Crítica | Boi Neon

estrelas 4,5

Aplaudido no Festival de Veneza de 2015 e ganhador do prêmio Orizzonti, Boi Neon é o típico filme que realmente será bem recebido no circuito de festivais (já esteve no de Toronto e no do Rio) e pelos críticos, mas que, infelizmente, muito provavelmente, será visto com preconceito pela massa do público em razão de seu hermetismo. Mas Boi Neon, diferente do que pode parecer à primeira vista e apesar de ser sim um “filme de arte”, não é hermético ou fechado ao ponto de criar esse ar que muitos consideram pretensioso e pedante.

Mas isso não quer dizer que ele seja fácil de assistir. Gabriel Mascaro, que dirigiu e escreveu o roteiro, criou uma película de beleza rústica que olha para um microcosmo muito particular, o dos trabalhadores de bastidores em vaquejadas. Nesse caso, as lentes estão sobre Iremar (Juliano Cazarré), que tem como função primordial, “ajeitar” os bois para o espetáculo, tarefa árdua e ingrata, que o obriga a viajar de cidade em cidade em um caminhão velho junto com Galega (Maeve Jinkings), a filha dela Cacá (Alyne Santana), além de Zé (Carlos Pessoa) e Mário (Josinaldo Alves). Em seu único longa de ficção anterior, Ventos de Agosto, Mascaro não trabalhou com atores e sim com pessoas “comuns” e, agora, estreia na direção de atores e se mostra igualmente competente ao despí-los de trejeitos e apresentá-los todos convincentemente em seus respectivos papeis.

Boi Neon não tem uma história propriamente dita, elemento esse que será o primeiro a fazer muitos torcerem o nariz, mas é justamente em razão desse aspecto que ele é fácil de acompanhar e de entender mesmo quando elementos mais surreais são inseridos organicamente na narrativa. E quando digo que o filme não tem história, não se trata, aqui, de demérito. Os personagens apenas são quem são, não havendo um crescimento ou desenvolvimento em arco com um objetivo maior. O que Mascaro faz com seu texto é perverter expectativas. Iremar é um vaqueiro que literalmente chafurda em fezes bovinas o dia todo, mas que sonha em ser estilista. Em seu tempo livre, ele desenha vestidos – em cima de revistas de mulheres nuas – para Galega usar em seu bico de dançarina de boate onde calça botas que imitam patas de cavalo, além de máscaras equinas em uma representação gráfica de um dos temas abordados pelo filme, a fusão entre homem e animal.

Desafiando convenções e expectativas, Iremar, porém, não é homossexual. O roteiro faz questão de deixar isso bem claro em uma bela – ainda que longa – sequência de sexo ao final que espelha outro momento surreal anterior entre homem e cavalo. Ele é apenas alguém que tem gostos incomuns em seu meio. Quantos de nós não somos assim? Boi Neon deixa claro que rotular é empobrecer, é reduzir o ser humano a determinados arquétipos que não representam nem um átomo de nossa riqueza, de nosso potencial. Se Iremar e os demais sabem que nunca serão mais do que são no momento? Sim, provavelmente sabem – Galega chega a falar que Cacá só gosta de coisas que nunca poderá ter, somente para ouvir de Iremar a pergunta retórica “com você pode saber disso?” -, mas isso não os impede de sonhar e, nesse sonho, continuarem vivendo. São humanos, assim como todos nós.

A história (ou a falta dela) ganha amplitude depois que, em um momento estranhíssimo, mas hilário em um milionário leilão de cavalos, Zé acaba sendo substituído pelo jovem Júnior (Vinícius de Oliveira) que também tem preocupações “estranhas” para uma pessoa como ele. Sua preocupação com a aparência é extrema: usa aparelho nos dentes e alisa os cabelos com cuidado. Novamente, nada de rótulos, pois rótulos são reducionistas por natureza. Mas a inserção de Júnior na narrativa gera uma espécie de competição para Iremar, que se sente incomodado.

E a natureza, aliás, é um elemento muito utilizado na bela fotografia regada à muita luz natural de Diego Garcia, com planos abertos que raramente se aproximam dos atores, de maneira a mostrar a mencionada fusão entre homem e animal e natureza. Além disso, a escolha de Mascaro em somente utilizar música diegética (com discretas exceções apenas nas transições de cenas), mantendo o silêncio por boa parte do tempo, somente chama mais atenção para a força da imagem de Garcia, em tons escurecidos, de terra, mas terra suja, esteticamente linda, mas que certamente não agradará a todos justamente por ter uma qualidade imperfeita como os personagens. Há, também, muita tranquilidade, com planos-sequência longos, muitos deles incômodos de certa forma, como Iremar urinando em uma tomada de lado, que deixa tudo à mostra, ou um grupo de peões tomando banho. Esse incômodo é importante para o espectador entender esse outro mundo e também para novamente reiterar nossas semelhanças com os outros animais.

Os diálogos, falados com muito sotaque pernambucano (é de lá o filme – mais um da boa safra recente desse estado) e de maneira natural – leia-se, para dentro – são econômicos e por vezes difíceis de serem compreendidos palavra por palavra (na cópia que vi, no Festival do Rio, havia legendas em inglês, o que acabou ajudando), mas cujo significado é sempre claro. Afinal, as imagens falam por si mesmas aqui e não precisam de muito mais do que algumas indicações aqui e ali saindo da boca dos atores.

Prevejo um caminho árduo para Boi Neon em circuito nacional, mais árduo até do que as dificuldades de Iremar em escapar de seu destino, mas, definitivamente, esta é uma daquelas obras raras que realmente merecem especial atenção. Esqueçam por um momento a ilusória “complexidade” da fita de Mascaro e venham testemunhar um realmente sensacional exemplar do cinema brasileiro.

Boi Neon (Idem, Brasil/Uruguai/Holanda – 2015)
Direção: Gabriel Mascaro
Roteiro: Gabriel Mascaro
Elenco: Juliano Cazarré, Vinícius de Oliveira, Alyne Santana, Josinaldo Alves, Samya De Lavor, Maeve Jinkings, Carlos Pessoa, Abigail Pereira, Roberto Berindelli
Duração: 101 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.