Crítica | Jornada nas Estrelas IV: A Volta para Casa

estrelas 4,5

Obs: Leia, aqui, as críticas dos demais filmes da franquia.

Viagem no tempo é um dos mais batidos artifícios da ficção científica e também um dos mais fascinantes. Filmes como os dois (há outros?) Exterminador do Futuro de James Cameron e os que compõem a Trilogia De Volta para o Futuro, além de muitos e muitos outros ficaram na mente de uma legião de espectadores e fãs devotos pelo uso inteligente dos paradoxos temporais e das inúmeras possibilidades que ir para trás ou para a frente na linha temporal permite.

No universo de Jornada nas Estrelas, a viagem no tempo foi usada pela primeira ainda de maneira discreta no sexto episódio da 1ª Temporada da Série Original, The Naked Time, talvez mais conhecido por ser aquele em que Sulu incorpora um “mosqueteiro descamisado” pela Enterprise, depois que é infectado por um vírus. Outras viagens dessa natureza se seguiram na Série Original e em todas as demais. De Volta para Casa é o primeiro longa metragem da franquia a recorrer ao artifício, encerrando, com isso, a Trilogia Spock iniciada em A Ira de Khan. E um encerramento com chave de ouro, diria!

O mais interessante é que a premissa do filme é tão completamente inusitada que ela tinha tudo para dar errado. Afinal, fazer a tripulação da Enterprise – agora pilotando a Ave de Rapina roubada dos Klingons ao final de À Procura de Spock – voltar no tempo para capturar duas baleias jubarte, extintas no século XXIII, de forma a evitar que a Terra do futuro seja destruída por uma misteriosa sonda interplanetária que orbita nosso planeta parece algo tirado completamente da cartola e sem qualquer conexão com tudo o que veio antes.

Mas é aí que está a beleza do quarto capítulo da saga cinematográfica de Kirk e companhia. Tudo o que vimos antes (bem, quase tudo, pois o primeiro longa continua sendo solenemente ignorado) está bem vivo no roteiro, que continua diretamente as aventuras do pequeno grupo. Se a Enterprise partiu da Terra em missão não programada ao começo de A Ira de Khan, ela (em espírito pelo menos) agora volta para seu planeta natal para lidar com uma situação impossível e improvável, que faz perfeito uso dramático das interações humanas dos adorados personagens e da situação prática em que se encontram. Afinal, o roteiro faz bom uso das limitações causadas pelas desventuras anteriores, encaixando cada característica em uma história coesa e cômica, perigosamente beirando o pastelão, mas que funciona perfeitamente como um veículo para finalmente lidar de maneira equânime com todos os personagens. E a premissa inusitada? Bem, encarem as baleias e a viagem no tempo como os MacGuffins da vez, mas MacGuffins que em si carregam uma carga dramática que ecoa bem na mente de qualquer espectador e que são usados de forma fluida no texto, sem parecerem deslocados ou exagerados.

E é particularmente alvissareiro notar que nem mesmo a gestação conturbada do projeto teve o condão de afetá-lo negativamente. Se alguma coisa mudou, mudou para melhor. O primeiro obstáculo foi William Shatner, que não queria voltar para a franquia. Não queria ou estava usando sua recusa como forma de negociar um cachê mais alto, o que conseguiu juntamente com a promessa de que, assim como acontecera com seu colega Leonard Nimoy, ele dirigiria o próximo longa. Resolvido esse problema, os roteiristas Steve Meerson e Peter Krikes, que trabalharam em um roteiro baseado em história de Nimoy e Harve Bennett, entregaram um trabalho que não ressonou bem com a produção, fazendo com que Bennett – também na produção executiva – chamasse Nicholas Meyer (que fora diretor de A Ira de Khan, além de roteirista não creditado) para os dois, juntos, retrabalharem o texto, que precisava da aprovação final tanto de Nimoy quanto de Shatner. A competência e profissionalismo, porém, falaram mais alto e não demorou muito e o roteiro original foi substancialmente transformado no que vemos na tela.

Muitos reclamam do já citado tom de comédia que, dizem, foi realmente algo trazido por Meyer. Ainda que de fato algumas poucas sequências sejam exageradas, como o mergulho de Spock no tanque das baleias e a fuga do hospital, há que se notar que Meyer e, tenho certeza, Bennett, são responsáveis por um roteiro inteligente, mas leve, alegre mesmo em que, reparem, não há um vilão. Sim, não há um antagonista propriamente dito. Claro, a sonda no século XXIII pode ser encarada desta maneira, mas ela é apenas o catalisador da ação que se passa 90% na Terra ao final do século XX e, lá, a equipe tem que lidar com pequenos obstáculos das mais diferentes naturezas sem um vilão central, sem uma ameaça maior que a vida como Khan ou mesmo Kruge. E tudo dentro do mais perfeito espírito da série, com referências mil ao cânone – Kirk menciona outras viagens no tempo; seu amor por “antiguidades” é reiterado e assim por diante  – e uma bela história de “re-humanização” de Spock, que passa o tempo todo vestido em um hilário roupão branco.

