Crítica | Watchmen – 1X01: It’s Summer and We’re Running Out of Ice

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__ Black Oklahoma was delightful.

__ You are not allowed to call it that.

It’s Summer and We’re Running Out of Ice é um verso da canção Pore Jud Is Daid, presente no musical Oklahoma!. Nessa estreia de Watchmen, show criado por Damon Lindelof e causa principal da terrível epidemia consumidora de cérebros conhecida pelo nome científico de “não toque no meu gibizinho!” [ih, alá o crítico falando gibizinho; nossa que falta de respeito com Watchmen, aposto que nunca leu e… leia a minha crítica completa da HQ aqui], esse verso é usado como título para lembrar algo muito importante. O momento em que tudo muda nesse Universo. Contando com a já esperada maldição e desaprovação de Alan Moore, a série tem como proposta explorar os eventos depois do Efeito Lula-Lelé, com uma América sofrendo as consequências da paz a todo o custo, e vendo, mais uma vez, o ressurgimento de um forte movimento supremacista branco… diante do qual esse piloto é construído. Também é válido dizer, para quem ainda tem dúvidas, que a série não leva em consideração os filmes, mas estreita semelhanças temáticas porque vem da mesma fonte.

A primeira questão é: como fundamentar uma continuação de Watchmen? E essa pergunta pode ser feita tanto pelos desafetos tentando questionar a existência da série, quanto dos genuinamente interessados naquilo que a produção tem para oferecer. A resposta, se a gente parar para pensar com cuidado, vem justamente pela coesão narrativa que se pode tirar do final original (e emprestando alguns ingredientes de Relógio do Juízo Final para confirmar que esse pensamento é correto): o plano de Ozymandias deu certo, ao menos por algumas décadas. Sem um inimigo externo com que se preocupar e a quem dirigir ódio, o avanço do tempo reacendeu velhos problemas sociais internos, principalmente dois dos mais frequentes problemas de qualquer nação contemporânea: os problemas de raça (evidenciado nesse episódio a partir de uma abordagem ligada à segurança pública e ao nacionalismo étnico) e de classe (posto apenas nas entrelinhas, mas que deve receber maior marca nos capítulos seguintes).

Desse modo, a horda que clama que a temática da série “só faz sentido se fosse nos anos 1950” provavelmente não prestou atenção na HQ que leu ou está alheia ao funcionamento estrutural de uma sociedade como aquela criada por Moore e Gibbons, pensada algumas décadas à frente. E como ironia narrativa, aí também está o deslize que o roteiro de Lindelof sofre no episódio, destacando apenas esse aspecto, sem dar atenção a outros igualmente importantes, quase estreitando demais a visão do espectador. A linha divisória está na forma como o funcionamento desse Estado estranhamente belicoso e todo marcado por simbologias é descortinado pelo texto. Linhas diferentes de pensamento, de preocupação e de posição ideológica são mostradas aqui, contando com um enredo bem objetivo e que não pretende nada mais além de apresentar personagens e mostrar um dos “grandes problemas” desse futuro Universo Watchmen. Não será nada espantoso que Marionete e Mímico sejam inseridos nessa versão também. Faz todo o sentido.

A direção de Nicole Kassell valoriza o cenário para, através dele, inserir referências orgânicas, uma tarefa que realiza com imensa qualidade ao lado da estupenda montagem David Eisenberg, que junto da trilha sonora e da dramaturgia (absolutamente todos os atores estão tinindo!) são os maiores destaques do episódio. Notem como a diretora espera o momento certo para nos dar um plano que de cara entendemos ser o interior da Arquimedes (ou Archie, a nave do Coruja), como faz a ponte histórica entre a Rebelião Racial de Tulsa em 1921 e o momento presente, como explora visualmente o legado de Rorschach (dando oportunidade para o texto mostrar o legado ideológico e parcialmente distorcido do anti-herói), como expõe símbolos de outros personagens do original como o Comediante (com as gemas dos ovos), o Dr. Manhattan, numa cena de TV em segundo plano + um relógio + a peça O Filho do Relojoeiro, e os próprios Minutemen, com a série American Hero Story (alô alô, Ryan Murphy, vamos realizar isso aí!).

Assim como na obra original, a série começa com uma investigação de um cenário no início da fervura e com uma morte que deve servir de fio condutor para a linha principal de eventos — o sangue na smiley face do Comediante torna-se o sangue no distintivo do policial enforcado. As coisas definitivamente começarão a mudar para Angela Abar/Sister Night (Regina King), Looking Glass (Tim Blake Nelson), Adrian Veidt/Ozymandias (o sempre classudo Jeremy Irons) e a Sétima Kavalaria (7K/7th Kalvary). E claro, dependendo do alcance desses acontecimentos, o longo governo do Presidente Robert Redford também sofrerá os devidos chacoalhões. Definitivamente estamos em Watchmen.

Watchmen – 1X01: It’s Summer and We’re Running Out of Ice (EUA, 20 de outubro de 2019)
Criador: Damon Lindelof
Direção: Nicole Kassell
Roteiro: Damon Lindelof (baseado na obra de Alan Moore e Dave Gibbons)
Elenco: Yahya Abdul-Mateen II, Jamal Akakpo, Joshua Allen, Jay Amir, Dajour Ashwood, Victoria Blade, Danny Boyd Jr., Charles Brice, Landon Durrence, Frances Fisher, Louis Gossett Jr., Michael Graziadei, Charles Green, Andrew Howard, Helena Hu, Jeremy Irons, Zsane Jhe, Don Johnson, Regina King, Nicholas Logan, Alexis Louder, Tom Mison, Sara Vickers
Duração: 60 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.