Crítica | Jesus Camp

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estrelas 4,5

Quando lançado, o documentário Jesus Camp gerou muita polêmica nos Estados Unidos, resultando em vários comentários entre os fundamentalistas conservadores norte-americanos. Tudo isso, graças as imagens fortes de pregações realizadas com crianças, realidade de várias igrejas no país. Apesar da polêmica, a obra conquistou a admiração da crítica, conquistando até uma indicação ao Oscar. Mas, o que há de tão polêmico no documentário?

A obra aborda um polêmico acampamento para crianças cristãs, que busca incentivá-las a seguir a Bíblia e os dogmas cristãos acima de qualquer coisa, fazendo com que se tornem futuros pregadores e assim formem, no futuro, um exército cristão.

As diretoras Heidi Ewing e Rachel Grady são inteligentes em não exibir o ambiente fundamentalista logo de cara, portanto, a cena inicial mostra o radialista Mike Papantonio falando sobre influência que os evangélicos têm tido na política norte-americana, onde ele destaca toda a intolerância e autoritarismo daquele grupo, uma forma de preparar o público para o que seria mostrado adiante. Após esse início, a pastora Becky Fisher é apresentada pregando  para crianças, onde ela diz frases fortes como “precisamos consertar o mundo” e fala em “línguas estranhas”, enquanto crianças desmaiam e choram compulsivamente, enquanto a trilha sonora se torna mais presente, aumentando a sensação de incômodo, além disso, os jovens são filmados sempre em plongée (câmera de cima para baixo) durante as pregações, mostrando a incapacidade delas diante de tudo aquilo.

Após mostrar como funciona as pregações, o documentário apresenta as crianças que fazem parte daquela igreja enquanto jogam “boliche evangélico”. É interessante destacar como nesse primeiro contato com os pequenos já fica claro como o ambiente conservador influência suas infâncias, veja como em determinado momento uma menina simplesmente esquece de brincar com os demais porque está lendo uma história de Jesus e, quando se lembra que está ali para jogar boliche com seus amigos, ela reza antes de jogar a bola. Aliás, a garota raramente interage com as outras crianças e o único momento em que a criança conversa durante um bom tempo com alguém é quando aborda uma estranha, dizendo que o espírito mostrou-a que deveria falar com a moça, ou seja, das duas atitudes tomadas pela garotinha em uma ela sentiu a necessidade de rezar antes e na outra diz que só fez porque o espírito mandou, mostrando como as crianças perdem sua espontaneidade em um ambiente tão autoritário.

Até que finalmente o documentário parte para o acampamento denominado Kids on Fire e note como o isolamento do local é destacado por alguns planos de ambientação, mostrando o quão longe de outras pessoas é aquele local, uma forma sutil de dizer como aquele grupo busca fugir do mundo e consequentemente isolar as crianças. Outra forma de destacar como aquela religião busca afastar os jovens das outras pessoas é quando Becky prega para dizendo que “o mundo está doente”, se referindo as “coisas do mundo” como lixo, chegando ao ápice da imbecilidade quando a pastora diz que Harry Potter é do demônio e “se ele estivesse no Antigo Testamento ele seria morto”. Porém, vale destacar que é no mínimo incoerente a pastora citar o Antigo Testamento, uma vez que, no Novo Testamento, mais precisamente em Timóteo, está escrito que a mulher deve aprender em silêncio e é proibida de ensinar, ou seja, ela também sofreria consequências naquela época.

Ainda durante o acampamento, Becky chama as crianças de “falsas e hipócritas”, convida-as a “fazer parte da guerra” e fala para pensarem nos “inimigos de Deus” enquanto quebram xícaras com um martelo, e claro, os jovens choram e desmaiam ainda mais, destacando o terrível abuso psicológico praticado por aquela religião, em que os líderes dizem que se não fizer o que Deus manda, as pessoas serão amaldiçoadas e irão para o inferno quando morrerem, muitas vezes incentivando as pessoas a agirem por puro medo. Dito isso, o único momento em que as crianças aparecem brincando e sorrindo é no horário de dormir, quando não há nenhum adulto por perto, porém, quando o instrutor deles entra no quarto as brincadeiras param, os semblantes se fecham e ele se nega a contar uma história de fantasma porque aquilo “não honra a Deus”.

Após o acampamento e o público estando habituando aquele universo, somos apresentados ao líder máximo da igreja Ted Haggard, onde é destacado como as religiões querem ainda influenciar a vida de outras pessoas, como dito pelo radialista Papantonio “esse grupo está empenhado em moldar o governo de acordo com suas crenças”. Nesse momento, o documentário ainda ganha ares denunciativos, destacando a influência que Haggard tinha no governo Bush, influenciando até na votação do novo juiz do Supremo Tribunal. Claro que, seguindo a linha abordada até então, a igreja busca manipular as crianças também politicamente, destacado na pregação onde uma senhora pede para que as crianças abençoem o presidentes George Bush, culminando no momento que Lou Engle fala com as crianças, pedindo que orem para que o congresso vote pelo fim do aborto, ou seja, as religiões fundamentalistas se identificam claramente com a linha conservadora do Partido Republicano norte-americano.

Jesus Camp é envolvente, impactante em vários momentos e é um retrato cru sobre o abuso psicológico cometido por algumas religiões, não apenas sobre crianças, como também sobre qualquer um, praticando um verdadeiro terror mental na mente das pessoas. Além disso, quando esses líderes religiosos utilizam frases como “temos que curar o mundo” e “o mundo está doente”, os pastores incentivam a criação de muros entre as pessoas, como se quem não fizesse parte daquelas igrejas não prestasse. Por fim, questionada sobre o efeito que aquilo causa nas crianças, Becky diz que “o espírito tocou elas”, mas que espírito é esse que faz crianças se isolarem dos demais, chorar e desmaiar? Um espírito bom é que não é.

Jesus Camp (idem – EUA, 2006)
Direção: Heidi Ewing, Rachel Grady
Roteiro: Heidi Ewing, Rachel Grady
Elenco: Becky Fischer, Ted Haggard, Lou Engle, Mike Papantonio
Duração: 85 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.