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Crítica | Força Diabólica (1959)

por Rafael Lima
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Os detratores do diretor William Castle o acusavam de ser não um cineasta, mas um publicitário circense; mais interessado nos truques e curiosidades que poderia apresentar para trazer as plateias para as salas de cinema do que nas qualidades estéticas e narrativas de seus filmes. Tal afirmação pode ser questionada, pois há  identidade nas obras do diretor, mas é inegável que Castle via o cinema (o de horror em especial) como um grande espetáculo, cujos fatores externos enriqueceriam a experiência fílmica, que em sua opinião, era coletiva. Essa visão do diretor, que irritou os críticos da época e encantou as plateias, foi observada em filmes como Macabro (1958), onde os ingressos eram acompanhados de seguros de vida caso os espectadores morressem de medo; e A Casa Dos Maus Espiritos (1959)onde um esqueleto de plástico voava sobre a platéia durante o clímax da obra. Mas em nenhum outro filme, o gosto de Castle por espetáculos ficou tão claro quanto em Força Diabólica, onde a narrativa e os truques publicitários se fundiram de forma metalinguística.

Na trama, acompanhamos o Dr. Warren Chapin (Vincent Price), um patologista que acredita que o medo se manifesta em nosso corpo de forma física e palpável. Os experimentos de Warren o levam a descobrir a existência do Tingler (arrepio em inglês), um parasita que surge na coluna humana quando atingimos níveis de medo extremo, e que é enfraquecido e diminuído no momento em que gritamos. Quando o cientista conhece o casal Higgins (Judith Evelyn E Philip Coolidge), que são proprietários de um cinema, surge uma oportunidade única para provar a existência do Tingler.

Partindo de uma premissa que é ao mesmo tempo instigante e absurda, o roteiro de Robb White foca na obsessão do protagonista e, num primeiro momento, no que ele está disposto a fazer ou não para encontrar as respostas que busca. Se o conceito por trás do Tingler pode soar risível nos dias de hoje, é interessante pensar que a ideia de um ser estranho que cresce no interior do nosso corpo até nos matar pode ter soado aterradora para a época, inclusive antecipando conceito semelhante que seria apresentado no clássico Alien. Mas se o Xenomorfo é um corpo invasor, o Tingler é a manifestação de nosso próprio sentimento de medo e impotência que vai nos destruir se esse medo não for externado, o que é um conceito muito intrigante, mesmo que não completamente aproveitado pela obra. 

Interpretado de forma cínica e charmosa por Price, o protagonista Warren Chapin é construído pelo roteiro como um personagem que se importa com aqueles à sua volta, como podemos perceber através de sua relação afetuosa com a sua jovem cunhada Lucy (Pamela Lincoln), e seu assistente Dave (Darryl Hickman). Por outro lado, o filme deixa claro que este é um homem que sabe ser frio e calculista quando é preciso, vide a forma como lida com o problema envolvendo a sua esposa, a infiel Isabel (Patricia Cutts).  Assim sendo, logo que percebe que para capturar um Tingler vivo precisaria de alguém que não pudesse gritar, fica óbvio que o cientista está tendo ideias em relação a Sra. Higgins, a surda muda que conheceu dias antes. É uma pena, portanto, que a verdade sobre a índole de Warren venha cedo demais, tornando a figura do protagonista menos ambígua a partir da segunda metade da obra.

É interessante observar a visão pessimista que o filme tem do casamento. Tanto os Chapin quanto os Higgins são pessoas presas em matrimônios infelizes, onde o amor deixou de existir há muito tempo, e tudo o que sobrou foi uma relação de desprezo e conveniência. Isso é óbvio no caso do protagonista e sua esposa, mas é tratado de forma mais sutil e curiosa com os Higgins, em uma interessante cena onde após acordar de um desmaio, a primeira coisa que a mulher faz é ir checar o cofre. Ainda que apresente um raio de otimismo na relação do casal Lucy e Dave, mesmo ali existe uma sombra, já que o rapaz claramente está seguindo os passos de seu mentor na obsessão em seu trabalho em detrimento de sua companheira (ainda que, pelo menos, Lucy não seja uma psicopata como a irmã).

Apesar de não ser uma obra acéfala, é óbvio que Força Diabólica é um filme muito mais de direção do que de roteiro. William Castle entende o material (e o orçamento) que tem e consegue fazer o longa funcionar mesmo em seus momentos mais Camp. Se o Tingler é responsável por algumas das cenas risíveis, por claramente ser um boneco puxado por um barbante, a cena de introdução da criatura consegue ser arrepiante, onde Castle filma a silhueta de Warren arrancando com extremo esforço a criatura da coluna da Sra. Higgins. A força que o cientista parece fazer e a horrível silhueta do parasita é forte o suficiente para nos convencer de sua periculosidade, mesmo quando o vemos de fato, e constatamos a natureza artificial do boneco usado para criá-lo. 

Apesar da boa introdução, o filme ainda poderia ter caído no ridículo se não houvesse uma atmosfera coerente para o surgimento de tal criatura. Desde a cena inicial, quando o próprio Castle surge na tela para introduzir o filme (em uma emulação jocosa da abertura de Frankenstein), o cineasta já confere ao filme uma aura teatral que permite maior suspensão de descrença. Essa proposta está presente também na mise en scéne empregada, bastando observar como é conduzida a cena onde o Dr. Chapin sofre alucinações auto induzidas por LSD para testar quanto tempo pode aguentar a força do medo sem gritar; além da teatral sequência em que a pobre Sra. Higgins é aterrorizada em seu apartamento, em uma passagem que lembra um verdadeiro túnel do horror.

Esse clima teatral atinge o seu ápice quando o Tingler escapa e se refugia em um cinema. Na época do lançamento, Castle mandou instalar em algumas poltronas um sistema chamado percepto, que fazia com que determinadas poltronas vibrassem justamente quando o personagem de Vincent Price apaga as luzes do cinema dentro do filme, declarado que o parasita gigante está solto na sala, e que todos deveriam gritar por suas vidas. Ou seja, Força Diabólica propõe interatividade entre o público e a obra, pois os gritos da plateia (a plateia real) podem muito bem ser aqueles que vão enfraquecer o Tingler para que Price possa recapturá-lo. Falando no ator, Vincent Price é a alma deste filme, conseguindo abraçar toda a teatralidade proposta pela obra, mas sem perder a dignidade que o seu personagem exige.

O grande problema de Força Diabólica é que a partir do momento em que o Tingler entra em cena, o roteiro parece abandonar tramas e personagens apresentados anteriormente. Lucy e Dave perdem completamente a função, enquanto Isabel, após uma ação grave contra o marido, simplesmente desaparece por também já não ter mais o que fazer na narrativa. Um pouco mais de cuidado com esses coadjuvantes, que haviam sim apresentado um bom potencial, teria feito muito bem ao filme. Dito, isso, o filme de William Castle ainda é uma experiência cinematográfica bastante intrigante. Mesmo tendo assistido em um formato bem diferente do que aquele imaginado por seu diretor, Força Diabólica ainda consegue transmitir a sensação lúgubre e um pouco ridícula (no bom sentido) de se estar dentro de um velho túnel do horror. Pois para Castle, cinema era isso, um bom parque de diversões.

Força Diabólica (The Tingler)- Estados Unidos, 1959
Direção: William Castle
Roteiro: Robb White
Elenco: Vincent Price, Judith Evelyn, Philip Coolidge, Patricia Cutts, Darryl Hickman, Pamela Lincoln, Dal McKennon, Bob Gunderson, Pat Colby
Duração: 82 min.

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