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Fora de Plano #67 | Viola Davis: Uma Análise Dramatúrgica

por Leonardo Campos
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Ela já foi uma esposa que precisou assumir os erros do passado de seu marido criminoso no frenético As Viúvas. Em Histórias Cruzadas, interpretou uma babá e doméstica que cuidava de uma criança branca nos Estados Unidos dos anos 1960, território de discursos raciais inflamados. Sua versatilidade lhe permitiu assumir a tradução intersemiótica de Amanda Waller, em Esquadrão Suicida, um papel já desempenhado por Angela Basset e Pam Grier nas participações deste personagem do Universo DC para o cinema.  Maridos com temperamentos complexos parecem fazer parte de sua vitrine de figuras ficcionais, ora como Rose Maxson em Um Limite Entre Nós, ora como Annalise Keating, desempenho na série How To Get Away With Murder, personagem que é um dos principais responsáveis por solidificar a carreira da atriz que já vinha de uma sucessão de oportunidades mais substanciais que as opções menos interessantes que lhe foram ofertadas no passado. Essa é a trajetória dramatúrgica de Viola Davis.

Ela é uma das grandes atrizes do cinema, televisão e teatro na produção cultural contemporânea. Depois de atravessar longos anos em pequenas participações que não contemplavam o seu talento dramático e barravam a sua capacidade de expandir melhor na criação de seus personagens, Viola Davis conquistou bravamente um posto privilegiado, dando uma fagulha de esperança para as próximas gerações de atrizes negras que pensam em conquistar o devido espaço numa seara de produção artística que se diz avançada e desbloqueada, mas que ainda carrega o peso do preconceito racial, do ageísmo, dentre outras formas de exclusão. Firme em suas interações nas redes sociais, a intérprete que já ganhou os principais prêmios do cinema (Oscar), televisão (Emmy) e teatro (Tony) possui uma carreira peculiar. Foi protagonista numa quantidade menor de vezes, mas quando esteve como ponto nevrálgico de narrativas, entregou desempenhos sempre acima da média, nivelados ao seu padrão de qualidade na encenação.

Viola Davis em Histórias Cruzadas, Esquadrão Suicida e Um Limite Entre Nós

O seu primeiro breve, mas grandioso momento no cinema foi em Dúvida, de 2008, drama dirigido por John Patrick Shanley sobre o polêmico tema do abuso de menores por representantes da Igreja Católica. Na trama ela é a Sra. Miller, mãe do primeiro garoto afroamericano contemplado numa instituição regida sob os densos ditames de um catolicismo que beira ao medieval. O ano é 1964 e o padre Flynn (Philip Seymour Hoffman) deseja empreender a reforma necessária para suavizar os costumes e tornar o sistema interno mais próximo das exigências sociais externas. Ele encontra dificuldades com a Irmã Aloysius (Meryl Streep), implicante e resistente, munida pela grandiosa sombra de uma dúvida retumbante que devasta as relações no ambiente religioso: a sinalização de uma outra freira, interpretada por Amy Adams, desconfiada do tratamento muito peculiar do padre com os seus estudantes, em especial, o garoto que é filho da Sra. Miller, personagem que permitiu poucas cenas para Viola Davis, mas uma indicação ao Oscar, atriz também envolvida com a televisão e o teatro em sua agenda artística.

O teatro, cabe ressaltar, é a base de Viola Davis. Em Seven Guitars (1996), assumiu papel de Vera. Ela também já foi Tonya, em King Hindley II (2001) e Rose Maxson, em Fences (2010), desempenho que depois foi levado ao cinema, sob a direção de Denzel Washington. Na televisão, espaço por onde trilhou um caminho longo de figurações e participações breves, Davis assumiu o já mencionado ícone do Direito Criminal ficcional, Annalise Keating, analisado próximo ao desfecho desta Análise Dramatúrgica. Antes de chegar ao papel que redefiniu a sua carreira, cabe transitar por suas experiências anteriores, como enfermeira, doutora, esposa, etc. Ela esteve em Brothers & Sisters, NYPD, Third Watch, Lei e Ordem, CSI, Without Trace, O Desafio, dentre outras produções. Interessante observar que em muitas destas passagens, Viola dialogou com situações de questionamento da justiça, uma abordagem temática constante em sua carreira, até mesmo nos personagens de pequeno destaque nas séries apontadas.

