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Crítica | Os Intocáveis (1987)

por Luis Eduardo Bertotto
751 views (a partir de agosto de 2020)

A Lei Seca dos Estados Unidos, ou Prohibition, que durou de 1920 até 1933, foi um período em que a produção, o transporte e o consumo de bebidas alcoólicas eram vetados por todo o território norte-americano. É neste contexto, mais especificamente no ano de 1930, que se passa este Os Intocáveis, filme dirigido por Brian De Palma. A trama acompanha Eliot Ness (Kevin Costner), um agente federal que chega à cidade de Chicago para combater a venda ilegal de bebidas, cuja é arquitetada e comandada pelo chefão Al Capone (Robert De Niro). Após uma tentativa de apreensão que resulta em fracasso, o recém-contratado policial resolve montar uma equipe para batalhar contra a venda de bebidas alcoólicas – equipe esta formada por Jim Malone (Sean Connery), George Stone (Andy Garcia) e Oscar Wallace (Charles Martin Smith). Juntos, os quatro homens formam um grupo que passa a ser conhecido como Intocáveis.

Escrito por David Mamet e baseado no livro de Oscar Fraley e Eliot Ness, e na série de televisão The Untouchables (1959-1963), Os Intocáveis é um filme que trata seus personagens como verdadeiros heróis americanos. Pouco importa para o roteirista contra o que exatamente eles lutam, pois o que vale é o fato de que eles enfrentam algo que é errado perante a Lei; neste aspecto, o grupo que dá título ao filme representa a Lei na sua forma mais pura e correta. E isto é formidável, tendo em vista que o título que o grupo recebeu foi em função justamente da firmeza dos seus integrantes frente às tentativas de suborno e a pressões de diversos tipos que sofriam de variados membros da sociedade (desde políticos até os próprios colegas de profissão).

Aproveitando esta abordagem feita dos personagens, De Palma não mede esforços para que o espectador os enxergue da maneira heroica com que foram concebidos. Assim, usando como muleta a evocativa trilha sonora de Ennio Morricone, é uma pena que em alguns momentos o cineasta escancare esta característica do material que tem em mãos, como quando o grupo faz uma visita repentina aos Correios da cidade. Neste sentido, o diretor também pesa a mão na própria concepção do universo de sua obra: se por um lado as ruas de Chicago são retratadas de tal forma que surgem maiores, desabitadas e mais limpas do que o habitual (indicando o quão menor a população era naquela época), por outro ele exagera na exposição do estilo de vida representado pelo american way of life tão em voga nos anos 1920 e 1930 – e as cenas embaladas pela trilha de Morricone que envolvem a família de Ness são particularmente desconfortáveis de se ver.

Mas se a trilha é mal utilizada por De Palma nestes instantes, o mesmo não pode ser dito do restante do filme. Seja na construção de momentos mais tensos e agitados, seja em momentos mais sentimentais e tocantes, o cineasta acerta em cheio, e o trabalho do genial compositor é irrepreensível e de grande importância para o funcionamento da narrativa.

Novamente quanto à estratégia dos realizadores do filme em enxergarem seus personagens como heróis, não há duvidas de que, se há alguém que consegue construir um policial pai de família com um tom heroico que funciona sem soar batido e clichê, este alguém é Kevin Costner. O ator surge em cena na pele de seu Eliot Ness com enorme carisma e com um ar pacífico, calmo e determinado, de tal forma que é praticamente impossível não aderir à sua causa. E se Andy Garcia e Charles Martin Smith pouco podem fazer em seus limitados papéis como, respectivamente, George Stone e Oscar Wallace – basta que saibamos que eles estão ali para fazer o bem –, o mesmo não se pode dizer sobre Sean Connery como o veterano Jim Malone, em um trabalho que lhe rendeu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Interpretando seu papel de maneira natural e confortável (o que é importante para que não desconfiemos de tudo o que sabe), Connery entrega uma atuação enérgica e intensa, mas sem, com isso, abrir mão do carisma e do humor na composição de seu personagem – o que faz com que seus momentos de raiva e fúria surjam ainda mais perigosos para os capangas de Capone.

