Crítica | Food, Inc.

Food, Inc é um documentário perturbador. De fato, nós sabemos como foi cultivada a matéria-prima básica que constitui os alimentos industrializados que consumimos? Ao longo de seus 94 minutos, somos apresentados aos aberrantes dados ligados ao setor da indústria alimentícia: grandes corporações controlam os alimentos da semente à chegada aos supermercados, vendendo constantemente sabor, facilidade e preços acessíveis, tríade que nos atrai enquanto consumidores. No entanto, as fazendinhas lúdicas das caixas de leite líquido e os tomates brilhantes que estampam as embalagens de molho são bem diferentes da sua realidade de produção.

O ponto de partida é o perigo dos alimentos produzidos pela indústria alimentícia e seus efeitos nocivos à saúde. As campanhas publicitárias de muitos alimentos demonstram um ideal ético que faz muita gente imaginar boa qualidade entre a produção e o consumidor, no entanto, a “verdade” por detrás de tudo isso está bem distante dos vales verdejantes vendidos pelas peças das campanha que nos ofertam molhos, azeitonas, ameixas, milho enlatado, etc.

Diante da situação exposta, somos apresentados aos diversos segmentos da produção que ataca a indústria alimentícia, dentre eles, a comida como instrumento de poder na sociedade, questão essencial para a existência humana que vive constantemente concentrada nos meandros das grandes corporações, agrupamento de empresários que em sua maioria são indivíduos despreocupados com os processos de produção. Na dinâmica industrial não interessa como as coisas são feitas, tampouco os desdobramentos da alimentação ruim, afinal, o que importa é o rendimento dos produtos e o batimento das metas. O milho e a soja atualmente são a base de produção de muitos produtos industriais, dentre eles, pilhas, carne, fraldas, molho de tomate, carvão, etc. Os hambúrgueres e seus molhos deliciosos, acompanhados de refrigerante e batata frita, inspiram-se na fabricação de carros, isto é, a produção em larga escala onde o que mais interessa é a quantidade. Qualidade? Quem se importa quando temos que dar conta da clientela que faz a imensa fila nas lojas das redes de fast-food ao redor do planeta?

Um dos pontos altos da produção é a trajetória da fazendeira Carole Morison, mulher que permitiu que as câmeras registrassem os frangos que morrem antes de chegar ao mercado para o nosso consumo. Os antibióticos aplicados na ração os engordam muito rápido, tendo em vista a dinâmica dos supermercados. Não há tempo hábil para esperar os animais crescerem dentro do ciclo normal, pois a indústria trabalha dentro de um esquema muito acelerado para atender as demandas. Segundo os relatos assustadores do documentário, os hormônios ajudam no rápido crescimento e com isso, as pernas e os órgãos internos não acompanham as mudanças bruscas e antinaturais, situação aberrante que promove a insuficiência cardíaca que mata os animais antes do tempo. A opinião, no entanto, não é unânime, o que torna a discussão ainda mais interessante. Segundo Ariel Mendes, médico veterinário da ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), os frangos são animais que crescem muito rápido e o hormônio não faz efeito há tempo. Sendo assim, a crítica perpetrada pelo documentário não faz sentido. Será?

Dirigido por Robert Kenner e escrito em parceria com Elise Pearlstein e Kim Roberts, o documentário conta com a condução musical comum de Mark Adler e a direção de fotografia correta de Richard Pearce, elementos que ganham alguma notoriedade ao longo da produção que possui maior foco na pesquisa que originou a organização dos dados do roteiro. Roberts também assina a montagem que se mostra eficiente e condensa os dados cautelosamente. Isso pode ser comprovado na inserção de outro tema tangente que poderia confundir, ao invés de complementar, isto é, a questão dos trabalhadores imigrantes e as suas condições subumanas de atuação, com a legislação geralmente mais favorável aos gestores das grandes corporações. Em outras mãos menos cuidadosas o material seria um “corpo estranho” dentro da produção.

Lançado em 2008, Food, Inc é um documentário que nos faz pensar como a alimentação é um setor irônico em nossas vidas. Dizem que as pessoas que comem bem são as que aderem aos vegetais. Alguns fogem de certos alimentos causadores de danos ambientais e impactos na sazonalidade, bem como de doenças como diabetes e o risco da obesidade, mas não podemos deixar de lembrar como ser saudável é algo muitas vezes mais caro, o que torna a dieta de algumas famílias um problema, haja vista o preço absurdo que temos que pagar para se alimentar como pede o manual da boa saúde.

Food, Inc. — Estados Unidos, 2008.
Direção: Robert Kenner
Roteiro:  Elise Pearlstein, Kim Roberts, Robert Kenner
Elenco:  Elise Pearlstein, Kim Roberts, Robert Kenner
Duração: 104 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.