Tríplice Coroa da Atuação: Tony (Teatro), Oscar (Cinema) e Emmy (Televisão)

Depois de interpretar a personagem Rose Maxson no teatro, com a peça Fences, Viola Davis assumiu a figura ficcional no filme homônimo, lançado no Brasil como Um Limite Entre Nós, em 2016. Com Denzel Washington no desempenho de seu marido machista e com passado complexo, a personagem que lhe rendeu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Também na direção, o ator que já havia trabalhado com Viola no teatro dá vida ao complexo Troy Maxson, um homem cheio de traumas do passado, projetados em sua família. Ele é parte de uma sociedade hostil aos afroamericanos, uma criatura que reforça valores que embasaram toda a sua formação de caráter, pressionada pelas tensões sociais e pelos rígidos códigos familiares. Quando o seu filho decide seguir o caminho do esporte, uma guerra se inicia não apenas entre eles, mas com a sua esposa, interpretada por Davis, mulher desgastada diante da brutalidade e das descargas emocionais de um homem que se vê como provedor, tomado por obrigações, mas endurecido no que tange aos sentimentos que precisam fazer parte de um lar minimamente acolhedor.

Em 2015, a atriz protagonizou Lila & Eve, drama dirigido por Charles Stone. Ao lado de Jennifer Lopez, Viola Davis se entregou ao papel de mais uma mulher vitimada por problemas familiares. Desta vez, ela frequenta um grupo de apoio para mães que perderam os seus filhos. Ela é Lila, uma mulher mergulhada numa densa atmosfera de luto. Devastada diante da situação que ainda pulsa fortemente, ela encontra em Eve, mulher que também perdeu uma filha e decide, ao lado da nova amiga, investigar e fazer justiça com as próprias mãos. É a constante na trajetória artística da atriz: a temática da família e seu esfacelamento, não apenas por questões internas, mas por catalisadores externos, molas propulsoras da dor e do embrutecimento dos seres humanos diante de injustiças sociais e outras formas de opressão. No denso World Trade Center, de Oliver Stone, de 2006, a atriz já havia desempenhado a mãe de um paciente em estado nada animador. Além do caos nas famílias de seus personagens, interpretou constantemente o papel de assistente social, provedora da observação e mentoria de “lares desorientados”.

Cartazes de filmes com participação da atriz Viola Davis como coadjuvante

Confiar, dirigido por David Schwimmer, drama reflexivo sobre os impactos da cibercultura na vida de uma família de classe média, ela desenvolveu o posto de coadjuvante com falas breves, mas pontuais, no papel de Gail Friedman. Ser mentora pareceu um posto rentável para a atriz, também presente em Hacker, do cineasta Michael Mann, conhecido pelo virtuosismo na execução da linguagem cinematográfica. Ela é Carol Barret, a investigadora responsável por supervisionar a missão do invasor de sistemas operacionais, interpretado por Chris Hemsworth. Caso ele cumpra com a missão de descobrir outro criminoso que tem deixado as autoridades e empresários em polvorosa, terá a sua sentença reduzida. Discreta, a personagem vive em completa dedicação ao trabalho, haja vista o fracasso de seu casamento. Ainda em 2015, mesmo ano de Hacker, ela esteve em Os Suspeitos, de Denis Villeneuve, no desempenho de Nancy Birch. Com o cineasta franco-canadense, a atriz adentrou noutra complexa narrativa para o seu currículo já substancialmente preenchido por papeis de maior significação na época.

Além dos famosos cineastas mencionados, Viola Davis já fez algumas parcerias com Steven Soderbergh, como uma assistente social em Traffic – Ninguém Sai Limpo, grande sucesso de 2000, e antes, em 1998, como Moselle, de Irresistível Paixão. Em 2002, foi Gordon, na ficção-científica Solaris, protagonizada por George Clooney. Já esteve também com Stephen Daldry em Tão Forte, Tão Perto, no papel de Abby Clarck. James Mangold a dirigiu em breves participações em Kate & Leopold, de 2002, e Encontro Explosivo, de 2010, como policial e diretora, respectivamente. O primeiro filme, protagonizado por Hugh Jackman e Meg Ryan, trata de um nobre inglês arruinado, a viver nos Estados Unidos e ser obrigado a casar-se com uma mulher que não deseja para recuperar suas finanças. Magicamente, ele adentra um portal e chega ao século XXI. Sem reconhecer os devidos códigos sociais da época, precisa lidar não apenas com a falastrona personagem de Ryan, uma das rainhas das comédias românticas, mas também com a durona policial interpretada por Viola Davis. Na bobagem com Tom Cruise e Cameron Diaz, ela interpreta uma diretora também firme, pouco relevante no desenvolvimento do filme.

