Crítica | O Corcunda de Notre Dame (1996)

estrelas 5,0

Adaptado do romance Notre Dame de Paris, escrito por Victor Hugo, O Corcunda de Notre Dame é certamente uma das animações mais adultas da Disney. Ao lidar com temáticas como o pecado, preconceito e a santa inquisição, o filme automaticamente ganha uma notável profundidade. Naturalmente seria preciso uma boa e difícil execução para comportar tais temas e a direção de Gary Trousdale e Kirk Wise consegue trazer uma história de tirar o fôlego e que, surpreendentemente, é capaz de traduzir as páginas de Hugo para um longa-metragem de apenas 91 minutos.

A narrativa tem início sobre as nuvens, ultrapassando-as vemos o topo da catedral de Notre Dame, já evidenciando o forte cunho religioso que veríamos na projeção, ao mesmo tempo que a obra apresenta um nítido respeito a seu material de origem, visto que esse fora escrito pensando justamente nas inúmeras reformas arquitetônicas ao longo da França, que, pouco a pouco, apagavam o passado medieval do país. Descemos, sob a música Os Sons de Notre Dame (The Bells of Notre Dame), que atua como um leit-motif ao longo de toda a animação, para as ruas de Paris, onde nos deparamos com Clopin (Paul Kandel), que começa a nos contar a história de Quasimodo (Tom Hulce) e Frollo (Tony Jay), sobre o surgimento da figura do corcunda que toca os sinos da igreja. Desde já somos apresentados ao fundamentalismo do antagonista Frollo, que é forçado a criar do bebe deformado como se fosse seu. A partir daí pulamos alguns anos no futuro e conhecemos mais a funda a vontade de Quasimodo em conhecer a cidade, que só vira do campanário da catedral desde então.

Naturalmente a ambiguidade de Frollo é minimizada no filme, sabemos que suas ações são pautadas em sua inabalável e radical fé, mas a animação garante ao personagem toques maquiavélicos e cruéis, transformando-o propriamente em um vilão e não em apenas um homem que verdadeiramente faz tudo em nome de Deus – não é à toa que sua posição fora alterada de arcediago (como era no romance original) para juiz – tal escolha ainda tira um pouco do peso dos acontecimentos aqui retratados dos ombros da Igreja. Mas vale lembrar que estamos falando de um período pré-reforma e as crenças aqui ilustradas são muito mais radicais das que estamos acostumados – trata-se, porém, de um desenho, também, para crianças e o entendimento pleno disso não ocorreria.

A questão deixada ao fim de Os Sons de Notre Dame já é abordada desde os minutos iniciais após o prólogo. Em Quasimodo vemos uma bela personalidade que se esconde sob uma face e corpo deformados, enquanto que em Frollo temos uma figura respeitável que esconde uma nítida maldade, que apenas ganha mais espaço conforme é cativado pela cigana Esmeralda (Demi Moore). Tom Hulce, que dubla o corcunda, faz um excelente trabalho ao trazer uma voz sincera, inocente e quase angelical ao protagonista. A tristeza e o medo em sua voz são evidentes, ao passo que somente demonstra quem realmente é diante das gárgulas da catedral, que considera amigas. Aqui o roteiro brilhantemente lida com a exclusão social do personagem, que é forçado a criar amigos imaginários para fugir de sua solidão – questão evidente ao levarmos em consideração que somente ele os vê em movimento. Ao mesmo tempo temos a clara demonstração que estamos diante de uma figura sonhadora, cujos anseios são sempre jogados ao chão pelo seu mestre.

