Crítica | A Very English Scandal (2018)

plano critico A Very English Scandal

Baseada no livro A Very English Scandal: Sex, Lies and a Murder Plot at the Heart of the Establishment, de John Preston, esta minissérie britânica de três episódios narra os bastidores do Escândalo Jeremy Thorpe, que teve basicamente duas fases, a primeira em 1976, e a segunda, mais conhecida, longa e impactante, entre 1978 e 1979, quando aconteceu o julgamento do importante político por tramar e mandar assassinar Norman Scott (Norman Josiffe), jovem com quem tivera um relacionamento nos anos 1960.

Com roteiro de Russell T. Davies (Doctor Who, Torchwood) e direção de Stephen Frears (Minha Adorável Lavanderia), a minissérie utiliza desse caso real para trazer uma boa dose de questionamentos sobre o exercício da justiça, o papel da mídia no tratamento de algumas situações polêmicas envolvendo “cidadãos respeitáveis” e “cidadãos comuns“, e como a sociedade britânica foi, aos poucos, vendo a discriminação contra homossexuais ser extirpada das leis do país, mesmo que no dia a dia, o preconceito, as risadas e os olhares tortuosos ainda permanecessem. “Atos homossexuais” foram considerado um crime na Inglaterra e no País de Gales até 1967. No restante do Reino, esse tipo de condenação seguiu até 1980, na Escócia, e até 1982, na Irlanda do Norte.

Thorpe é interpretado de maneira brilhante por Hugh Grant. O ator dá ao personagem a aura maquiavélica necessária para um político disposto a fazer qualquer coisa para escalar os degraus hierárquicos do Parlamento, utilizando de sua posição para encobrir atos que, se fossem cometidos por outras pessoas, certamente seriam punidos da maneira severa. E é aqui que o roteiro tem o seu melhor ponto de crítica, ao explorar o quanto um homem de grande influência, como Thorpe, burlou, ao longo das décadas de 1950 e 1960, as leis que criminalizavam a homossexualidade, mesmo com casos a seu respeito chegando às mãos da polícia e sendo rapidamente ignorados e arquivados. Conhecido crítico de questionáveis práticas jornalísticas e estatais, Russell T. Davies utiliza desse escândalo para mostrar como a lei, muitas vezes, serve apenas à uma parcela da população, parecendo apenas um jogo condicional para esses indivíduos, com a frequente certeza de que conseguirão se safar, quando precisarem.

Norman Scott ou Josiffe é interpretado de maneira delicada e ao mesmo tempo apaixonada, cômica e assertiva por Ben Whishaw, capturando muito bem a posição social de um homem publicamente gay, afeminado, que passou a vinda inteira ouvindo todo tipo de preconceito e que, mesmo chorando e se desesperando em particular, consegue manter-se forte o bastante em público, para enfrentar aqueles que queriam destruí-lo. Uma cena icônica a respeito do comportamento do personagem vem em um diálogo entre Thorpe e Peter Bessell (Alex Jennings), quando o primeiro ridiculariza a força pessoal de Norman e Peter diz que, passando por tudo o que ele passou durante a vida, Norman era certamente um dos homens mais durões do mundo.

Em um primeiro momento, a história tem um tom de suspense, do tipo que a qualquer momento irá explodir em uma tragédia. Para quem não conhece todos os desdobramentos do caso — narrado com interessante fidelidade –, o desenrolar dos acontecimentos certamente trarão boas surpresas. Claro que existem coincidências demais, mas acreditem, elas foram retiradas da vida real, tendo apenas alguns poucos ajustes para tornar a trama mais… apimentada. Já no segundo episódio, vemos o roteiro se arrastar sem piedade, explorando de modo inadvertido o cotidiano de Norman e a ascensão política de Thorpe, abrindo caminhos que logo se cruzariam, todavia, em sua apresentação e desenvolvimento, não parecem tão instigantes. Alguns deles aparentam estar na série apenas para cumprir a tag de veracidade histórica, sem ter uma real e importante ligação para com o restante da trama.

No entanto, uma forte crítica em cena e uma excelente reconstrução de personagens e época (em figurinos e precisas escolhas de filtros e cores da fotografia), não dá para desprezar o que os autores nos trazem aqui, principalmente no terceiro episódio, que é bastante ágil, por conta das sequências do julgamento, além de apresentar uma boa aplicação do humor mais o fechamento do ciclo a respeito da posição do Estado e da Justiça diante daqueles socialmente bem colocados no ‘jogo’. Mesmo que se arraste em seu segundo capítulo e não complete algumas das pequenas narrativas paralelas, abertas no decorrer de sua duração, A Very English Scandal traz à tona um tipo de comportamento ainda corrente nos tribunais de justiça ao redor do mundo e um tipo de preconceito que, mesmo não tendo mais nenhum amparo legal na maioria dos países, ainda permanece e ainda segue fazendo mal a todos, daqueles que ainda não saíram do armário até os que vivem abertamente aquilo que são.

A Very English Scandal (Reino Unido, 20 e 27 de maio e 03 de junho de 2018)
Direção: Stephen Frears
Roteiro: Russell T. Davies (baseado na obra de John Preston)
Elenco: Hugh Grant, Ben Whishaw, Alex Jennings, Patricia Hodge, Paul Hilton, Naomi Battrick, Andrew French, Morgan Watkins, Monica Dolan, Jason Watkins, Blake Harrison, Alice Orr-Ewing, Flora Montgomery, Michele Dotrice, Nick Malinowski, Rhys Parry Jones, Dyfan Dwyfor, Marianne Oldham, Arabella Neale
Duração: 3 episódios de 55 min. a 1h

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.