Protagonista em As Viúvas e coadjuvante em Hacker (2015) e Comer, Rezar, Amar (2010)

Esses pequenos papeis de mulheres detentoras de algum poder também demarcam as participações ligeiras de Viola Davis no cinema. Em Código de Conduta, de F. Gary Gray, lançado em 2009, a atriz interpretou a prefeita April Henry. No mesmo ano, foi a Dra. Judith Franklin em Intrigas de Estado, drama político comandado por Kevin Mcdonald. Esteve também como Gwen Anderson em Ender’s Game: O Jogo do Exterminador, de 2013, filme de ação sobre militares em confronto com alienígenas, dirigido por Gavin Hood. Em Get On Up – A História de James Brown, cinebiografia comandada por Tate Taylor, Viola Davis assumiu o papel de Susie Brown, mãe do disseminador do funk entre as décadas de 1960 e 1970, famoso padrinho do soul, cantor de carreira conturbada e envolta em polêmicas, mas ciente de sua contribuição para o mundo da música, num filme razoável sobre tantas coisas, inclusive sobre solidão e vazio existencial. O diretor, por sinal, é o mesmo de Histórias Cruzadas, de 2011, o drama ganhador de vários prêmios e que hoje, representa um dos arrependimentos necessários na carreira da atriz.

Também responsável pelo roteiro, Tate Taylor traduziu para as telas o romance de Kathryn Stockett, história sobre pessoas brancas a assumir a narratividade de trajetórias negras, algo que para a atriz, foi uma oportunidade de se projetar melhor na época, mas que no hall de suas memórias cinematográficas, reflete um filme que desconsidera diversos tópicos sobre a luta racial enfrentada pelos afroamericanos ao longo da história deste povo que enfrentou as mazelas da diáspora escravocrata. Situado nos anos 1960, ela é Aibileen Clarck, doméstica e babá que cuidou de Eugenia (Emma Stone) ao longo da infância e juventude da garota que transformou numa idealista interessada em narrar as histórias não apenas da personagem de Viola, mas das demais domésticas oprimidas da região. O drama que também conta com Octavia Spencer é um estilo exercício da linguagem cinematográfica. A visualidade é tratada com esmero, os diálogos são inteligentes e construídos com dignidade, mas a temática hoje é um tema complexo para discussões político-raciais que infelizmente estamos cansados de contemplar, mas que não acabarão enquanto os seres humanos não modificarem determinadas posturas irracionais.

Viola Davis em Os Suspeitos, James Brown e Lila & Eve: tramas sobre tensões familiares 

O posto de responsabilidade esteve mais uma vez em suas mãos na interpretação de Amanda Waller, personagem do Universo DC, destacada em Esquadrão Suicida, de 2016, aventura com super-heróis que fracassou na crítica, mas teve alguma projeção mercadológica. No filme, ela assume mais uma figura ficcional que precisa realizar conexões e intimidações para conseguir alcançar os seus propósitos e bater metas. Ocasionalmente, é uma aliada dos heróis deste universo expandido na cultura da convergência midiática, mas no geral, o seu posto dramático é o de antagonista, mulher de personalidade forte e pouco confiável. Dirigido por David Ayer, a aventura com os anti-heróis se baseia numa missão destinada ao grupo que é recrutado com a promessa de redução de suas sentenças, caso os objetivos da empreitada sejam atingidos. É num misto de incertezas que o universo de cores e estilo próprio destes se desenvolve, num papel que reforçou a versatilidade de Viola Davis, atriz que vai além dos dramas lacrimejantes.

Outro personagem com maior complexidade veio em 2018, no drama As Viúvas, do cineasta Steve McQueen, conhecido por suas narrativas cheias de debates polêmicos, tais como 12 Anos de Escravidão e Shame. Na trama, ela é Veronica Rawlings, a viúva de Harry Rawlings (Liam Neeson), um ladrão de bancos de grande porte, criminoso que a deixa em maus-lençóis quando morre e fatidicamente deixa o seu legado para que a esposa resolva uma série de situações dramáticas complexas, ao lado das outras viúvas de seus comparsas. Aqui, temos a atriz em mais uma narrativa com debates políticos. O que poderia ter sido um filme de ação cheio de carros velozes, explosões e mulheres perigosamente armadas, tornou-se um drama que funciona diante de todas essas artimanhas do entretenimento, mas insere complexidade na construção de personagens esféricos, em especial, as viúvas do título, mulheres com necessidades dramáticas que reforçam os seus conflitos atados e desatados ao longo da narrativa.