Tal oposição, contudo, ganha sua maior evidência através da dupla de músicas Luz Celestial/Fogo do Inferno (Heaven’s Light/ Hellfire), a primeira cantada por Quasimodo e a segunda pelo juiz. Enquanto o corcunda enaltece o brilho do amor e as boas sensações que nos traz, Frollo busca se desgarrar da paixão que sente pela cigana, condenando não somente ela, como toda Paris ao Inferno. A sequência em volta do juiz ainda deixa clara a iminência das chamas inquisitoriais que dariam as caras a partir dali. Nas sombras da parede do Palácio da Justiça vemos figuras encapuzadas carregando cruzes enquanto um tom avermelhado toma conta do cômodo. Aqui temos a perfeita transição da fé para a loucura, ao passo que o radicalismo ganha uma proporção assustadora enquanto o antagonista implora para Maria tirar esse sentimento de si, afastando-o, consequentemente, do pecado que tanto condena. Na humilde opinião deste crítico, uma sequência musical em torno de um vilão que rivaliza apenas com Se Preparem (Be Prepared), de O Rei Leão.

Limitar a qualidade musical da obra apenas a estas duas canções, todavia, seria uma grande injustiça de minha parte. Desde Os Sons de Notre Dame somos colocados em um estado de imersão inabalável e as outras canções, muitas das quais adotam uma variação desse primeiro tema apresentado, apenas nos imergem ainda mais. É interessante também como o filme assume uma atmosfera muito similar a grandes musicais como Os Miseráveis, não somente por se tratar de outra obra adaptada de Victor Hugo, como pelas canções irromperem a qualquer momento, não apenas ilustrando a cena em questão, como trazendo uma nítida progressão narrativa através de suas letras. Curiosamente são essas umas das fortes responsáveis pela relativa curta duração do desenho, visto que trazem uma fluidez notável a uma narrativa acelerada, que, portanto, se torna consideravelmente orgânica. Um bom exemplo disso é a canção O Pátio dos Milagres (The Court of Miracles) que apresenta de forma veloz o esconderijo dos ciganos, poupando-nos de uma longa sequência que poderia quebrar o ritmo do longa.

Naturalmente o trabalho de animação realizado também não deixa a desejar, especialmente se levarmos em consideração o movimento dos personagens e as cores utilizadas para retratá-los. Frollo carrega um nítido peso em seus movimentos, enquanto a cor púrpura mesclada com o negro, com traços de vermelho garantem a ele uma evidente imponência, posição hierárquica e, é claro, uma frieza assustadora. Quasimodo, por sua vez, é totalmente o oposto, é colocado em trajes simples, que destacam sua aparência diferente – interessante é como sua personalidade genuinamente boa não nos permite enxerga-lo como um monstro, como é constante chamado pelo seu mestre. Esmeralda, por sua vez, é um espetáculo à parte – percebam como não existem linhas de expressão em seu rosto e sua expressividade é garantida pelos grandes olhos e sobrancelha, esses, na cor que garante o nome da personagem, se destacam em sua pele escura, juntamente com o vermelho dos lábios, trazendo uma notável irresistibilidade à cigana. Isso sem falar em seus movimentos fluidos e calorosa personalidade, que, acima de tudo, implora pela liberdade e direitos iguais.

Quando a projeção de O Corcunda de Notre Dame se encerra mal podemos acreditar, tamanha é a fluidez de sua narrativa. Temos aqui uma obra de assustadora profundidade, que consegue nos fisgar desde suas primeiras melodias. Apesar de trazer essenciais mudanças em relação a Notre Dame de Paris, temos aqui uma adaptação que certamente traria orgulho ao autor do romance original, visto que não só respeita as temáticas centrais estabelecida no livro, como apresenta uma nova e apaixonante visão desse clássico.

O Corcunda de Notre Dame (The Hunchback of Notre Dame) – EUA, 1996
Direção:
 Gary Trousdale, Kirk Wise
Roteiro: Tab Murphy, Irene Mecchi, Bob Tzudiker, Noni White, Jonathan Roberts
Vozes originais: Tom Hulce, Jason Alexander, Demi Moore, Tony Jay, Paul Kandel, Kevin Kline
Duração: 91 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.