamento” de personagens. Alguns saem de cena para dar lugar a outros e, no montante, temos dramas individuais, fortes e maduros para cada um deles, o que é impressionante para uma temporada de 10 episódios com capítulos de meia hora de duração. Meu único impasse em termos narrativos é o “abandono” de Colton como possibilidade fixa na série. O ator Alex MacNicoll realizou um trabalho tão terno e tão… cômico em um sentido humano e ingênuo que conquistou o espectador e nos fez lamentar o fato do personagem não ter avançado na trama da qual fazia parte, embora seja perfeitamente possível entender o por quê, diante dos acontecimentos posteriores envolvendo Josh e Rachel.

Cada um dos diretores aproveitaram o máximo do relacionamento familiar que claramente tomou conta do elenco, expondo partes diferentes da família exatamente como deveria ser: universos inteiramente distintos que tentam, de alguma forma, conviver. Essa tentativa nem sempre é vitoriosa e a convivência nem sempre é pacífica, o que mais uma vez aproxima a série da realidade, não apenas na apresentação desses conflitos, mas também na qualidade do enredo em que eles aparecem e na profundidade e consequências que os marcam.

E essa marca vem em cada episódio pontuada por um uso bem medido da trilha sonora, dos figurinos e da fotografia, os setores técnicos mais garbosos de Transparent. Isso fica ainda mais evidente porque nesta temporada tivemos uma “história de origem” da família, mais precisamente da mãe de Maura. A primeira incursão desse mundo acontece já no primeiro episódio, Kina Hora, e está integrado intimamente a um dos momentos de celebração ali mostrados. É um enigma que nos dá a entender o passado de alguém, mas não sabemos de quem. É compreensível que alguns espectadores não tenham gostado da forma como esse aspecto foi apresentado e sei que existem tanto pontos que justifiquem isso do lado negativo — desconexão com o andamento das linhas narrativas da temporada –, quando do lado positivo, como complemento inicialmente simbólico ou metafórico e depois cultural e histórico da personagem central.

A inclusão da atriz Cherry Jones no elenco da série, interpretando Leslie, uma professora e militante de causas feministas e de empoderamento feminino eleva o discurso da série para níveis completamente inesperados. Quem está de fora, imagina que entre os grupos considerados ‘minorias’ ou entre os grupos historicamente oprimidos, dominados ou explorados exista um alinhamento de discurso. Mas não é bem assim e o episódio Grey Green Brown & Copper, finale da temporada, expõe isso de uma forma que irá colocar muita gente para pensar, mesmo que sementes dessa discussão já tenham sido plantadas ao longo da temporada inteira.

Da Alemanha no início do governo de Hitler aos Estados Unidos de 2015, esta segunda temporada de Transparent discute gênero, identidade de gênero, sexualidade, transsexualidade, poliamor, normatividades e todo tipo de representação humana em relação ao seu desejo e seu relacionamento íntimo ou emocional com outro ser humano. Não existe hoje uma série que aborde esses temas de forma prioritária, com tanta qualidade e sob um viés crítico, trazendo vários pontos de vista e que, ao mesmo tempo, consegue divertir e emocionar o espectador com a história de uma família que não é nada normal mas, como qualquer outra família, possui aquela semelhança de comportamento que irá tocar a cada um de forma diferente. Jill Soloway ousou inovar, praticamente alterar o formato da série e conseguiu ser ainda mais relevante, intensa e interessante do que na temporada de abertura. Fica cada vez mais difícil esperar pela próxima temporada de Transparent.

Transparent – 2ª Temporada (EUA, 2015)
Direção: Jill Soloway, Marielle Heller, Stacie Passon, Silas Howard, Jim Frohna, Andrea Arnold
Roteiro: Jill Soloway, Micah Fitzerman-Blue, Noah Harpster, Faith Soloway, Arabella Anderson, Our Lady J, Bridget Bedard, Ethan Kuperberg, Ali Liebegott
Elenco: Jeffrey Tambor, Amy Landecker, Judith Light, Gaby Hoffmann, Jay Duplass, Alexandra Billings, Kathryn Hahn, Carrie Brownstein, Melora Hardin, Rob Huebel, Alex MacNicoll
Duração: 30 min. (cada episódio)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.