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Crítica | Meu Coração Só Ira Bater Se Voce Pedir

por Iann Jeliel
357 views (a partir de agosto de 2020)
Meu Coração Só Ira Bater Se Voce Pedir

SPOILERS!

Sou grande admirador da A24, especialmente pela grande guinada que ela proporcionou ao gênero de terror qualitativamente na última década. Depois de A Bruxa, o terror passaria por uma nova tendência remetente ao ciclo dos anos 60-70, com uma série de filmes vanguardistas diante do movimento mais popular da época, no caso, o final dos monstros da Universal, e hoje, o sobrenatural de “susto”, passando a assumir uma vertente mais psicológica e sugestiva, que desconstrói mitos tradicionais da iconografia do terror sobre perspectivas sociais modernas.

Acontece que esse legado da A24, construído juntamente com a Blumhouse, trouxe exemplos da vertente psicológica flertando tanto com a sugestão, que esqueceria o pertencimento ao seu gênero primordial.  É a chamada “gourmetização do terror”, um debate iniciado na criação termo “pós-terror” e sempre reforçado a cada novo filme que parecia mais um drama do que um filme de terror. Por mais que não concorde totalmente com as acusações dessa amálgama de certos filmes da A24, é inegável que dentro da nova tendência existem sim os exemplares que usam o discurso dramático querendo desviar do gênero de origem… para desqualificá-lo.

Infelizmente, é exatamente esse o caso de Meu Coração Só Ira Bater Se Voce Pedir, um filme que parece ter vergonha até mesmo de admitir que seus personagens são vampiros, o que é um completo absurdo. Veja só, se busca desconstruir figuras clássicas do terror sobre diferentes perspectivas, o mínimo solicitado é saber quais são as suas características, algo que o estreante Jonathan Cuartas simplesmente desconhece ou não liga em usar, porque simplesmente as ignora a favor de um drama xoxo e sem qualquer peso. Em filme de terror, o drama deve ser potencializador, seja das vítimas, seja dos vilões, seja de quem for, nunca deve ser o contrário, porque se constrói o terror em volta do drama, nenhum dos dois funciona.

É exatamente o que ocorre nesse filme. Os personagens dramatizados são completamente apáticos, porque não dá para comprar nem que são vampiros. A todo momento os diálogos tentam desviar-se desse fato para reforçar o drama do irmão mais novo, vitimizando a sua condição para uma “doença”, já que ele não pode ter ciência de que sua condição o leva à violência. É um drama sobre a vontade imposta de dois familiares a um outro o que, em tese, podia ser até interessante – algo próximo a Amantes Eternos – se tivesse minimamente a honestidade de abraçar a desconstrução proposta. Fica nesse joguinho de implementar uma ou outra característica para forçar o público a montar desnecessariamente um quebra-cabeça que é só a premissa. Como se fazer mistério sobre a condição de vampiro ajudasse em algo.

Mas isso só atrapalha e causa um estranhamento gratuito para, mais tarde, quando finalmente deixar óbvio o tema, esperar que a subversão seja suficiente para aliar-se ao desenvolvimento. É deveras prepotente da parte do cineasta estabelecer sua decupagem através dessa síndrome do independente que acha que a contemplação pela contemplação resolve tudo. Não, não resolve. Em se tratando de um filme de terror, a sugestão deve comunicar. A incerteza deve fazer temer. E o lado humano precisa ser tangível com a realidade, e não há nada disso aqui. São só situações rotineiras de pessoas estranhas que você descobre serem vampiras ao final, e isso deveria ser suficiente para o espectador se importar com o que foi mostrado antes.

Era preciso fazer sentido antes para ser bem desenvolvido depois, tornando-se importante por último. Com esses processos, todos fora de ordem, não sobram ideias que sustentem a investida final do terror – tornando-o até gratuito – nem que justifiquem o vazio dos blocos anteriores. Podiam mudar  o “pós-terror” para filmes tão ruins que nem parecem terror, assim, esse filme poderia ser classificado em algum gênero.

Meu Coração Só Ira Bater Se Voce Pedir (My Heart Can’t Beat Unless You Tell It To | EUA, 2020)
Direção: Jonathan Cuartas
Roteiro: Jonathan Cuartas
Elenco: Ingrid Sophie Schram, Patrick Fugit, Owen Campbell, Moises L. Tovar, Judah Bateman, Katie Preston, Anthony Pedone, Jon Rhoads, Ivanna Picon, Nancy Fong, Micah White, Colby Frazier, June Frazier, Sarah Longoria, Steve Brown
Duração: 90 minutos

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