Crítica | Mario Bava – Maestro do Macabro

“O terror nos anos 1970 e 1980 substituiu o western estadunidense como entretenimento”, afirma John Saxon, ator que teve como sua primeira experiência, uma produção de Mario Bava, nomeado pelo documentário em questão de “Maestro do Macabro”. Esta informação histórica de tamanha relevância para a compreensão do gênero terror e dos subgêneros giallo e slasher não é a única preciosidade deste conjunto de relatos bastante interessantes. Há ainda relatos de seu neto Roy Bava; o filho Lamberto Bava; os cineastas Joe Dante, John Carpenter (Halloween), Sean S. Cunningham (Sexta-Feira 13), Tim Burton (A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça) além de citações de produtores e atores.

Juntamente com esta embalagem repleta de depoimentos assertivos acerca da importância do cineasta para a cristalização de determinadas características do gênero terror e ficção científica, sendo Sexta-Feira 13 e Alien – O Oitavo Passageiro dois dos maiores tributários, Mario Bava – Maestro do Macabro é um importante resgate histórico de um cineasta que só não é tão conhecido porque não filmou dentro do sistema hollywoodiano de produção. Há um depoimento logo na abertura que elucida esta questão: “se tivesse produzido nos Estados Unidos, seria reconhecido como Alfred Hitchcock”.

O único problema é a simplicidade narrativa, talvez intencionalmente didática, mas distante do perfil do biografado. Alguns depoimentos do narrador Mark Kermade são bem orquestrados, graças ao roteiro de Charles Preece, também responsável pela direção do documentário. O estilo também nos incomoda, pois acredito que Mario Bava tenha a sua importância para a história do cinema, sendo merecedor de uma produção com mais cara de cinema. Já pensou? Um exercício metalinguístico de primeira linha, o que faria jus ao realizador que adorava o setor de designer de produção, pois acreditava que neste espaço, pudesse esconder os mistérios da narrativa.

De família católica, Mario Bava logo abandonou os costumes dos seus entes queridos para chocar o público com filmes inquietantes e repletos de violência, às vezes física, noutros casos, psicológica, em alguns, a justaposição das duas dimensões que dilaceravam os espectadores com tamanha singularidade narrativa. Quando jovem, pregava peças na mãe, assustando-a com o material decorativo da própria casa: as esculturas, disponíveis por conta da faceta múltipla de seu pai, um escultor que se tornou diretor de fotografia.

Entre cineastas, atores, produtores e alguns familiares, os depoimentos da Profª Drª Linda Williams, da Universidade de Southampton, surgem em cena para criar o clima academicamente “autorizado” da obra, com relatos de uma pesquisadora que demonstra as possibilidades de uma análise biográfica que rompe com determinados paradigmas sobre o que pode ou não ser estudado numa universidade, numa das presenças mais interessantes do documentário.

Segundo Williams, Bava não era nada naturalista, pois quase tudo seu vinha de uma perspectiva onírica, lúdica, fantasiosa. Ela também reforça a sua importância para o estabelecimento do slasher estadunidense, ao citar as características do giallo aplicadas ao clássico Banho de Sangue, de 1971, filme que contém cenas aparentemente plagiadas por Sexta-Feira 13 Parte 2, em 1981. A pesquisadora revela que na dinâmica do giallo, diferente do slasher, quem se relaciona sexualmente também morre, não importando a ordem destes fatores.

Com apenas 55 minutos e linguagem essencialmente televisiva, Mario Bava – Maestro do Macabro é um relato válido e interessante, de caráter bastante didático e memorialístico, infelizmente pobre em estilo.  Responsável por tantas produções marcantes, tal como A Garota que Sabia Demais, Alerta Vermelho da Loucura, A Maldição do Demônio, Banho de Sangue, Cães Raivosos, etc., Bava deixou a sua marca na história do fantástico e do horror, numa trajetória artística repleta de singularidade.

Mario Bava – Maestro do Macabro (Mario Bava – Maestro of the Macabre) — EUA, 2000
Direção: Garry S. Grant
Roteiro: Charles Preece
Elenco: Lamberto Bava, Tim Burton, Joe Dante, Alfredo Leone, Carlo Rambaldi, Sean S. Cunningham, John Carpenter,  John Saxon, Fabrizio Bava, Linda Williams
Duração: 55 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.