E por falar em Al Capone, um dos maiores gângster de todos os tempos, é uma pena que o trabalho que Robert De Niro entrega seja bastante irregular. Se o ator é hábil ao usar o humor para esconder a faceta impiedosa de seu personagem quando este está com seus subordinados, ele falha ao compor Capone quando este está em público, ao surgir sempre de maneira caricata e forçada (como se cada fala sua tivesse que ser uma piada), comprometendo o seu trabalho como um todo. Como se isto não bastasse, De Palma não consegue transmitir para o espectador o verdadeiro império que o poderoso gângster construiu – perceba que, ao longo da projeção, diversas cenas tentam ilustrar a influência de Capone em todos os lugares, mas sem alcançar a magnitude necessária para causar o impacto desejado.

Mas a principal característica deste Os Intocáveis é, sem dúvida alguma, a forma extremamente estilizada com que o universo e os personagens que o habitam são retratados: a câmera de De Palma é de um esplendor invejável, contando com movimentos elegantes e enquadramentos econômicos e memoráveis; os figurinos belíssimos de Marilyn Vance (fornecidos por ninguém menos do que o estilista italiano Giorgio Armani), em particular os ternos, possuem textura e composição de encher os olhos; e a direção de fotografia de Stephen H. Burum banha os cenários e os figurinos com cores quentes e intensas, tornando a experiência visual fornecida pelo longa um espetáculo à parte. Também, perceba o cuidado do departamento de arte do filme ao compor os cenários vistos ao longo da projeção, desde os luxuosos aposentos de Capone até as escadarias gastas da estação de metrô, passando pelo humilde apartamento de Malone.

O espectador não consegue desgrudar os olhos da tela. Não apenas pela estética apurada do filme, mas também pela direção precisa de De Palma. Além do ritmo envolvente que fornece ao seu trabalho, o cineasta demonstra domínio absurdo sobre a construção de cenas tensas e angustiantes – ironicamente, deliciosas de se ver. Assim, a cena que se passa no apartamento de Malone, onde uma câmera subjetiva é utilizada; os eventos que se desenrolam na casinha da fronteira dos EUA com o Canadá; e a icônica sequencia na estação de trem ilustram muito bem a habilidade de De Palma por trás das câmeras. E estas cenas são tão bem conduzidas que, infelizmente, algumas outras empalidecem diante delas — como a perseguição vista no terceiro ato.

E desta forma chegamos ao fim deste Os Intocáveis. É surpreendente constatar que mesmo tantos anos depois desde o seu lançamento, o filme não envelheceu em praticamente nada. De fato, o longa possui deslizes, mas para cada deslize existe uma estratégia certeira dos seus realizadores. Em suma, um trabalho extremamente vigoroso e recheado de energia, com um aspecto visual primoroso, uma direção hipnotizante, um elenco eficaz e diversos momentos memoráveis. Um grande trabalho dos anos 80 que sobreviveu bem ao tempo e continua sendo uma excelente pedida quando se trata de Cinema de qualidade.

Os Intocáveis (The Untouchables, EUA, 1987)
Direção: Brian De Palma
Roteiro: David Mamet (baseado no livro de Oscar Fraley e Eliot Ness e no seriado The Untouchables)
Elenco: Kevin Costner, Sean Connery, Charles Martin Smith, Andy Garcia, Robert De Niro, Richard Bradford, Jack Kehoe, Brad Sullivan, Billy Drago, Patricia Clarkson, Vito D’Ambrosio, Steven Goldstein, Robert Swan
Duração: 119 min.

