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Crítica | Uma Saída de Mestre (2003)

por Leonardo Campos
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No texto Velocidade Como Reafirmação da Masculinidade, tracei um panorama de produções que envolvem carros em ritmo frenético nas pistas e condutores que utilizam tais máquinas como veículos condutores para a exacerbação de suas masculinidades reprimidas. Uma Saída de Mestre, de 2003, foi um dos mencionados brevemente, produção que se encaixa neste segmento, mas possui outras discussões sobre lealdade, amizade, trapaças e jogos de interesses envoltos numa atmosfera de muita sensualidade. Interessante que na temática tangencial, podemos contemplar ao longo dos 111 minutos da narrativa, a importância da relação do ser humano com os mecanismos que regem as suas mobilidades urbanas, setor fundamental para o grande plano final que demarca o ponto alto da história, algo que mexe com engenharia de tráfego, hackers e pessoas altamente influenciadas pela adrenalina corrente em suas veias.

Dirigido por F. Gary Gray, cineasta guiado pelo roteiro de Donna e Wayne Powers, inspirados no roteiro original de 1969, assinado por Troy Kennedy- Martin, clássico com Michael Caine como protagonista. Na linha da cartilha de filmes de assalto frenéticos, Uma Saída de Mestre nos apresenta um assalto milionário em Veneza, comandado por John Bridgen (Donald Sutherland), um bandido das antigas que está com planos de se aposentar. Numa situação bastante específica, ele e seu grupo são traídos por Steve Frezelli (Edward Norton), integrante da gangue que além de ter levado uma imensa quantidade de dinheiro, aniquilou a vida de Bridgen, um homem muito querido por seus pupilos, em especial, Charlie Croker (Mark Wahlberg). Quando ele encontra com Stella (Charlize Theron), a filha do mentor morto no ato de traição, tudo indica que será companheiro dos planos da moça esperta e ágil como o pai: vingar-se de Frezelli.

Diante do exposto, ao circundar pelos espaços urbanos e movimentados do design de produção de Charles Wood e Diego Loreggian, os personagens principais e secundários dessa dinâmica história expõem as suas necessidades dramáticas em diálogos interessantes, construídos com algum cuidado, para permitir que a narrativa avance sem ser exclusivamente um filme de ação com explosões, carros em altíssima velocidade e manejos de hackers em territórios ciberculturais que atingem as camadas dos relacionamentos humanos em suas interações físicas. O desfecho, como já é de se esperar, soa previsível, mas entretém sem abusar de nosso intelecto com as habituais cenas estúpidas e profusão de arquétipos irritantes, como ocorre com frequência no cinema de ação hollywoodiano. Stella, cabe ressaltar, é uma mulher que assume posto de comando, algo que permite ao filme ir além também neste quesito, há duas décadas, colocando a mulher numa posição que não é central, mas possui algum prestígio diante do manancial de estereótipos femininos no segmento em questão, geralmente voltado para os homens.

Ela é esperta, ágil e perita em abrir cofres, mas para atender aos pedidos de empresas e demandas governamentais, sem associação com nada criminoso até quando se envolve na vingança contra o responsável pelo destino de seu pai. As cenas de ação e perseguição possuem muito de sua presença, somada aos participantes do processo, uma equipe verdadeiramente unificada, afinal, todos querem faturar algo e dar o troco no traidor interpretado por Edward Norton. O piloto de fuga é Rob (Jason Statham), o especialista em explosivos é Ouvido Esquerdo (Mos Def), o hacker é Napster (Seth Green) e na liderança da ação está Stella, acompanhada de Charlie, candidato ao posto de namorado da jovem com os mesmos interesses que os seus.

Para contar a sua empolgante história, os realizadores de Uma Saída de Mestre trouxeram Wally Pfister para assumir a sedutora direção de fotografia do filme, repleta de planos aéreos e cenas internas nos automóveis dos condutores que nos permitem sentir a sensação de adrenalina que percorre o enredo com altas doses de emoção, sem deixar a desejar em nada além de seu longo tempo de duração, isto é, quase duas horas, utilizadas para narrar uma história que poderia durar 20 minutos a menos sem prejudicar a sua qualidade dramática que já não é das grandes. Isso não implica no desenvolvimento dos personagens como figuras inexpressivas ou pela ausência de bons diálogos. O ponto aqui é a ausência de material para esticar tanto algo que poderia ser mais direto e objetivo, permitindo aos editores Christopher Raiser e Richard Francis, resumir um pouco mais e passar a tesoura nalgumas passagens que não fariam diferença se suprimidas.

A trilha sonora de John Powell, tomada por ritmos que vão do samba ao rock eletrônico, empolga e dinamiza as cenas de ação adornadas pelos efeitos visuais supervisionados pela equipe de Scott Anderson. Ademais, Uma Saída de Mestre nos faz pensar a importância da conexão entre setores que regem a mobilidade urbana das grandes metrópoles contemporâneas. Uma manipulação inadequada nos semáforos pode colocar uma cidade a mergulhar no caos absoluto. Aqui, Napster é o personagem responsável por adentrar no sistema de engenharia de tráfego de Los Angeles e bagunçar a dinâmica da mobilidade das pessoas que sequer imaginam que precisarão enfrentar mais obstáculos além dos triviais e já numerosos em seus respectivos cotidianos. Num mundo que pede redução da velocidade em áreas mais centrais, os personagens desta aventura driblam e subvertem em prol de suas necessidades dramáticas velozes e furiosas, movidos por suas cargas emocionais explosivas.

Uma Saída de Mestre (The Italian Job, Estados Unidos/Itália, 2003)
Direção: F. Gary Gray
Roteiro: Donna Powers, Wayne Powers
Elenco: Charlize Theron, Donald Sutherland, Edward Norton, Jason Statham, Mark Wahlberg, Mos Def, Seth Green
Duração: 110 min.

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