Os universos de Shonda Rhimes se encontram no crossover de Scandal e How To Get Away With Murder

A trama traz questões sobre injustiça, corrupção na política e tensões raciais, alguns dos tópicos levantados ao longo das seis temporadas de How To Get Away With Murder, exibida entre 2014 e 2020 e distribuída pela ABC. Na trama ela é Anna Mae, conhecida socialmente como Annalise Keating, advogada que toma para si a defesa de criminosos pesados, a maioria, vítimas do sistema judicial opressor, corroído pelos esquemas de troca de favores entre juízes, governadores, etc. O foco principal da série é a sua atividade docente em Direito Criminal na prestigiada Universidade de Middleton, situada na Filadélfia, longe dos grandes centros urbanos por onde geralmente as séries criminais geralmente desenvolvem as suas histórias. Junto aos seus assistentes e os cinco estudantes selecionados na primeira temporada, Annalise Keating faz uma densa viagem de entrega física e psicológica durante os 90 episódios desta série criada por Peter Nowalk, com a presença de Shonda Rhimes na produção executiva.

Irregular em alguns trechos, mas sempre eficiente quando o assunto é o desempenho dramático da protagonista, How To Get Away With Murder flertou com ironia e acidez, temas polêmicos e caros para os cidadãos estadunidenses. Mergulhada nos tensos esquemas do devastador racismo estrutural, uma das principais celeumas de sua cultura arraigada na violência e no imperialismo, a “América” é apresentada com cinismo pelos personagens que driblam o sistema judicial que em tese, deveria prestar o devido atendimento ético e moral para quem o aciona, mas que infelizmente, ainda fornece privilégios com base em classes sociais e estereótipos raciais. Sem a construção de um ideal de heroína perfeita, Annalise Keating é uma das primeiras protagonistas negras que não tem na construção de sua personagem, os arquétipos que há eras estigmatizaram as mulheres que centralizaram o drama na televisão. Com histórico pesado de abuso sexual na infância, ela saiu de sua cidade natal e se formou na Universidade de Harvard.

Instável, assombrada pelo passado e com um marido branco infiel que a oprime constantemente, Annalise Keating é uma representação cabal da mulher negra contemporânea, focada em sua luta diária contra um sistema que já não a aceita devidamente enquanto uma força feminina castradora, limitadora de muitos homens que não detém a sua inteligência e astúcia, tanto no tribunal quanto nas dinâmicas sociais cotidianas. Se ela já encontra obstáculos na palavra-chave “feminino”, some a isso o termo “mulher negra” e redobre os desafios. Para quem ainda pensa que isso é militância exagerada, saia da alienação: as redes sociais estão a todo instante, apresentando dados corriqueiros dos famosos cidadãos repórteres que deflagram casos de abuso, preconceito e opressão não contemplados pela mídia, impossibilitada de dar conta de tantas ocorrências. São tempos tenebrosos e séries como How To Get Away With Murder, segmentada para os consumidores da cultura seriada contemporânea, refletem tudo isso.

Annalise Keating é parte de um esquema de produção que entrega entretenimento, mas não deixa de atender aos desejos de quem o consome, isto é, um público cada vez mais consciente dos debates sobre questões femininas e raciais no atual estágio de nossa sociedade adoecida. Ela é um padrão atípico para 2014 e abriu as portas para outras protagonistas que transmitem forças em situações de embate, mas que também são constantemente minadas por seus medos e inseguranças, algo normal para qualquer ser humano que precisa lidar com as situações enfrentadas diariamente pela advogada e professora. A sua história é narrada dentro de um esquema dramático e estético erguido com base na chamada Estética de Distorção Temporal, termo cunhado por um artigo do pesquisador Paul Booth, em 2011, ao refletir sobre séries de TV e novos padrões narrativos. Conforme as reflexões do texto, as diferenças estéticas entre os contextos de flashbacks e flashfowards, junto ao processo de fragmentação da narrativa linearidade clássica permitiram que algumas séries produzissem esquemas para prender o espectador aos desdobramentos dos conflitos e suas resoluções apenas na reta final.

A trajetória de Viola Davis demonstra que a atriz não cabe na interpretação de papeis pueris. Nada a impede de interagir bem numa comédia romântica hollywoodiana, mas ao passo que amplia as instâncias de amadurecimento, uma atriz de seu porte não deseja perder tempo com personagens sem qualquer dilatação dramática. Penso como seria interessante vê-la num bom filme de terror e imagino se a atriz possui extensão vocal suficiente para assumir um musical. Se encerrar a sua carreira sem tais experiências, não há problema. Ela já deixou a sua marca: é uma atriz capacitada, batalhadora e persistente. Sem um plano de carreira com boas oportunidades desde jovem, como aconteceu com outras colegas de profissão de sua geração, a atriz assumiu produções que hoje renega, filmes que não lhe preenchem com orgulho e satisfação, mas lhe deram oportunidades de ampliar as táticas e estratégias para se inserir no competitivo e delimitador sistema de produção artística estadunidense contemporâneo.

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