Crítica | O Homem Que Fazia Chover

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Baseado no livro homônimo de John Grisham, O Homem Que Fazia Chover acompanha o novato advogado Rudy Baylor (Matt Damon) recém-contratado após sair da universidade. Ao se deparar com uma realidade formada por colegas de profissão corruptos e negligentes, o garoto se agarra à lei em sua totalidade, seguindo-a e respeitando-a com todas suas forças. Em seu primeiro caso, e tendo apoio para tanto de Deck (Danny DeVito), Rudy deve defender a causa de Dot (Mary Kay Place) e seu filho Donny Ray (Johnny Whitworth), jovem que sofre de leucemia e que teve seu transplante negado pela companhia de seguros, sendo essa representada pelo experiente Leo Drummond (Jon Voight). Em meio a isso, Rudy se envolve com Kelly (Claire Danes), uma jovem que frequentemente é espancada por seu marido.

Concebido pelo diretor de fotografia John Toll como um universo onde predominam tons de cinza, refletindo a melancolia dos clientes e a ambiguidade moral dos advogados, O Homem Que Fazia Chover não perde tempo ao deixar claro que enxerga seus personagens como atrocidades que buscam o lucro fácil a qualquer custo – com exceção, claro, dos personagens de Damon e DeVito. Logo no início, o roteiro adaptado escrito por Francis Ford Coppola (que também assina a direção) e Michael Herr (que contribuiu apenas na narração) explicita para o espectador que os personagens defensores da lei que fazem parte daquela história são verdadeiros tubarões atrás de suas presas – e é claro que os melhores lugares para encontra-las são justamente os hospitais, em uma analogia irônica e eficiente.

Em mais uma adaptação para as telonas de obras de John Grisham (como A Firma e O Cliente, para citar apenas duas das mais conhecidas), após os interessantes minutos iniciais, O Homem Que Fazia Chover se perde em uma narrativa sem fôlego e aborrecida. A começar pelo envolvimento entre Rudy e Kelly, que avança de maneira extremamente superficial, pois logo na primeira cena após se conhecerem eles já estão trocando carícias em uma óbvia tensão sexual que jamais funciona. Deste modo, a relação do casal em potencial transcorre sem a química necessária, desperdiçando a personagem e a atuação de Danes e ocasionando certo inchaço ao filme.

Já o envolvimento de Rudy com a família que irá defender a causa, principalmente com o acamado garoto Donny Ray, também é prejudicado pela dificuldade de Coppola em injetar emoção e energia nessas relações, filmando tudo com certa frieza que impede nosso envolvimento emocional com os personagens. E isso se revela como um dos grandes obstáculos para o sucesso do filme, pois o caso defendido pelo personagem de Matt Damon trata-se do fio condutor de toda a narrativa – afinal, se não investimos nossas emoções e sentimentos em tais personagens, tal como o protagonista o faz, como podemos nos importar com eles?

Assim, se as cenas que se passam no tribunal (no verdadeiro embate entre Rudy e o personagem do veterano Jon Voight) são as mais envolventes do filme, é graças ao trabalho da dupla de atores e da dinâmica estabelecida entre seus papéis, e não exatamente pela causa a qual eles se encontram ali. Contrapondo a experiência prática de Leo Drummond com o conhecimento teórico do recém-formado Rudy Baylor, a guerra de oratória vivenciada pela dupla resguarda os melhores momentos deste O Homem que Fazia Chover. E a composição de Voight e Damon nesse aspecto não poderia ser mais eficaz: enquanto o primeiro surge com a voz segura e firme, o segundo mal sabe como se portar dentro do tribunal – e Damon exibe seu talento ao transmitir ao espectador que seu personagem pisa em terrenos desconhecidos ao fornece-lo uma voz trêmula e insegura que, de maneira sutil, vai se transformando com o desenvolvimento da narrativa.

E se Voight mantém sua caracterização durante todo o filme, mesmo com óbvias pinceladas de humor em seu personagem, Matt Damon consegue ser carismático como de costume, mas sofre pelo seu deslocado romance, como já citado. Já Deck Shifflet, personagem de Danny DeVito, funciona como porta de entrada no universo da advocacia e também como braço direito para o protagonista do filme, mas se torna uma figura mais esquecível do que aparenta, dada sua relevância em cena. Danny Glover como o juiz Tyrone Kipler impõe sua voz e o devido respeito à sua figura, sem deixar de ser carismático, enquanto Mary Kay Place como Dot Black se esforça como a mãe angustiada vendo seu filho em tamanho sofrimento, mas é desperdiçada pela condução sem inspiração de Coppola.

Deixando de lado a abordagem crítica da faceta impiedosa e truculenta dos advogados a medida que a projeção avança, é lamentável constatar que, salve as cenas no tribunal, O Homem Que Fazia Chover nos traga Francis Ford Coppola por trás das câmeras no piloto automático, em um filme que inúmeras vezes indica que vai engrenar, mas que nunca consegue se livrar do ritmo morno e irregular. Nem o elenco estelar consegue salvar essa obra do esquecimento.

O Homem Que Fazia Chover (The Rainmaker, Alemanha/EUA, 1997)
Direção: Francis Ford Coppola
Roteiro: Francis Ford Coppola e Michael Herr (baseado no livro de John Grisham)
Elenco: Matt Damon, Danny DeVito, Claire Danes, Jon Voight, Mary Kay Place, Dean Stockwell, Teresa Wright, Virginia Madsen, Mickey Rourke, Andrew Shue, Red West, Johnny Whitworth, Roy Scheider, Danny Glover
Duração: 135 min.

LUIS EDUARDO BERTOTTO . . . Quando vi pela primeira vez Marty McFly viajar para 1955, passei a me interessar pelo fabuloso e caótico processo construtivo de um filme. Desde então, venho me fascinando e me surpreendendo cada vez mais pela composição das mise-en-scènes e a forma com que elas enriquecem o universo de uma produção cinematográfica. Não apresento restrições a gêneros e épocas – pelo contrário, apenas tenho uma leve queda pela explosão criativa dos anos 70 e possuo uma adoração descomunal pela obra de Scorsese. Em suma, um estudante de engenharia civil que, em meio à correria do dia a dia, encontra abrigo na arte das imagens em movimento e no som psicodélico e poético de Floyd.