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21 comentários

Leonardo Santana de Souza 8 de dezembro de 2019 - 09:51

O diretor tenta mostrar os protagonistas como heróis, afinal isto está no sangue dos americanos, mas no final um deles se revela não mais que um vingador. O filme é imoral.

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Eckhart Muller 20 de novembro de 2019 - 17:35

Parabéns pela crítica ! Acabei de assistir o filme da Paramount . É maravilhoso , desde os atores ( principalmente Kevin Costner e Sean Conery ) e as cenas espetaculares ( principalmente na estação de trem ) . Fiquei hipnotizado na tela do início ao fim .

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pabloREM 27 de março de 2018 - 13:34

Tenho esse filme em DVD. Acho que dos filmes roteirizados pelo David Mamet é meu predileto juntamente com O Sucesso A Qualquer Preço. Tudo no filme para mim se encaixa e a direção de Brian de Palma é soberba. Eu não sou dado a termos técnicos, mas para mim ninguém faz movimentações de câmera nas cenas como ele, talvez o David Fincher chegue perto.

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Luis Eduardo Bertotto 31 de março de 2018 - 11:59

Bem colocado Pablo! Os movimentos de câmera de De Palma realmente são um show a parte não apenas neste Os Intocáveis, mas em diversos outros filmes do cineasta.
Concordo também quanto a colocação que fez de Fincher, um dos melhores diretores dos nossos tempos…

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pabloREM 27 de março de 2018 - 13:34

Tenho esse filme em DVD. Acho que dos filmes roteirizados pelo David Mamet é meu predileto juntamente com O Sucesso A Qualquer Preço. Tudo no filme para mim se encaixa e a direção de Brian de Palma é soberba. Eu não sou dado a termos técnicos, mas para mim ninguém faz movimentações de câmera nas cenas como ele, talvez o David Fincher chegue perto.

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Madex 15 de março de 2018 - 12:49

Tinha uma fita vhs com esse filme gravado (junto com Robocop e 3 Solteirões e um Bebê) desde os 12,13 anos (tenho 40). Sei todas as falas dubladas desses filmes de cor. Sempre foi um dos meus filmes preferidos.

“Vamos fazer o que é certo!”

“Como sabia que eu estava armado?” “Quer uma lição grátis de trabalho policial?”

“Se você não quer uma maçã podre, não tire do cesto. Vá tirar da árvore”

“Senhor Ness… todo mundo sabe onde a bebida está. O problema não é encontrá-la. É quem se dispõe a enfrentar Al Capone.” “É bom que esteja certo, Malone.”

“Vocês se acham os Intocáveis, os inatingíveis!”

“Eu não aprovo seus métodos.” “É? Pq você não é de Chicago.”

“Aqui termina a lição.”

Responder
Luis Eduardo Bertotto 16 de março de 2018 - 01:05

Que baita trio de filmes, Madex! Pura nostalgia…
É interessante observar que você guardou todas estas falas e perceber que o filme possui não apenas cenas memoráveis, mas também inúmeros diálogos que ficam na memória…

Responder
Luis Eduardo Bertotto 16 de março de 2018 - 01:05

Que baita trio de filmes, Madex! Pura nostalgia…
É interessante observar que você guardou todas estas falas e perceber que o filme possui não apenas cenas memoráveis, mas também inúmeros diálogos que ficam na memória…

Responder
Madex 15 de março de 2018 - 12:49

Tinha uma fita vhs com esse filme gravado (junto com Robocop e 3 Solteirões e um Bebê) desde os 12,13 anos (tenho 40). Sei todas as falas dubladas desses filmes de cor. Sempre foi um dos meus filmes preferidos.

“Vamos fazer o que é certo!”

“Como sabia que eu estava armado?” “Quer uma lição grátis de trabalho policial?”

“Se você não quer uma maçã podre, não tire do cesto. Vá tirar da árvore”

“Senhor Ness… todo mundo sabe onde a bebida está. O problema não é encontrá-la. É quem se dispõe a enfrentar Al Capone.” “É bom que esteja certo, Malone.”