E, na Terra do presente, o roteiro é eficiente ao encaixar referências geopolíticas (a paranoia da ameaça soviética encapsulada por Checkov infiltrando-se no porta-aviões Enterprise – sim! – para furtar energia nuclear), sociais (o comportamento urbano dos humanos, a necessidade de se usar palavrões, o retrato da sociedade involuída) e até cinematográficas (a chegada da nave Klingon, rebatizada de Bounty – piscadela histórica muito bem inserida – é uma refilmagem, quase quadro-a-quadro, da chegada do exterminador em O Exterminador do Futuro, de dois anos antes) em uma narrativa circular, lógica e bem estruturada do começo ao fim. Claro, há atalhos aqui e ali – como afinal Uhura e Sulu entraram tão fácil no navio? -, mas eles são pequenos detalhes em uma história bem compassada e segmentada.

Aliás, a segmentação é um triunfo aqui. Ao dividir a tripulação em pequenos grupos, todos ganham espaço. Obviamente, o foco continua sendo Kirk e Spock, já que o filme marca a volta aos poucos do Spock que conhecemos e amamos, mas Uhura (Nichelle Nichols) e Checkov (Walter Koenig); Magro (DeForest Kelley) e Scotty (James Doohan) e Sulu (George Takei) têm seus 15 minutos de foco (verdade seja dita, Sulu é o que menos ganha tempo de tela) e todos se saem muito bem, talvez pelo ambiente relaxado criado organicamente pelo roteiro e pelas primeiras filmagens da série predominantemente em locação. Até mesmo William Shatner, com suas famosas canastrices, está em linha com todo o ambiente e tem sua melhor performance de todos os filmes da série, até mesmo quando está contracenando com a bióloga marinha Gillian (Catherine Hicks, atriz decididamente limitada), que faz as vezes de par romântico para o almirante.

E Nimoy, na direção, parece mais à vontade desta vez. Creio que ele deva muito ao roteiro bem mais azeitado que o do filme anterior e as filmagens em locação, que lhe permitiram usar o trabalho do diretor de fotografia Donald Peterman (famoso por Cocoon e Splash) em excelentes tomadas de plano aberto que renderam até a indicação ao Oscar nesta categoria. Falando na premiação da Academia, outra indicação foi a de Melhor Efeitos Especiais, também merecida por mostrar uma maturidade clara para a série. Mesmo mantendo o orçamento sob controle, a ILM esmerou-se no trabalho de computação gráfica (na sequência de volta no tempo, com um dos primeiros usos do morphing), pinturas matte (planeta Vulcan, Ave-de-Rapina por fora, extensões de sequências em São Francisco) e também no excelente uso de convincentes animatrônicos (as duas baleias).

A trilha sonora ficou ao encargo de Leonard Rosenman, pouco conhecido compositor amigo de Nimoy, depois que James Horner decidiu não voltar à série. Rosenman primeiro trabalhou com um rearranjo do tema clássico de Jornada nas Estrelas, mas Nimoy queria algo realmente original, que fugisse do que o espectador esperava. E, de fato, este foi o resultado: a composição-tema de Rosenman é completamente própria e, ainda que mantenha o tom épico da música original, tem seu próprio timbre que ecoa bem ao longo de toda a fita, ganhando boas variações aqui e ali. Particularmente preferiria que alguma variação da composição original de Alexander Courage tivesse sido utilizada, mas o resultado – com exceção das sequências semi-pastelão, notadamente a do hospital – é, como a premissa do filme, inusitado e funciona.

Jornada nas Estrelas IV: A Volta para Casa é, talvez, a culminação cinematográfica da Tripulação Original da Enterprise e de todo o sonho utópico de Gene Roddenberry. Usando artifício clássico da ficção científica com uma premissa para lá de estranha, o filme traz o difícil, mas sempre almejado equilíbrio perfeito entre comédia e sci-fi, abrindo espaço para seu elenco mostrar o que tem de melhor e, no processo, surpreender o espectador.

Jornada nas Estrelas IV: A Volta para Casa (Star Trek IV: The Voyage Home, EUA – 1986)
Direção: Leonard Nimoy
Roteiro: Steve Meerson, Peter Krikes, Harve Bennett, Nicholas Meyer (baseado em história de Leonard Nimoy e Harve Bennett e na criação de Gene Roddenberry)
Elenco: William Shatner, Leonard Nimoy, DeForest Kelley, James Doohan, George Takei, Walter Koenig, Nichelle Nichols, Jane Wyatt, Catherine Hicks, Mark Lenard, Robin Curtis, Robert Ellenstein, John Schuck, Brock Peters
Duração: 119 min.


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RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.