Crítica | A Sombra de Uma Dúvida

plano crítico A Sombra de uma Dúvida (1943) Shadow of a Doubt

Quando o trem que traz o tio Charlie (Joseph Cotten) para a pequena cidade onde mora a irmã, o cunhado e os sobrinhos se aproxima da plataforma, nós vemos uma exagerada quantidade de fumaça saindo da máquina, um símbolo — dito pelo próprio Alfred Hitchcock como proposital — da sombra, da maldade que chegava àquele lugar. Baseado em uma história de Gordon McDonell, o roteiro quase fantasia uma pequena localidade “pura”, intocada pelo mal, que passa a ter como visitante alguém que se esconde da polícia, suspeito de cometer crimes atrozes contra mulheres viúvas.

A Sombra de Uma Dúvida é um noir que Hitchcock afirmou várias vezes tratar-se de seu filme favorito, dentre os que dirigiu. Nele, o personagem de Joseph Cotten — em uma atuação muito bem dosada entre momentos de ameaça, ira e desfaçatez psicótica — faz a alegria da irmã e principalmente da sobrinha Charlie (Teresa Wright, no início da carreira) quando chega para passar uns tempos na casa. O roteiro explora o cotidiano dessa família dando destaque para a diferença de percepção de mundo que cada um ali tem, o que às vezes nos traz cenas cômicas vindo das crianças e cenas que apontam para a rotina de todos os dias, vindo dos maiores: o trabalho, os afazeres de casa, os pequenos interesses pessoais, a família. Mesmo “fazer algo diferente”, nesse cidade, não é o bastante. É preciso alguém de fora para descortinar o olhar dos residentes frente a diversas coisas: o dinheiro, a pomposa apresentação social, as memórias de infância, o amor. Mas o mesmo catalisador desse novo olhar para as novidades também traz a morte consigo.

A relação entre os personagens aqui pode ter diversas interpretações, indo do mais simples aproveitamento uns dos outros até as muitas interpretações simbólicas possíveis. O próprio filme brinca com essa visão de aproveitamento (em distintos valores morais, claro) entre os personagens, fazendo uma série de referências vampíricas nos diálogos, desde uma literal frase de Drácula (1931), “o mesmo sangue corre pelas nossas veias“, até aproximações bem inseridas no decorrer das cenas, como a comunicação por telepatia entre tio e sobrinha ou a própria forma que o protagonista nos é apresentado na cena inicial do filme. A ameaça que chega à pequena cidade, portanto, ganha um significado ainda maior, mas isso não se torna o cerne da obra, apenas a atmosfera dela. E é em torno disso que o drama de investigação e relações humanas passa a se desenrolar, seguindo a linha básica esperada dos filmes noir, embora haja aqui uma refiguração de quem é o fatale da história.

Hitchcock consegue aproveitar muito bem o mistério e usa de motivos visuais para nos indicar o afastamento de ideias e sentimentos entre tio e sobrinhos (especialmente com as duas meninas). Essa dicotomia nas relações interpessoais vai mudando um pouco o ritmo da montagem no segundo ato, tendo como consequência um bom encaixe inicial com o bloco dos detetives, mas infelizmente uma má resolução (ou temporário afastamento) desse núcleo. Em compensação, o texto mantém a investigação via suspeitas da jovem Charlie, enquanto a câmera passa a mostrar o tio em ângulos diagonais, destacando uma clara perturbação psicológica (a trilha sonora tem grande peso aí também) e o medo de ser descoberto. Daí para frente, no caminho da resolução, volta à tona a ideia de “aproveitamento“, ou seja, a publicidade do caso, na cidade, poderia ser ruim para a família Newton tanto quanto para o criminoso Charlie Oakley. Um verdadeiro dilema em torno da possível punição de um culpado que acaba por punir também os inocentes.

E é justamente nessa punição definitiva que reside o ponto que eu não gosto no filme, nem no texto, nem na execução. Por outro lado, este é um problema isolado, que mesmo nas cenas anteriores e nas poucas cenas posteriores consegue trazer mais equilíbrio (com amarga ironia no roteiro) para o destino dos personagens, amarrando as pontas do romance. O filme é um suspense sobre as “famílias ordinárias“, seus pequenos e grandes problemas, seu amadurecimento, dores, memórias e modos de enfrentar os problemas da vida. Das pequenas fugas através da leitura, da diversão pensando em métodos funcionais de como cometer um assassinato ou divertindo-se conversando sobre os velhos tempos ou participando de eventos locais, é essa vida simples e maravilhosa que Hitchcock encobre, ao menos temporariamente, em uma grande sombra, onde a dúvida de ordem ética, moral e sentimental tem a capacidade de afetar e mudar a todos.

A Sombra de Uma Dúvida (Shadow of a Doubt) — EUA, 1943
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Thornton Wilder, Sally Benson, Alma Reville (baseado em uma história de Gordon McDonell)
Elenco: Teresa Wright, Joseph Cotten, Macdonald Carey, Henry Travers, Patricia Collinge, Hume Cronyn, Wallace Ford, Edna May Wonacott, Charles Bates, Irving Bacon, Clarence Muse, Janet Shaw, Estelle Jewell, Bill Bates, Virginia Brissac, Frances Carson
Duração: 108 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.