“Vocês se acham os Intocáveis, os inatingíveis!”

“Eu não aprovo seus métodos.” “É? Pq você não é de Chicago.”

“Aqui termina a lição.”

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Paulo Roberto 13 de março de 2018 - 10:25

Acho que a melhor cena do Robert De Niro nesse filme é aquela do jantar, onde ele reúne seus comparsas e o seu indefectível taco de beisebol.

Responder
Luis Eduardo Bertotto 13 de março de 2018 - 15:03

Certamente Paulo! Esta cena é a que melhor ilustra a forma com que De Niro mascara a personalidade violenta de Capone através do humor. Mesmo que o ator exagere na composição em alguns momentos (como comentei na crítica), seu trabalho continua sendo muitíssimo eficaz! 😀

Responder
Luis Eduardo Bertotto 13 de março de 2018 - 15:03

Certamente Paulo! Esta cena é a que melhor ilustra a forma com que De Niro mascara a personalidade violenta de Capone através do humor. Mesmo que o ator exagere na composição em alguns momentos (como comentei na crítica), seu trabalho continua sendo muitíssimo eficaz! 😀

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Paulo Roberto 13 de março de 2018 - 10:25

Acho que a melhor cena do Robert De Niro nesse filme é aquela do jantar, onde ele reúne seus comparsas e o seu indefectível taco de beisebol.

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Joly81 12 de março de 2018 - 08:49

Se eu tivesse que fazer um top 10 dos meus filmes favoritos, esse talvez estaria entre os cinco. Marcou minha infância, simplesmente. Preciso rever urgentemente. Acho que a atmosfera heroica sempre foi o grande charme do filme, juntamente com aquele ar incorruptível dos Untouchables.. E a morte do personagem de Connery foi uma das mais impactantes da minha experiência cinematográfica. É uma morte que vc realmente se importa.

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Luis Eduardo Bertotto 13 de março de 2018 - 15:00

Com certeza o tom heroico é um dos grandes atrativos do filme, mesmo que De Palma em alguns raros momentos exagere na dose…
Mas é fato que a morte de Malone realmente é sentida pelo público – aqui sim, o cineasta acerta em cheio ao construir a cena em um primeiro momento através de uma tensão crescente, e posteriormente, de maneira tocante e intimista, tornando impossível não sentir o momento junto dos personagens.

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Luiz Santiago 11 de março de 2018 - 14:48

Aquela cena da casinha na fronteira, que você cita, é realmente sensacional. Mesmo com os pequenos tropeços, é um dos filmes do diretor que eu mais gosto! Adoro a estilização, as referências, os valores de época pelas lentes do De Palma. Bela crítica, parceiro!

Responder
Luis Eduardo Bertotto 12 de março de 2018 - 00:33

Obrigado Luiz!
Com certeza, estes equívocos pouco afetam no resultado final do filme, o que comprova o quão poderoso ele é. De Palma dirigiu outros grandes filmes, mas este é inegavelmente um de seus melhores trabalhos.

Responder
Luis Eduardo Bertotto 12 de março de 2018 - 00:33

Obrigado Luiz!
Com certeza, estes equívocos pouco afetam no resultado final do filme, o que comprova o quão poderoso ele é. De Palma dirigiu outros grandes filmes, mas este é inegavelmente um de seus melhores trabalhos.

Responder
Luiz Santiago 12 de março de 2018 - 00:53

Concordo plenamente contigo! Um dos melhores do diretor, com certeza!

Responder
JC 11 de março de 2018 - 12:22

Vi esse filme gurizinho e até hoje me lembro.
Coisa maravilhosa!

Responder
Luis Eduardo Bertotto 12 de março de 2018 - 00:30

Um filmaço com muitos momentos memoráveis JC, que com certeza ficam nas lembranças por muito tempo!

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