Crítica | Doctor Who – 2X07: The Idiot’s Lantern

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Escrito por Mark Gatiss em seu segundo roteiro para Doctor Who, The Idiot’s Lantern funciona como um veículo interessante para trabalhar a dinâmica entre Rose e o Décimo Doutor, em uma aventura leve e despretensiosa, mas que tropeça por não saber lidar com seus elementos mais cartunescos, responsabilidade que também deve ser atribuída ao já veterano diretor da série, Euros Lyn. Na trama, a TARDIS se materializa na Londres de 1953, às vésperas da coroação da Rainha Elizabeth II, para a decepção de Rose e do Doutor, que esperavam ir a Nova York em 1956, para assistir ao show de Elvis Presley. Ao perceberem o número incomum de antenas de TV na região para a época, a dupla se vê diante de uma estranha situação envolvendo o recolhimento pela polícia de pessoas que literalmente perderam o rosto, após entrarem em contato com uma criatura vivendo no sinal da televisão.

Existem muitas ideias em The Idiot’s Lantern que parecem indicar que o episódio quer ser mais do que apenas a história do Doutor lutando contra um alienígena malvada na televisão que rouba a mente (e o rosto) das pessoas. Há quem possa dizer que mais uma vez, a série parece fazer uma crítica à televisão como um possível instrumento de alienação, já que a vilã The Wire captura a mente de suas vítimas, através do aparelho, transformando-as em corpos apáticos e sem personalidade. Mas tal crítica, se esta era a intenção, surge vazia e mal fundamentada pelo roteiro.

É nos principais coadjuvantes do episódio, a família Connolly, que parece se encontrar a crítica que realmente interessa ao roteiro de Gatiss. Os Connolly são o arquétipo da família média: o pai provedor, a mãe dona de casa, filho e uma avó. Mas esta família está longe de ser uma família saudável, especialmente pelo comportamento ditatorial do patriarca. O texto de Gatiss, através da chegada do 10º Doutor e Rose a casa dos Connolly, dá algumas alfinetadas inteligentes em problemáticas ligadas ao conceito da família tradicional, como o machismo, com o Doutor apontando o contrasenso do patriota Sr. Connolly cultivar este sentimento em um país onde a pessoa representante do poder é justamente uma mulher.

Entretanto, esta crítica parece perder grande parte de sua força justamente pela forma caricata com que o roteiro constrói Eddie Connolly. Entende-se que por ser uma série que tem as crianças como parte de seu público-alvo, o uso de certa caricatura para tratar de um tema relativamente pesado como um marido e pai abusivo não seja algo tão problemático, mas o episódio claramente perde a mão no trabalho com o personagem, impedindo que o público consiga investir emocionalmente nos momentos mais intensos envolvendo os conflitos da família Connolly, como o momento em que o jovem Tommy se rebela, e a cena que fecha o episódio.

O aspecto cartunesco acaba ficando fora do tom também na construção da vilã The Wire, interpretada por Maureen Lipman. O conceito por trás da personagem é bastante interessante, mas não conseguimos encarar a vilã como mais do que uma ameaça de isopor. Seus gritos desesperados de “Hungry! Hungry!” pareciam ter o objetivo de conceder a criatura uma natureza quase animalesca, mas acaba não funcionando bem na tela.

Por outro lado, o roteiro trabalha bem a relação de Rose e do 10º Doutor, retratando de forma eficiente e sem exageros o atual estágio da relação da dupla. Neste momento da série, o Time Lord e a jovem de Powell Estate já têm muito mais uma relação de parceria igualitária do que a de tutor e aprendiz que era mantida com o 9º Doutor. A cena em que a dupla chega á casa dos Connolly é ótima por mostrar não só a ótima química entre David Tennant e Billie Piper, mas também o quão articulados o Time Lord e sua companion estão. Rose já absorveu boa parte da malandragem e resiliência do Doutor, se mostrando bem mais independente de seu companheiro de viagem, mas sem perder a sensibilidade que permite que ela se preocupe com o choro da Sra. Connolly ou com a relação de Tommy com o pai. O roteiro ainda tenta expor um pouco do potencial para a ira que o 10º Doutor possui, através da cena em que ele descobre que Rose tornou-se mais uma das vítimas sem rosto da criatura alienígena.

A direção de Euros Lyn tem seus momentos criativos, evitando enquadramentos burocráticos e tentando dar certo dinamismo a cenas mais tensas através de planos holandeses. Entretanto, o diretor não é tão competente para lidar com as cenas mais dinâmicas, ou mesmo para tratar de pequenos problemas apresentados pelo roteiro, como a presença totalmente dispensável do personagem do Inspetor Bishop durante a cena de rompimento da família Connolly. A direção de arte do episódio por sua vez, é bastante competente, recriando com sobriedade a Londres da década de 50.

The Idiot’s Lantern não é um episódio ruim. Ele possui momentos muito divertidos, mas há dentro da história uma série de ideias que parecem não ir até onde poderiam por não serem bem organizadas e desenvolvidas. Não fica entre as piores coisas que Gatiss escreveu para a série, mas também não fica entre as melhores.

Doctor Who- 2×07. The Idiot’s Lantern (Reino Unido, 27 de Maio de 2006)
Direção: Euros Lyn
Roteiro: Mark Gatiss
Elenco: David Tennant, Billie Piper, Maureen Lipman, Ron Cook, Jamie Foreman, Debra Gillett, Rory Jennings, Margaret John, Sam Cox
Duração: 45 min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.