Crítica | “True Blue” – Madonna

Madonna é uma artista que sempre enfrentou desafios. Midiaticamente, nunca deixou de superá-los em prol da sua carreira e manutenção dos seus ideais enquanto mulher parte de uma cultura prosaica e banal inconstante, isto é, os meandros do pop, meio de circulação de artistas descartáveis como copos plásticos. Com o lançamento de True Blue, em 1986, Madonna superou as expectativas de fracasso e as apostas que confirmavam a sua passagem ligeira pela indústria da música. “Modinha”? Não. Ao contrário, Madonna teve o poder de escolhas na época. Recebeu numerosos materiais e dois caminhos para se bifurcar culturalmente: continuar essencialmente juvenil e focada nas rebeldias direcionadas ao público adolescente ou entregar um trabalho mais maduro que mantivesse os fãs já cativos, tendo em vista buscar novas arenas para exposição do seu potencial.

A escolha, como sabemos, foi o segundo caminho, fértil e produtivo, maduro e inteligente, tal como o seu terceiro álbum de estúdio, True Blue, um dos mais bem sucedidos comercialmente e responsável por consolidar a sua presença como artista relevante que vai além de um hit passageiro. No que tange aos aspectos musicais, Madonna tomou um rumo diferente e trouxe algo bastante novo em comparação aos trabalhos anteriores. O atrevimento de antes ainda estava presente, mas agora com uma voz mais firme e experiência com novos instrumentos. Na seara temática, dialogou com sonhos, decepções, amor, trabalho como superação, em composições interessadas em atingir o público adulto.

Em seus 40 minutos e 18 segundos (a edição padrão), o álbum foi produzido por Madonna, Stephen Bray e Patrick Leonard, trio interessado em estudar as novas tendências adotadas pela artista em sua direção musical que buscava oxigenação. Com voz mais impactante e letras mais maduras, True Blue investiu no pop e em duas ramificações: o pop-rock e o dance-pop, tendo ainda acréscimo de elementos musicais latinos e samba. A faixa homônima, título do trabalho, responsável pela criação da identidade visual marcante foi composta por Madonna e Stephen Bray. A canção liricamente fala sobre fidelidade e amor, por meio de um arranjo dance-pop bem simpático e “carinhoso”, embalado pelas promessas da expressão idiomática do refrão, isto é, “true blue”, expressão que designa ser “fiel de verdade”.

Live To Tell, composta pela artista em parceria com o produtor Patrick Leonard é a canção que mais se afasta do caminho juvenil e foca na balada exclusivamente adulta. Parte integrante da trilha sonora de Caminhos Violentos, filme com Sean Penn, seu marido na época, a faixa versa sobre o amor e a experiência por meio de um sofisticado arranjo musical, acompanhado por uma guitarra funk, sintetizadores discretos e um teclado primoroso. Há também uma reflexão sobre cicatrizes do passado (infância) que atingem o emocional de uma pessoa na fase adulta. Open Your Heart é uma aposta sensual e adocicada, mas sem excessos. Assinada pela cantora, em parceria com Peter Rafelson e Gardner Cole, a faixa com arranjo dance-pop traz uma percussão contínua e liricamente versa sobre os sentimentos inocentes de um garoto por uma garota, com Madonna a expressar através de metáforas um latente desejo sexual.

Uma das mais tocadas em todas as suas turnês até 2018 é a faixa La Isla Bonita, investimento de Madonna no pop latino. É uma das canções mais conhecidas, composta pela própria cantora, em parceria com Patrick Leonard e Bruce Gaitsh, uma espécie de “tributo à beleza e mistério do povo latino-americano”, conforme declarações de Madonna sobre a faixa durante algumas entrevistas. Com presença forte de instrumentos caribenhos, tais como violões e maracas, além de guitarras espanholas, tambores cubanos e gaitas. A faixa é uma homenagem do “eu-lírico” ao seu local de origem, isto é, a “ilha bonita”, interpretada por muitos críticos e especialistas na época como uma referência ao terreno cubano, o que seria uma afronta aos estadunidenses mais nacionalistas, haja vista as relações políticas constantemente tensas entre Estados Unidos e Cuba.

Narrada em primeira pessoa, Papa Don’t Preach é uma das melhores canções do conjunto. Composta por Brian Elliot e Madonna, a faixa versa sobre gravidez na adolescência e aborto. Há trechos da sonata Appassionata, de Beethoven, acompanhada por guitarras elétricas e rítmicas, teclados e instrumentos de corda bem arrojados. Um dos primeiros passos em direção ao conflito com a Igreja Católica em sua carreira, a faixa interpretada como uma ode ao sexo na adolescência foi alvo de polêmicas. O Papa João Paulo II sugeriu boicote na Itália, feministas consideraram a faixa um retrocesso para a questão do abordo ainda “quente” na contemporaneidade e os grupos antagônicos ao aborto adotaram a canção como um exemplo a ser seguido. No final das contas quem mais lucrou foi Madonna, pois as discussões causaram reboliço e a faixa foi comentada na mídia durante bastante tempo.

Promovido pela Who’s That Girl Tour, o sucesso de True Blue foi merecido e o álbum é uma prova de não envelhecimento, pois é sempre mencionado ou reiterado por artistas que fazem covers, bem como os usos de Madonna em suas turnês mais recentes. Os vocais de apoio de Keithen Carter, Siedah Garret, Jackie Jackson e Edie Lehmann são tão notáveis quanto o saxofone de Davi Baroff e a percussão de Paulinho da Costa. O álbum ainda conta com White Heat, faixa sobre negócios que cita Clint Eastwood; Jimmy Jimmy versa sobre um bad boy, fruto de contemplação; Love Makes The World Go Round trata de escapismo; e Where’s The Party fala sobre uma moça que trabalha bastante e encontra lazer na dança dos clubes noturnos.

A crítica especializada da época considerou a faixa True Blue menor para nomear o álbum, mas outros especialistas conseguiram perceber a necessidade de trabalho da imagem na cultura pop. Foi o que Madonna fez de maneira muito sagaz. A canção permitiu a criação de uma identidade visual forte para o álbum. As fotografias de Herb Ritts deram volume e densidade ao projeto gráfico de Jeri McManus e no terreno do videoclipe Madonna deu continuidade ao processo de criação de uma identidade camaleônica que aumentava as fontes de interesses do público consumidor. Era o começo de uma era para Madonna e para as mulheres na cultura pop.

Aumenta: La Isla Bonita.
Diminui: Where’s The Party.

True Blue
Artista: Madonna
País: Estados Unidos.
Lançamento: 30 de junho de 1986.
Gravadora: Warner Bros.
Estilo: Pop, dance poppop rock.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.